Palavras na Rua

Canções de Amor em Lolita's Club, de Juan Marsé.

O tema não é inovador, mas nunca perde o seu encanto. A média luz, o fumo que paira no ar, as canções gastas, os vestidos demasiado curtos e os rostos demasiado maquilhados, tudo isto está no romance de Juan Marsé. Em Canções de Amor em Lolita’s Club, acompanhamos de perto o universo de um bar de alterne – o Lolita’s Club – nos arredores de Barcelona, onde não faltam as raparigas cheias de sonhos simples e ambições realistas, que se viram ali a vender o corpo por dinheiro, sem saber bem como. Vêm de famílias pobres da América do Sul e é para as famílias pobres da América do Sul que querem regressar. Porque partiram então? É que, ainda que daqui pareça que não, visto de lá a Europa é uma porta entreaberta e as meninas não resistem a portas entreabertas.

Mas as personagens centrais desta história nem sequer são as pobres raparigas enganadas por chulos sem escrúpulos. Essas também cá andam e seduzem constantemente o leitor (principalmente aquela que tem uma cicatriz na coxa que afasta alguns clientes), mas a trama principal gira em torno de dois irmãos gémeos, que não são tão parecidos quanto seria de esperar – Valentín e Raúl. Quis o destino que à nascença apenas um deles ficasse com lesões cerebrais e, como tal, condenado a ser eternamente “menino”. O outro tornou-se polícia, um polícia dos duros, de maus modos, como se quer numa história que envolve prostitutas. Valentín, o deficiente, partilha no entanto, apesar da sua mentalidade infantil, o aspecto forte e robusto do irmão. Vive em Barcelona com o pai e a madrasta e passa, desde há algum tempo, os dias no Lolita’s Club, onde se apaixonou pela tal rapariga da cicatriz – Milena.

O seu irmão Raúl, depois de certos problemas disciplinares, é suspenso da polícia e decide voltar por uns tempos a casa do pai. Quando descobre onde tem andado o seu pobre irmão, que ama e sente que deve proteger, fica indignado com o facto de o pai permitir tal comportamento.

Sem conseguir resolver as coisas com Valentín, Raúl decide abordar directamente Milena e é aqui, quando Raúl se começa a envolver emocionalmente com Milena, que começa a desenhar-se o trágico destino dos dois irmãos. O final é surpreendente e envolve alguns mafiosos com quem tinha andado a lidar na polícia. Obviamente que numa história deste submundo não podiam faltar os mafiosos, os bares decadentes, onde vão tipos com dinheiro encontrar-se com tipos com informações, e as mortes. Aqui não é excepção: há uma morte de um personagem central que, por motivos óbvios, não revelarei.

A escrita de Juan Marsé tem um certo pendor marginal, como convém para o tipo de história, mas devia ser mais dura, para melhor transmitir o ambiente. No entanto, acaba por ser uma escrita que funciona, até porque a história se centra na relação entre Raúl, Valentín e Milena, e não propriamente num retrato do mundo da prostituição. É um romance que se lê mais depressa do que parece quando lhe pegamos, provavelmente devido aos capítulos curtos e à constante acção. E mesmo não sendo uma obra arrebatadora, são minutos bem passados aqueles que se empregam na leitura de Canções de Amor em Lolita’s Club.



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