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Balearic

Mais Um Verão Eterno.

Praias, Sol, pessoas deitadas sobre toalhas a bordo de barcos à vela. Óculos escuros e barbas vindas directamente de 1971. Ibiza. Uma Ibiza quase irreconhecível, antes de se ter tornado na atracção turística para azeiteiros que é hoje, antes até de ter servido como motor para a explosão do Acid House. Noites na discoteca local (que passa versões Disco de canções dos Gipsy Kings) ou no quarto de hotel, a ver com leve melancolia a chuva a cair.

Nestas imagens, evocadas pelo melhor da música Balearic, encontramos paralelos com o movimento em si: tal como as discotecas de aldeia e os dias em barcos à vela, grande parte da música fetischizada pelos fãs do Balearic remete imediatamente para uma certa estética kitsch; mas a verdadeira atitude Balearic transcende acusações de ironia, porque foca-se inteiramente no prazer instintivo; consome-se a música com a mesma alegria intuitiva com que reagimos ao Sol e ao mar.

Tradicionalmente, Ibiza sempre foi um porto de abrigo para todo o tipo de refugiados. Pouco espanta então que nos anos setenta, com a Espanha sob o regime opressor de Franco, a ilha se convertesse não só no maior lugar para a comunidade gay da altura mas também no centro principal para a cultura hippie, como Frank Broughton e Bill Brewster (hoje um dos nomes mais sonantes no movimento de revivalismo Balearic) detalham no seu imprescindível livro “Last Night A DJ Saved My Life”.

Já nessa altura a ementa musical da ilha atestava a um ecletismo frenético, com Rock Progressivo a partilhar espaço com Reggae ou Funk com Bubblegum. Com a chegada dos anos oitenta, e um número cada vez mais crescente de turistas, essas raízes desenvolveram-se para dar luz a um estilo completamente próprio. A música Balearic tem uma forte influência Disco e prefere canções longas e ritmos lentos (se forem latinos é um bónus.)

A sua variedade nasce, antes mais nada, da necessidade – a ilha não possuía grandes lojas de discos e os DJs viam-se obrigados a encontrar tesouros onde podiam. Daí a forte presença de artistas tão pouco respeitados como Chris Rea e Phil Collins; daí também a predilecção por bandinhas Indie da liga dos últimos do Reino Unido, e as incontáveis raridades de artistas espanhóis, italianos, alemães. Inspirados pelo Sol e pelas drogas, os DJs de Ibiza faziam combinações mirabolantes da música mais diversa parecerem a coisa mais natural à face da terra – quando o House chegou à ilha no final da década, fez mais sentido do que em qualquer outro lugar do mundo.

No início dos anos noventa, o fluxo agora verdadeiramente monumental de turistas ingleses e a explosão da cultura Rave no Reino Unido fez com que Ibiza mudasse o seu tom, cedendo à lógica de four on the floor. A decadência seguinte está mais do que bem documentada. Ao mesmo tempo, as tendências mais relaxadas do anterior movimento Balearic desabrocharam no que hoje é conhecido como chill-out, em grande parte devido às compilações Café del Mar. Pouco espanta que o termo tenha caído em desuso – um movimento que acarreta a culpa pelos Zero 7 faz bem em esconder-se por alguns anitos.

Mas a verdade é que o Balearic original em todo o seu esplendor é quase o oposto da papa sonora do Chill-Out; é colorido e não acinzentado, exuberante e não reservado, pretende levar ao êxtase e não ao cabeleireiro. E como tudo volta a estar na moda, os últimos anos assistiram a um bando de artistas que têm revitalizado a ideia do Balearic, através duma série de discos e mixes que podem ser contados entre a melhor música lançada nesta década.

Balearic significa liberdade, o despir total de todos os preconceitos musicais para se perder – como diria David Toop – num mar de som. Artistas como Aeroplane, Todd Terje, Studio e Air France praticam o estilo numa nova roupagem, tentando assimilar tudo que se passou desde que o movimento foi interrompido no início dos anos noventa. O contraste com as outras grandes tendências da música electrónica actual é claro: os artistas recorrem a uma diversidade muito maior na instrumentação, dão atenção ao factor Pop, e – por vezes – nem se preocupam muito em ser dançáveis, apesar de – talvez paradoxalmente – acabarem sempre por o ser. Agora, o grande centro regional do revivalismo reside não em Ibiza mas, surpreendentemente, nas terras frias da Escandinávia, com destaque especial para Gotemburgo, na Suécia; mas existem pequenos bastiões da estética em Londres, em Nova Iorque, em São Francisco.

Um dos factores que distingue o Balearic é o facto de apelar fortemente a um grupo de coleccionadores que vai para além da música de dança. A verdade é que muitas são as pessoas que chegam à narrativa da música electrónica após experiências noutros campos, e tantos outros os que prosseguem essas experiências concorrencialmente com o seu interesse em House, Techno e afins. O Balearic permite aos DJs fazerem o seu outing como fãs de estilos e artistas que não têm lugar na música electrónica propriamente dita – isto porque um set  pode incluir Techno de Detroit ou New Beat belga, tão bem como Folk Rock dos anos sessenta, Stadium Rock e Jazz Fusion dos anos setenta, Indie dos anos oitenta.As limitações normais da música electrónica não existem – é legítimo passar Rock, Soul, Jazz, desde que se insira organicamente no ambiente do mix.

Existem caçadores de vinil com colecções recheadas de raridades Balearic sem sequer o saberem. E emigrantes de todos os países descobrem lentamente como a música popular do seu país – seja o Irão, a Finlândia ou o Vietname – condiz espectacularmente com a estética. Apesar das suas raízes hedonistas, o Balearic é um estilo perfeito para a era da internet e o crate digging compulsivo. De facto, é bem provável que haja mais Balearic a emanar de aparelhagens hi-fi em salas de estar tapadas pelo fumo de ganza, que em discotecas.

É também esta vontade de olhar para além da música electrónica que define a estética de design do movimento, tão cut & paste como a sua vertente musical. Encontramos camisas floridas directamente duma fotografia dos Small Faces em 1965; barbas como se usavam na Califórnia nos tempos de Crosby, Stills, Nash & Young; capas de discos que remetem para o Rock progressivo.

E é talvez também isto que faz com que a cena Balearic esteja tão inundada por edits de artistas tão variados como Bill Withers, David Cassidy, Tom Petty e Madonna. A paixão por tudo que seja colorido, hipnótico ou folksy (as guitarras acústicas têm uma presença muito forte no Balearic) leva a uma enchente de remisturas e reconjugações de canções dos mais variados sectores.

A ideia de edits, claro, nasceu nos primeiros dias do Disco-Sound, e de certa forma o Balearic é apenas mais um estilo que celebra o regresso do Disco à posição central na música de dança. Se ao longo dos anos noventa já foi feito algum trabalho para reabilitar o estilo entre os críticos de música, apagando a ideia anterior do Disco como mero momento kitsch e realçando o seu papel como origem do House, do Hip-Hop, das partes mais valiosas do Post Punk e como tal de praticamente toda a música moderna que interessa, foi só nesta década que o Disco, quase sem que se notasse, começou a dar o mote para mais e mais sub-estilos da música electrónica.

O Indie-Dance da DFA já vai remetendo para os anos setenta há uns bons anos; mais recentemente, o revivalismo do Cosmic Disco (uma cena ainda mais fortemente sediada na Escandinávia que o Balearic), bem como a vertente mais hippie e apaixonada por guitarradas a que alguns chamam Beardo Disco têm se esforçado por encontrar o som Disco nas fontes mais imprevisíveis. Mais directamente ligado ao House está a onda de Slow Motion Disco que, através de nomes como Mark E e The Revenge, vem ganhando alguma notoriedade. E resta enumerar ainda a ressurgência do Italo, desta vez com uma roupagem mais gótica (menos Pineapples, mais Goblin) através da Italians Do It Better.

O Balearic tem fortes ligações a todos os movimentos que enumerei, e com cada lançamento os music geeks podem voltar a entrar no divertido jogo de “eu acho que isto é mais…”. Mas tomada como um todo, e por muito revivalista que seja, a ressurgência do Disco é uma lufada de ar fresco para a música de dança, principalmente no espaço em que, supostamente, as suas narrativas mais se desenrolam – a pista de dança.

O Disco é, afinal de contas, a ligação entre a música negra clássica e a música electrónica – como tal, exige movimentos que, por muito mal feitos que sejam (full disclosure: o autor deste artigo é provavelmente o pior dançarino do Norte de Portugal) tentam transmitir alguma sensibilidade, elegância e soulfullness. O maximal desafiou apenas a pulos e punhos no ar, que provavelmente teriam sido mais divertidos ao som dos Sex Pistols; o minimal vem minando movimentos robôticos e militaristas. Regressar ao Disco significa despir algum machismo, voltar a uma experiência mais espaçosa, mais relaxada e – atraver-me-ei a dizê-lo? – mais sexy.

No fim, a mensagem principal do Balearic é liberdade. O espírito inclusivo do movimento é tão abrangente que que por vezes parece absurdo; não é por nada que o fórum I Love Music, um dos lugares que reúne mais entusiasmo pelo estilo na Internet, receba os seus visitantes com o aviso “jeez, not everything is balearic, guys”. Mas a questão é que, de certa forma, tudo é, ou ao menos tudo pode ser.

Uma das razões pelas quais é frustrante não haver mais gente dedicada ao movimento em Portugal (e não me iludo, o famoso lag lusitano continua em acção; anuncio o movimento como novo, mas o “Guardian” já fez cobertura há algum tempo, e nos termos velozes da música de dança, daqui a um ano ou dois já se terá passado para outra ideia) é que, se olharmos para a quantidade de música italiana e francesa que é fetischizada pelo público Balearic, isto seria uma rara ocasião para trazer o espólio musical português em jogo num contexto moderno. O próximo grande sucesso no Last Days Of Disco ou no programa Beats In Space – um edit de Tantra, José Cid ou Roquivários? Perfeitamente possível!

A música Balearic permite pegar na história da música, reconfigurá-la como nos apetecee e criar um universo paralelo, no qual é sempre Verão e noções ridículas como “bom gosto” e “ironia” não têm qualquer significado.

‘Bora nadar.

Recomendações:

Infelizmente não existe como compilação, mas provavelmente um dos maiores factores de re-divulgação do som Balearic clássico foi a lista dos 25 discos essenciais do movimento apresentada por Bill Brewster na estação de rádio Ministry, e que tem sido postada em incontáveis fóruns pela Internet afora (não será difícil ao leitor encontrar um zip com as canções reunidas nos serviços de partilha do costume); de Chris Rea e Donna Summer até aos Cure, Manuel Goetsching e Sebastien Tellier, a lista define o espírito aventureiro do “primeiro” Balearic.

O resto da lista que se segue lida principalmente com a nova vaga Balearic; tendo em conta a definição bastante flexível do termo, é legítimo perguntar se alguns dos álbuns incluídos não se encaixam melhor no Cosmic Disco, no Beardo ou em algum dos outros estilos presentes na grande tenda do Nu Disco. Mas creio que a grande maioria pode ser vista como Balearic, ao menos em espírito.

“Desire Lines”, Meanderthals (Smalltown Supersound)
“Disco Balearica”, Vários (compilado por Aeroplane; CD gratuito com a edição Abril 2009 da “Mixmag”)
“Fred Deakins Presents – Nu Balearic”, Vários (Ministry Of Sound)
“Future Disco”, Vários (Coolpool)
“Milky Disco, Vol.1 & 2”, Vários (Let’s Go Freak Out)
“No Way Down”, Air France (Something In Construction)
“Selected Label Works, Vol.1”, Vários (Permanent Vacation)
“Sexuality”, Sebastien Tellier (Lucky Number)
“Staying In”, Diskjokke (Smalltown Supersound)
“Where You Go I Go Too”, Lindstrom (Smalltown Supersound)
“Yearbook 1 & 2”, Studio (Information)



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