Lado Obscuro e Brilhantes Diamantes

Dois lançamentos de hip hop nacional em revisão na rua de baixo.

Nota prévia: Na incapacidade de escrever uma crítica convencional estes textos foram nascendo, em palavras que aponto no bloco de notas. Fica assim feita a minha crítica, e que melhor crítica poderia eu fazer, sem ser a descrição dos ambientes para onde a musica me leva.

Título: Lado Obscuro
Artista: V.A.
Editora: Zona Música
Género: Hip-Hop
Breve descrição: Compilação que reúne diversos nomes da cena Hip-Hop portuguesa, com especial destaque para grupos do grande Porto.

Nesta reunião de amigos há ruídos citadinos, ecos, tiros, sirenes. Há detenções de prostitutas, chulos a disparar sobre a bófia, velhas a coscuvilhar, cavaleiros montados em cavalos robô, Robin Hood’s do século XXI.
Há casas de fado com fadistas tatuadas, guitarristas de scratch, samplers com a menstruação, máquinas industriais possuídas, computadores com tuberculose, público vestido de cabedal e de chicote em punho, casas de banho com cheiro a urina, beatas de erva no chão, números de telefone escritos na porta, merda acumulada por autoclismos deficientes.
Há orquestras fantasmas, maestros de teclado, ritmos desconexos, colunas enormes, cabos por todo o lado, jacks mal ligados, microfones a fazer feedback, mesas de mistura largadas ao seu destino, técnicos de som bêbedos a cantar música de vikings.
Há pedradas na cabeça dadas por bombos e tarolas, loops esquizofrénicos e batidas prestes a bater as botas.
Há, no fim de tudo um sorriso quando o Lado Obscuro nos faz acreditar no futuro.

Titulo: Brilhantes Diamantes
Artista: Serial
Editora: Norte Sul
Género: Hip-Hop
Breve descrição: Álbum a solo de Serial, Produtor e DJ do colectivo Mind da Gap. Para esta sua aventura convidou diversos MC’s conceituados entre eles: Ace, Presto, Mundo, Fuse entre outros.

Apresentação de um filme de Hollywood, os actores sorriem para os fotógrafos, atrás estão cenários falsos que imitam o ambiente do filme. Cenários que escondem na sua sombra um local onde vivem pessoas que sonham, que amam e que se beijam, pessoas que buscam a liberdade de espírito, sobrevivem sustentando o circo mediático que se passa ali à sua frente.
São criativos, tocam violinos à sua maneira, tocam pianos desafinados e amam tudo o que produza som. Não procuram a melodia, procuram música que faça justiça ao seu modo de vida, a sua lei é a da sobrevivência.
Esta gente construiu cabarets de Hip-Hop. O glamour desses cabarets é obtido sobre uma base funk, soul e R&B à séria. Acabaram-se os espectáculos de sapateado, agora é o Breakdance que ocupa o palco. Deixaram de existir vistosos vestidos, cheios de floreados, foram substituídos por calças de ganga e tops curtos. Neste cabaret não se usam chapéus de coco, o reino é dos bonés de basebol.
As canções não são interpretadas por cantores, mas por pessoas com a alma na voz.
O circo mediático continua, para além deste cabaret. O cenário continua a tapar o arco-íris que ilumina esta gente, o solo que pisam é fértil em Brilhantes Diamantes.



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