Lourentinho Dona Antónia de Sousa Neto e Eu & The Shipping News

José Luandino Vieira) & E. Annie Proulx.

LOURENTINHO DONA ANTÓNIA DE SOUSA NETO & EU
de José Luandino Vieira

Lourentinho Dona Antónia de Sousa Neto & Eu é um livro do escritor angolano José Luandino Vieira composto por duas estórias: “Kinaxixi Kiami (Lourentinho)” e “Estória de Família (Dona Antónia de Sousa Neto)”. As estórias foram escritas em 1971 e 1972, no Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira esteve preso durante oito anos.

A primeira coisa com que o leitor desprevenido se depara é a linguagem utilizada e o estilo de escrita extremamente oral. Há muitos vocábulos desconhecidos do comum leitor português, o que é comprovado pelo extenso glossário do fim do livro: mais de dez páginas de expressões em quimbundo e vocábulos da linguagem oral angolana.

Numa primeira tentativa, consultei o glossário frequentemente. Várias vezes por uma só página da obra. Nem sempre o glossário tinha a palavra que eu procurava. Resultado, a leitura tornava-se cada vez mais penosa. Pensei se não seria melhor haver notas de rodapé em vez de glossário no fim do livro. Mas aí colocava-se o problema estético: seriam demasiadas notas de rodapé; dito directamente: ficava feio. No entanto, era extremamente aborrecido para mim ter de ir frequentemente procurar palavras às mais de dez páginas de glossário.

Como a leitura se estava a tornar demasiado penosa para continuar, resolvi esquecer o glossário e tentar enveredar pela obra assim mesmo, como que desarmado para uma batalha. O resultado: a batalha foi-me dando algumas armas e eu fui conseguindo lutar. O livro tornou-se muito mais agradável.

Falemos então do livro.

A primeira estória – “Kinaxixi Kiami”, que significa Meu Kinaxixi – é-nos narrada por Lourentino, uma luandense de Kinaxixi. Lourentino conta a sua história até ao momento presente (o momento da narração), uma história de saudade, de amor pela terra e pela natureza, que culmina de forma muito dramática, num final imensamente comovente. Nesta estória está bastante patente a temática ecológica e a defesa da natureza, que é retratada como uma vítima da cada vez mais insistente ameaça do homem.

Já a segunda estória – “Estória de Família” – é um pouco mais lúdica, mas não deixa de conter crítica. Retrata um almoço de noivado que funciona como uma montra da sociedade de Luanda nos últimos anos do colonialismo. Desfilam perante o leitor muitas e interessantes personagens, que põem a nu os choques sociais e culturais, dando inclusivamente origem a brigas.

Este não é um livro fácil de ler. Acima de tudo, é de difícil entrada. Mas quando se entra na escrita e no mundo de Luandino Vieira, a experiência torna-se imensamente agradável e muito gratificante.

THE SHIPPING NEWS
de E. Annie Proulx

Edna Annie Proulx é uma autora sem grande nome em Portugal. Mesmo de entre os muitos que viram o filme Brokeback Mountain, de Ang Lee, poucos saberão que é baseado num conto desta autora, com o mesmo título. A editora Cavalo de Ferro quer dá-la a conhecer aos portugueses, como tem feito já com muitos autores que vale a pena descobrir. Por isso, eu faço-lhes a minha vénia; até porque, confesso, a mim também ma deram agora a conhecer. Fiquei muito feliz por saber que a editora não se vai ficar por este The Shipping News, mas que pretende publicar muita da obra de E. Annie Proulx.

The Shipping News conta a história de Quoyle, um homem de estatura considerável, mas de carácter muito pouco vincado. Tímido, submisso, é o típico desajeitado nova-iorquino. Suporta uma relação em que é frequentemente humilhado por Petal, de quem acaba por ter duas filhas, até que ela o abandona definitivamente para fugir com um dos seus muitos amantes. Ela leva-lhe as filhas e acaba por ter um acidente no qual morre. A polícia descobre depois as filhas de Quoyle, que tinham sido vendidas a um fotógrafo, pela própria mãe. As meninas não sofreram abusos. Quoyle vê-se então desamparado: viúvo, órfão (os seus pais também tinham morrido) e sem sentido para a vida. É então que entra em cena a tia Agnis. Depois de o conhecer, fala-lhe da Terra Nova (uma ilha no sudeste do Canadá), de onde a sua família é originária. Sem nada que o prenda a Nova Iorque, Quoyle decide partir rumo à Terra Nova, com a tia e as duas filhas, para trabalhar num jornal local.

Desde já, para quem odeia spoilers, fiquem descansados. Toda esta desventura é apenas o início do livro. É apenas uma pequena introdução, uma montra do passado de Quoyle. A verdadeira acção da obra centra-se já na Terra Nova, onde o protagonista vai refazer a sua vida. Este é um livro de reconstrução, pode mesmo dizer-se de ressurreição (e quando se chega ao final do livro, percebe-se perfeitamente o que quero dizer). Quoyle vai, a pouco e pouco, pondo para trás não só o seu passado, como também o próprio Quoyle nova-iorquino, para se transformar num novo homem. Isto, por estranho que pareça, reflecte-se no leitor que, ao mesmo ritmo de Quoyle, vai esquecendo o passado. Tanto é que, para escrever este artigo, tive que ir às primeiras páginas do romance em busca de apoio porque já não me recordava do que se tinha passado antes da vida na Terra Nova.

A Terra Nova é uma terra de pescadores e de pequenas localidades. É uma terra de frio, neve e gelo. É uma terra de grandes tempestades, de naufrágios, afogamentos, acidentes e outras tragédias. Por tudo isso, é também uma terra de ambiente familiar, o que faz com que Quoyle facilmente faça amigos (coisa que nos E.U.A. não tinha – à excepção de Partridge). Este ambiente é magistralmente retratado pela mão de E. Annie Proulx. Nota-se um grande trabalho de investigação, de modo a conhecer todas aquelas comunidades e as suas características. Conhecer o vocabulário, os termos técnicos relativos à pesca e às embarcações, etc. Eu, enquanto leitor, não sou propriamente adepto de livros com grandes pormenores técnicos, fruto de elaboradas investigações. Mas, neste caso, tenho que fazer jus ao livro e admitir que faz todo o sentido tanto pormenor. É graças a tudo isso que conseguimos mesmo “entrar” no universo terra-novense, simpatizar com os seus habitantes e, por exemplo, não os condenar quando nos é descrito um episódio horrível de caça à foca.

Outro factor que torna este livro marcante e diferente é o estilo de escrita de E. Annie Proulx. Não posso dizer se é um estilo da autora ou apenas deste livro, porque não li mais nenhum da sua autoria. É um estilo directo quando tem de ser directo, poupando nitidamente nas palavras, escrevendo só o que é estritamente necessário. É um estilo detalhado e demorado quando tem de ser detalhado e demorado, abusando em pormenores e descrições minuciosas, recorrendo a termos técnicos de pesca e navegação. E é terno e subtil quando fala de sentimentos, de emoções. É um estilo que funciona muito bem e que faz o livro funcionar.

The Shipping News é um livro sobre a reconstrução, sobre o amor, sobre pescadores e sobre a Terra Nova. E mesmo para quem, como eu, não tinha nenhuma curiosidade especial por pescadores ou pela Terra Nova, é um romance fascinante e comovente.

O livro foi publicado, na versão original, em 1993, e adaptado ao cinema em 2001 por Lasse Hallström, com Kevin Spacey no papel de Quoyle.



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