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L’enfant Matrix

A instrumentalização das crianças.

Num mundo simulado as máquinas manipulam, para sobreviverem, os corpos adormecidos do ser humano. Em “Enfant“, apresentado na Culturgest, Boris Charmatz coloca em confronto adultos e crianças. A procura de um movimento espontâneo, quase tosco, poder-se-ia mesmo dizer infantil, faz-se de forma cruel. Os adultos/bailarinos manipulam o corpo das crianças como se de marionetas se tratassem. Puros objectos, inertes, de olhos fechados, que servem os propósitos e as vontades dos manipuladores. Crianças reféns dos adultos, sem opinião, frágeis, arrastados no chão, transportados de cabeça para baixo, agarrados apenas por uma perna. É um espectáculo incómodo. Vários fantasmas são invocados: a submissão, os abusos físicos, psíquicos e sexuais.

Irónica, mas não inocente, a utilização da música «Billie Jean» de Michael Jackson. Discretos, mas eficazes, os figurinos pretos, simples, realçam a forma e beleza dos corpos, emoldurando a pele que aqui e ali se vai deixando ver. Aos poucos perguntava-me que direito tem este coreógrafo de utilizar o corpo das crianças para o seu trabalho? Ainda que esteticamente a leveza e doçura do corpo da criança em contraste com a rudez e força do corpo adulto seja… admirável. A criança é aqui utilizada como um meio para alcançar a vontade e visão do criador. Não existirão limites éticos na arte? Poderá a arte sobrepor-se à violência sobre aqueles corpos? O espectador será (deverá ser) um voyeur cúmplice e inerte?

No final, os bailarinos/adultos extenuados deixam-se vencer pelos corpos cheios de energia das crianças. Pouco a pouco, estas passam de manipulados a manipuladores, quase que como castigo. “Agora vais sofrer nas minhas mãos o que eu sofri nas tuas”. Senti quase como se fosse um pedido de desculpas (frouxo) do coreógrafo.

Não é uma peça unânime. Houve quem saísse, quem aplaudisse de pé, quem não aplaudisse, quem a louvasse desde logo, quem a odiasse na mesma medida. Para o bem e para o mal não será facilmente esquecida. Esta fronteira entre a instrumentalização das crianças e a denúncia dessa mesma instrumentalização não é fácil. Nem clara. E se calhar é aí que reside a relevância desta peça.



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