London Grammar | “If You Wait”

London Grammar | “If You Wait”

Deixem-no entrar na pele, apertar-vos o coração até não aguentarem com tanta endorfina

A novidade de descobrir London Grammar aconteceu-me quando me rendi à voz de uma mulher que cristalizava o tema «Help Me Lose My Mind» de Disclosure. Ouvi-o sem parar durante uns bons tempos e pensei… “Que voz! De certeza que deve ter mais algum trabalho musical por aí”. E, com isto na cabeça, procurei por Hannah Reid na internet até que o nome London Grammar saltou do ecrã.

London Grammar é um trio onde Hannah é a vocalista, ao lado de Dot Major (percussão, teclados) e Dan Rothman (guitarra). Em Setembro deste ano lançaram o seu primeiro álbum “If You Wait” (Metal&Dust Records, Columbia Records, 2013) que verazmente se disseminou pelas rádios e redes sociais portuguesas. A banda gerou um hype tão grande em Inglaterra (e fora dela também) que, ainda antes de o disco ter saído para as lojas, foi nomeado para os UK Mercury Music Prize. Nos dias de hoje, este tipo de acontecimento é raro e merece o nosso olhar atento.

O buzz teve a sua razão de ser e só digo isto: escutem o single «Hey Now». Oiçam-no a meia-luz, sozinhos no quarto com headphones ou com a aparelhagem quase no máximo. Deixem-no entrar na pele, apertar-vos o coração até não aguentarem com tanta endorfina. Os primeiros acordes começam e similaridades a The XX são notórias. A vibração peculiar da guitarra remete para um lado mais obscuro e sombrio, e a voz de Hannah ressalta na perfeição – “Hey now, letters burning by my bed for you. Hey now, I can feel my instincts here for you, hey now”. Esta fusão é tão extraordinária que arrepia de tão boa que é, com a Pitchfork a dar-lhes 7,1 (escala de 0,0 a 10 pontos) nesta estreia, nada mau.

Os três músicos londrinos conheceram-se em 2009 na Universidade de Nottingham e começaram por tocar em bares locais. Em 2012, «Hey Now» aparece no YouTube e recebe mais de 1,5 milhões de views, saindo então para as lojas digitais, integrada no EP “Metal & Dust” (Metal & Dust Recordings), gravado em Fevereiro de 2013.

A música «Wasting My Young Years» veio depois, alcançando igual notoriedade e é a minha favorita, seguida de «Strong», ambas acompanhadas por vídeos espectaculares. As suas composições são dentro do trip hop, dando sempre destaque à voz de Hannah e às letras, profundas, intensas, e o fascínio aumenta ao entendermos o que nos dizem – “You crossed this line. Do you find it hard to sit with me tonight?” ou “While I’m wide eyed and so damn caught in the middle. And a lion, a lion roars would you not listen?”, respectivamente. Sentimos a dor, o desapontamento e o medo, no amor. Sentimos o estar lá em baixo, na água escura e a luta por vir ao de cima, respirar. Do que li, a inspiração para a composição lírica é mesmo a vida de Reid.

Ao som de um piano insinuado, Hanna em «If You Wait», tema que dá nome ao próprio álbum, canta quase “despida”, de coração nas mãos. Conseguimos sentir esse frio e essa entrega no estalar de cada palavra. Em «Sights», Reid diz-nos que somos feitos da mesma matéria e por quê termos medo quando tudo à nossa volta se estilhaça? Diz-nos para manter de algum modo a força – “Keeping your strength, when it gets dark at night. What you’re feeling, it’s what I’m feeling too. What you’re made of, it’s what I’m made of too” – ou, baseando-se em algum relacionamento, ouvimos – “We argue we don’t fight” – em «Metal & Dust».

Podemos dizer que London Grammar apostaram mesmo tudo em versões assumidamente pop, fáceis de ficarem na nossa cabeça durante uns dias, cozinhadas no género trip hop, que lhes dá aquele brilho chill-out-like, e os toques electrónicos fazem a magia acontecer. A cover de Kavinsky para o tema «Nightcall» está incrível, dando uma roupagem sentimental totalmente diferente do que já conhecemos e a idiossincrasia mantém-se nas restantes nove canções que compõem o disco. Em «Interlude», gravada ao vivo nos estúdios State of Ark, ouvimos uma voz inicial suave que nos belisca o ouvido e explode repentinamente na sua parte final, desprendida de tudo. Na canção «Flickers», bem estruturada e bem escrita, escutamos repetidamente ’It flickers, it flickers in my head’ dando a ideia de adolescência, da paixão, do desejo, do jogo. Outro tema bem conseguido é a «Stay Awake», introspectivo, onde a letra fala por si – “I am the blank page before you. I am the fine idea you crave. I live and breathe under the moon. And when you cross that bridge. I’ll come find you”.

«Darling are you gonna leave me» e «When we were young» são as únicas músicas a usar um ritmo meio tribal, distanciando-se de certa forma do resto do álbum. A «High Life» é pop puro, com coro no refrão e a estrutura rítmica repetitiva. Sinto a música «Feelings» colada ao trabalho da própria Florence Welch dos Florence and The Machine, tanto na colocação da voz como na própria batida. As menos atractivas são a «Help», «Maybe» e «Shyer».

Outra particularidade é a banda estar a ter imenso apoio de variadíssimos djs, que se têm esmerado por salpicar estas músicas de modo a poderem entrar nas pistas de dança do mundo.

Já foram confirmados para o SXSW 2014 mas ainda não se ouviu falar deles em nenhum festival nacional. Fica a dica.



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