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Kaki King @ TMN Ao Vivo | 12 de Abril

Volta depressa!

Lá fora, à entrada da sala TMN ao Vivo, ali bem perto do Cais do Sodré, está vento e a noite não está propriamente a mais convidativa. Por vezes, até conseguimos sentir alguns salpicos na cara vindos do Tejo que está ali mesmo ao lado. Lá dentro, a história iria ser diferente.

A primeira impressão que se tem logo após entrar na sala é que está pouca gente mas ainda faltam 20 minutos para a hora marcada e o português, é sabido, gosta de chegar em cima ou, melhor ainda, chegar um pouco depois da hora marcada. E foi isso mesmo que aconteceu. Quase sem nos apercebermos, mesmo de repente, de um momento para o outro, uma sala que estava despida compôs-se.

22h15. Eis que Katherine Elizabeth King, mais conhecida no mundo da música como Kaki King, entra no palco, onde se encontra apenas uma cadeira e as suas guitarras. A entrada é quase tão discreta quanto a sua indumentária; umas calças e uma camisa com bolsos onde guarda um papel com uma lista de temas elegíveis para serem interpretados. Não se trata de um alinhamento na verdadeira acepção da palavra. É que de tempos a tempo esse papel é consultado, não para ver qual a canção seguinte, mas sim para escolher qual quer tocar de seguida. É bom quando se pode ter este tipo de postura num concerto.

Começamos por escutar «Bone Chaos in the Castle», do álbum “Dreaming of Revenge”, porém a meio doa canção começamos apercebemo-nos de que o concerto que estamos ali a presenciar não vai dar atenção particular a nenhum dos cinco álbuns que Kaki King já editou. Estamos ali para apreciar algo que é superior a isso. O talento de uma rapariga a tocar guitarra; e acreditem que não é fácil fazê-lo transparecer através de palavras. Parece que ficamos sempre um pouco aquém daquilo que seria o justo de dizer e escrever. Sim, ela é assim tão boa!

A relação de Kaki King com a guitarra é única. Não é realista escrever aqui que ela é a melhor guitarrista do mundo (embora muitos pensem assim). Mas é mais do que realista escrever que é uma das melhores. É uma virtuosa. O silêncio que se pode escutar é um reflexo disso mesmo. Quem está ali sabe exactamente ao que veio, e que para apreciar o momento convenientemente o silêncio deve ser respeitado.

Não é a cantar que Kaki King se sente como peixe na água. Ela fá-lo mas aqui os instrumentos acabam por funcionar com os papéis invertidos. Não é a guitarra que acompanha a voz. É a voz que acompanha a guitarra. Em Lisboa, junto ao Tejo, com a Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei como pano de fundo, fê-lo pela primeira vez ao som de «Life Being What It Is».

Só em palco, sem banda a acompanhá-la, as composições de Kaki King adquirem texturas e tonalidades diferentes. As suas composições são transfiguradas e ganham um toque único. Há espaço para o improviso. Há uma identidade cada vez mais vincada que revela uma capacidade ímpar de incorporar elementos que à partida pareceriam estranhos, como por exemplo as pancadas precisas na guitarra, que em certos momentos trazem à nossa memória ritmos flamencos. No entanto, as influências de Kaki King não se ficam por aí, e o que poderia muito prejudicá-la na verdade acaba valorizando a sua música, como ficou bem evidente durante o concerto. Houve momentos de folk, houve rock, houve até alguns salpicos de pop. E o que poderia resultar numa tremenda “salganhada” acaba por funcionar na perfeição, equilibrado de forma perfeita e exemplar por Kaki King.

O à-vontade de King aumenta de forma proporcional à passagem do tempo. Assim, quando se entra na recta final, a disposição é cada vez melhor e existe uma clara vontade de partilhá-la com o público através de dois dedos de conversa. Começa por dizer que está a trabalhar num novo álbum e que aos 19 anos era uma guitarrista mais interessante. É uma forma de sacudir a pressão que tem, naturalmente, crescido nos anos mais recentes da sua carreira. Ela própria trata de o esclarecer. É fácil perceber quando Kaki King comete algum deslize. A sua face deixa de imediato transparecer algum desagrado.

«Playing With Pink Noise» é um objecto estranho mas de rara beleza e vê-la ser executada é uma experiência única. Acho que se torna inevitável questionar se ao vivo a canção soa tal como em disco. A resposta foi dada em palco e foi clara como a água: sim! Durante o concerto há tempo para King recorrer a uma guitarra mais artesanal. O som produzido é cristalino e encerra em si influências mais orientais, do Japão para ser mais preciso; mais um momento precioso para juntar aos restantes.

A descontracção desconcertante de Kaki King contrasta com a execução sublime que nos oferece. Já perto do final do concerto as histórias continuam a fluir. Exemplo disso foram os “You Tube holes” (uma expressão da própria) – quando começamos a ver vídeos sobre um determinado assunto e quando damos por nós estamos a ver vídeos sobre algo completamente diferente de quando começámos. Ficou a sugestão para procurar por “teenage girls playing metal guitars”. Ficam por vossa conta e risco.

A fechar, antes do encore, surgiu «Sunnyside», do mais recente “Junior”, e devidamente acompanhada pela respectiva narrativa sobre o cão de King, daqueles salsichas, que herdou de uma relação e que acabou por ficar com os seus pais em virtude das constantes digressões. Por esta altura a sala TMN ao Vivo parecia uma gigantesca sala-de-estar.

Depois de tamanha demonstração de talento não há muito mais a acrescentar a não ser um muito sincero: volta depressa!



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