Kubik

“Metamorphosia” marca o regresso aos originais do projecto experimental mais independente em Portugal. Entrevista com Victor Afonso.

Uma vida inteira dedicada à música. Um curriculum repleto de motivos de interesse, onde podemos encontrar um grande número de colaborações, edições em diversas compilações, concertos em festivais, uma passagem pela Aula Magna na primeira parte de Fantômas e dois discos de originais. Sempre com o experimentalismo em mente, esta é a obra de um dos mais interessantes artistas nacionais, que nunca perdeu a sua independência e que continua apenas à procura de satisfazer a sua necessidade criativa. Entrem no mundo kubikiano de Victor Afonso. Não tenham medo, é apenas música.

Depois de um primeiro álbum, “Oblique Musique”, bastante bem recebido por alguma crítica “especializada” e de uma actuação memorável na Aula Magna, na abertura para Mike Patton e o seu projecto, Fantômas, Victor Afonso regressa às edições, apesar de nunca ter estado “parado”, tendo participado em diferentes projectos. A sua participação mais recente foi no álbum de remisturas dos Norton, “Remixes & Versions”.

Seguindo a sua linha muito própria de reinvenção de sonoridades, “Metamorphosia” é a natural evolução do trabalho de Victor Afonso e pode muito bem servir de apresentação a quem ainda não conhece os sons kubikianos. Para além da notável utilização de diferentes tipos de sons na criação de ambientes diversos, mais ou menos sombrios, existe pela primeira vez a utilização da voz, tanto através de samples como na participação de ilustres convidados como são o caso de Old Jerusalem e Adolfo Luxúria Canibal.

Dividido em dois lados, à semelhança de um vinil ou uma cassete, neste trabalho existe uma aproximação ao formato de canção, potenciando a captação de novos públicos, mesmo que não seja esse o objectivo de Kubik.

Quem melhor que o próprio Victor Afonso para nos explicar esta nova etapa na carreira de Kubik? Fiquem com a entrevista.

Ruadebaixo: O título “Metamorphosia” não podia ser também o “adjectivo” que caracteriza o teu projecto?

Victor Afonso: “Metamorphosia” é um neologismo criado por mim para o título deste meu trabalho. Naturalmente que a palavra de origem é metamorfose (ou metamorphosis) e sugere a ideia de transformação, de mutação de conceitos, de orientações estilísticas misturadas, dando origem a novas experiências musicais. Daí que não me repugne essa observação de que “Metamorphosia” possa ser também um adjectivo que classifique, em termos estéticos, este disco.

Rdb: Achas que este disco representa melhor aquilo que pretendes produzir?

VA: Acho que acaba por ser um prolongamento estético do “Oblique Musique”, editado no final de 2001, no sentido em que as premissas que estavam naquele álbum são agora desenvolvidas com novos recursos, novas abordagens, novos processos criativos, dando uma corporalidade maior à sonoridade Kubik. A ideia de fragmentação estilística, de fusão de géneros, de manipulação electrónica dos materiais sonoros, da reciclagem de referências musicais, são conceitos-chave para compreender o meu trabalho e que no “Metamorphosia” estão, seguramente, mais patentes do que no disco anterior. Creio que se trata de um disco mais maduro, tendencialmente conceptual, mais bem produzido, com uma maior preocupação pela produção e pelos critérios dos músicos convidados. “Metamorphosia” é todo um universo musical múltiplo que reflecte a minha paixão pela música, pela reestruturação e remontagem dos elementos sonoros, como se de um gigantesco jogo de legos se tratasse. Livre de convenções estilísticas, de formatos e de regras. Apenas a criatividade é a regra suprema para o universo Kubik.

Rdb: Achas que é um disco mais “fácil” que o anterior?

VA: Depende da perspectiva. Para um ouvinte com ouvido alérgico a propostas fora do registo mainstream, então os dois discos são algo “difíceis”. Para um ouvinte com abertura de horizontes, com sede de descobertas sonoras, de novas propostas musicais com base na fusão inebriada de géneros, então serão os dois discos muito fáceis de ouvir. Haverá um ou outro tema mais experimental, mais austero e corrosivo, mas a maior parte dos temas do “Metamorphosia” são quase aproximações ao “formato de canção”, mas sem nunca chegar a esse estatuto, uma vez que me divirto a subverter essas convenções estandardizadas. Gosto do choque dos contrários que acabam por originar uma força criativa maior e surpreendente, visto que no disco há melodias fáceis como há ruídos; há vozes encantadoras como há gritos e gemidos; há batidas simples como há poliritmias inauditas; há samples de cartoons misturados com riffs de death metal como há saxofones jazzy em ambientes kraut; há coros gregorianos misturados com devaneios pós-rock; há easy listening à baila com vozes guturais do Old Jerusalem; há composições orquestrais como há ritmos marciais soturnos e ameaçadores. Por conseguinte, é um mundo aberto à descoberta, e quem goste de descobertas musicais, por certo terá prazer em ouvir Kubik. É música electrónica de um cidadão virtual do mundo. Perdão, do Universo.

Rdb: Procuras captar a atenção de mais público para a vertente mais experimental da música?

VA: Não faço música a pensar no público, se bem que a minha mãe ainda esteja à espera que componha uma música de que ela possa vir a gostar, a modos que “assobiável”. A minha música é alheia aos fenómenos musicais de moda ou às playlists ditatoriais das rádios. Se me interessasse fazer música para chegar ao grande público, por certo que não teria escolhido enveredar pela linha mais experimental da criação musical. Interesso-me pelo lado desviante da música (como no cinema ou na literatura), pelo lado menos ortodoxo e previsível. Não faço cedências artísticas nem sofro de pressões por parte da editora, do público ou do que quer que seja. Não tenho sequer em mente, durante o processo criativo, se esta ou aquela música vai ser interpretada como experimental por este ou aquele tipo de público. Agrada-me e basta-me que as pessoas ouçam o meu trabalho, independentemente de ser considerado experimental. Por vezes fico surpreendido com as reacções à minha música, vindas de pessoas que nunca imaginaria que pudessem gostar do que faço: foi o caso de um showcase numa Fnac, aquando da apresentação do “Oblique Musique”: no final um senhor dos seus 50 e muito anos acompanhado pela sua neta de 7 ou 8, abordou-me dizendo que tinham gostado muito. Compraram o CD e pediram-me um autógrafo. Confesso que fiquei algo embaraçado. Ainda pensei se aquele respeitável senhor não estaria a confundir-me com o Armando Teixeira ou o David Fonseca…

Rdb: Tocar antes de Mike Patton foi o momento mais alto da tua carreira? De que forma foi importante conhecer o “senhor”?

VA: O “senhor” é realmente um senhor: sem vaidades de rock star, excelente conversador, afável e atencioso. O Mike Patton conheceu o meu disco porque a Sabotage lho enviou. Ele adorou o disco, tanto que me convidou pessoalmente a fazer a primeira parte dos Fantômas na Aula Magna, em Maio do ano passado. Fiquei atónico quando recebi um mail pessoal do Mike a dizer que teria todo o gosto que um artista como eu tocasse antes dos Fantômas. Este reconhecimento artístico por parte de um músico que eu sempre admirei, é deveras estimulante para mim e corresponde, porventura, ao momento mais alto do meu percurso musical. O Mike Patton foi a primeira pessoa que ouviu o “Metamorphosia”, há alguns meses atrás, dado que o próprio colocou a possibilidade de o editar pela sua editora, a Ipecac Recordings. Acontece que, apesar do Mike ter adorado o disco e ter dito que estava a trilhar um universo musical muito próprio, não havia espaço na editora para editar o “Metamorphosia” este ano. Ou seja, só poderia ser editado em 2006 pela Ipecac. Como não queria esperar mais um ano com o disco na gaveta, optei por editar novamente pela Zounds/Sabotage. Mas o Mike deixou uma porta aberta para uma eventual colaboração num futuro próximo…

Rdb: Porque dividiste o disco em dois lados. Existe um lado mais “obscuro”?

VA: Não. Existem dois lados diferentes. Mas acabam por ser quase dois lados abstractos, dada a imaterialidade desses lados. São dois lados nos quais existem 7 temas em cada um, fazendo com que haja uma certa separação dos dois lados. E os três “falsos intros” acabam por dar uma estrutura muito especial a todo o disco. Por outro lado, é também uma forma nostálgica de reviver os tempos do vinil e das cassetes, quando havia a separação física dos lados A e B, e me entretinha com os amigos a perceber qual o melhor lado de cada disco. Era um tempo em que a militância e o gosto pela música tinha contornos passionais que hoje praticamente já não existem.

Rdb: O que achas que Old Jerusalem e Adolfo Luxúria Canibal trouxeram à tua sonoridade?

VA: O Old Jerusalem e o Adolfo são dois músicos que eu admiro, cada um à sua maneira. Ambos gostaram muito do “Oblique Musique” e já os conhecia pessoalmente. Lancei-lhes o desafio de participar no meu novo trabalho, dando-lhes liberdade criativa total para tal. Gostaram muito da ideia e o resultado pode ser constatado no disco. Cada um a seu modo, pela forma como encaixaram as respectivas vozes nas sonoridades kubikianas, acabaram por enriquecer sobremaneira o álbum, dando-lhe uma expressividade distinta. O Adolfo num registo muito semelhante ao habitualmente utilizado nos Mão Morta, e o Old Jerusalem num registo vocal muito diferente daquele que conhecemos, quase irreconhecível, mas que se encaixa na perfeição na minha música. Mas queria dizer que não foram os únicos músicos que participaram no disco, houve outros, porventura menos mediáticos, mas igualmente importantes.

Rdb: Quais os teus objectivos e expectativas com este novo trabalho?

VA: Os objectivos passam, singelamente, por promover e divulgar o mais possível o “Metamorphosia” a um leque mais variado de público. Sem um bom trabalho de divulgação é impossível que o disco seja bem aceite e chegue ao público indicado. As expectativas em relação ao disco são boas, e as reacções que tenho tido até agora têm-me deixado muito satisfeito, dado que o feedback tem sido ainda mais positivo do que com o “Oblique Musique”.



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