PR#5 Última saída para Brooklyn

Última saída para Brooklyn de Hubert Selby Jr.

Há bares obscuros, sujos e mal frequentados. Um grupo de rapazes passa ali os dias. Bebem e não fazem nada da vida. Alguém comete o erro de se meter com um deles. Os amigos sabem o que há a fazer e não se importam que o copo espere uns minutos.

Há um grupo de homens que se sentem mulheres, que se comportam como mulheres, que se vestem como mulheres e que são vistos pelos homens como mulheres. Uma delas (deles) apaixona-se por um homem, como é normal acontecer com as mulheres.

Há uma festa de casamento contada em tom alegre, um momento curto de descontracção, para aliviar a dureza da vida em Brooklyn.

Há a história de uma menina chamada Tralala que se torna prostituta. Os bares mais reles deixam de a satisfazer e começa a sondar outras zonas. Toda a gente sabe que quanto maior a ascensão, maior é a queda.

Há uma greve numa fábrica, que se prolonga por meses e meses. Há um homem que está responsável por esta greve, que odeia a mulher e a sua vida familiar e que descobre um novo mundo e novas paixões.

Há um bairro em que as pessoas são todas diferentes, em que todos têm os seus problemas. Uns vivem-nos no silêncio das suas casas. Outros extravasam-nos para que toda a gente oiça. Outros ainda preferem rir dos problemas dos outros.

São seis histórias independentes umas das outras, mas que funcionam muito melhor todas juntas. Umas são mais alegres, outras mais tristes, passando pela extrema brutalidade, mas todas elas são reais. Profundamente reais. No fundo, todas as histórias ficcionadas se baseiam na realidade. Até as histórias mais imaginativas, têm origem num qualquer fundo de verdade. Em Última saída para Brooklyn não é preciso procurar a realidade: ela está explícita em cada palavra. Chegados ao fim, é muito difícil olhar para este conjunto de histórias como ficção. E, no fundo, todas as histórias que completam este livro têm, certamente, uma grande influência da realidade de Brooklyn, que Hubert Selby Jr. tão bem conhecia.

A crueza e brutalidade desta obra podem parecer exageradas a algumas pessoas, mas fazem todo o sentido, no relato destas vidas. O autor leva-nos nesta visita guiada a Brooklyn dos anos 50 e dá-nos a ver aquilo que menos queríamos ver: a prostituição, a droga, a violência, a decadência. Este não é um livro bonito, nem pretende sê-lo. É despido de tudo o que é acessório e tudo o que lá está faz sentido. O texto tem momentos de ritmo frenético com os diálogos e pensamentos a entrecruzarem-se com a narração. Não é confuso. É perfeitamente claro e é a forma ideal para transmitir esta dura realidade. E é incrível como, quando os personagens gritam, nós os conseguimos ouvir.

Hubert Selby Jr. (1928-2004) nasceu em Brooklyn, Nova Iorque. Última saída para Brooklyn foi o seu primeiro livro, escrito em 1964, e chega agora a Portugal numa edição da Antígona, com excelente tradução de Paulo Faria.



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