“Vento do Oriente, Vento do Ocidente” de Pearl S. Buck
Uma mulher entre dois mundos
A passagem dos anos parece, em alguns livros, cimentar a sua pertinência e marca, que extravasam o tempo em que foram escritos, envelhecendo bem enquanto continuam a deslumbrar e inquietar o leitor.
Vento do Oriente, Vento do Ocidente (D. Quixote, 2026), da norte-americana Pearl S. Buck, é um desses exemplos. Publicado originalmente em 1930 e agora reeditado, com tradução de Ana Marta Caio, este romance conserva uma capacidade ímpar para nos transportar para uma China em transformação, enquanto revela a voz de uma escritora ainda à procura de uma forma definitiva para as suas preocupações literárias.
Filha de missionários, Buck foi viver para a China com poucos meses, tendo sido educada num ambiente bilingue e olhar e respeitar o povo chinês como seu igual. Esta experiência fez com que vivei no país conhecido por Gigante Asiático tornou-se absolutamente central na sua obra, revisitando a proximidade física e emocional com a China em outros livros como, por exemplo, A Eterna Demanda, Imperatriz – A História da Última Mulher que Governou a China ou Terra Abençoada, este último considerado a sua obra-prima e que contribuiria para que a escritora vencesse o Nobel da Literatura em 1938, três anos depois de abandonar o seu país adotivo para não mais regressar.
Em Vento do Oriente, Vento do Ocidente, acompanhamos Kwei-lan, uma jovem chinesa educada segundo os códigos de uma família tradicional, cujo casamento com um homem regressado dos Estados Unidos põe em causa certezas que pareciam imutáveis. O marido recusa vários costumes que ela aprendeu a aceitar como naturais, incluindo a prática de deformação dos pés, e apresenta-lhe uma visão do mundo fundada na educação, na autonomia individual e numa ideia de modernidade que não é apenas geográfica: é também moral e afetiva.
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Enquanto as páginas avançam, verificamos que a metamorfose de Kwei-lan não acontece através de uma revolução súbita, sendo um processo de deslocação interior, feito de perplexidade, resistência e aprendizagem. É esse mesmo processo que torna a personagem interessante, além de Buck se recusar a apresentar Kwei-lan como uma heroína esclarecida que aguarda a libertação, mas sim alguém que ama as teias que a oprimem, porque são também matéria da sua identidade. Ou seja, a família, a tradição e o dever não são abstrações, mas os vínculos através dos quais aprendeu a compreender o seu lugar no mundo.
A segunda parte do romance amplia esse conflito através do casamento do irmão de Kwei-lan com uma mulher norte-americana. Se, na parte inicial, a transformação se dá dentro do casamento, aqui o choque cultural torna-se mais visível e coletivo. A família enfrenta uma presença que não consegue integrar nos seus códigos, enquanto a jovem estrangeira se vê isolada num ambiente em que os gestos, as expectativas e as regras de pertença são-lhe desconhecidos. Inteligente, Buck evita assim, em grande medida, transformar o conflito numa simples oposição entre personagens “boas” e “más”. Há antes uma reflexão sobre a sua incompreensão, os seus preconceito e a sua rigidez, mas também sobre o medo, a lealdade e a incapacidade de imaginar uma vida fora das convenções que herdou da família.
Esse é um dos pontos em que Vento do Oriente, Vento do Ocidente revela a ambição de pôr a nu que o encontro entre Oriente e Ocidente não se resume a uma disputa entre costumes, estando a sua génese na possibilidade de escolher, seja o casamento, o corpo, a família, o futuro e até a própria definição de felicidade. A modernidade surge nessas páginas como promessa de liberdade e força intrusiva, acompanhada de uma convicção nem sempre questionada sobre a superioridade dos seus valores.
O desconstruir do mito da sociedade oriental, torna a narrativa de Buck dona de uma fragilidade formal que não anula a sua força, ajudando sim a entender este livro como uma obra de transição, escrita por alguém que ainda experimentava modos de conciliar observação cultural, melodrama familiar e reflexão humanista, sempre à boleia de um discurso genuíno, por vezes carregado de dor, de quem se pode sentir estrangeiro dentro da própria casa, de carregar o peso das expectativas familiares e de entender dificuldade de amar quando isso implica desafiar uma “lógica” que pode pôr em causa quem somos.
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