Mafalda Arnauth

Muito mais que fado. Entrevista exclusiva.

“Diário” é já a quinta etapa na carreira de Mafalda Arnauth. Depois de três discos de originais e de uma retrospectiva de carreira no formato “best-of”, a fadista apresenta no novo disco o seu trabalho mais pessoal, mais íntimo, mais directo do coração. Histórias contadas na primeira pessoa. Para além das composições originais, há a destacar a inclusão de “Foi Deus”, imortalizado por Amália Rodrigues, bem como outras versões, não somente cantadas na língua portuguesa. Em ano francamente desolador no que a novos lançamentos de música portuguesa diz respeito, sabe bem constatar como um género que, à partida, pouco de novo teria ainda para oferecer, fornece-nos mesmo assim alguns dos melhores momentos musicais dos mais recentes meses. Alguns desses momentos são-nos gentilmente cedidos por Mafalda Arnauth, aqui em discurso directo.

RDB: Existe uma nova vaga de fadistas, encabeçada por si e pela Kátia Guerreiro, por exemplo. Parece-lhe que as vossas carreiras vão ser tão longas como as dos grandes fadistas portugueses?

Mafalda Arnauth: Tenho essa esperança. Acho que começa a haver uma identidade particular em cada uma dessas pessoas que surge, e é isso que traz riqueza, no fundo. Há que alargar o leque e não ter aquela ideia de “quem é o melhor, quem representa mais, etc.”. Existe, de facto, uma corrente, mas cada uma de nós tem características específicas que nos permitem distinguir claramente. Em termos de conteúdos, imagem, repertórios, parcerias, e mais. Agora se duramos ou não… Eu costumo dizer sempre que o fado é uma entidade que vive por si própria, e só pessoas com personalidades vincadas é que conseguem resistir ao tempo. E ter sempre algo de novo para mostrar.

RDB: Ao seu quinto álbum, como é que analisa a sua evolução ao longo dos discos? Ainda ouve os seus primeiros discos?

MA: Este “Diário”, particularmente, saiu-me muito das entranhas. Mas todos os meus discos têm um lugar óbvio e encaixam muito bem no meu percurso. É uma satisfação enorme. O primeiro disco é a espontaneidade pura, o segundo já remete mais para o interior, questões, interpelação pessoal. O terceiro é o “Encantamento”, a fase de utopias. A compilação surge numa altura de mudança e de virar de página, e no “Diário” regresso à Terra, e vou buscar influências que me marcaram, não só no fado mas para além disso.

RDB: Essas leituras de clássicos de gente como Charles Aznavour, Amália ou Tom Jobim e Vinicius de Moraes são meras versões de clássicos que aprecia ou são mais que isso, são homenagens sentidas?

MA: São incontornáveis no meu percurso. Já na minha adolescência perguntava-me do porquê de tanto fascínio que esses autores me causavam. Tinha 16 anos e normalmente nesta idade não se ouvem coisas deste estilo…

RDB: Interpretar canções noutras línguas foi um risco assumido e desejado?

MA: Sim, sem dúvida. Apeteceu-me fazer o inverso: meter os portugueses a sentir o que os estrangeiros sentem, que não percebem as letras mas sentem o que a música transmite. E cantar o “La Bohéme”, especialmente, foi mesmo isso. Cada vez que o canto visualizo o que estou a cantar, e faço o “filme” todo.

RDB: A Mafalda é uma fadista assumida, mas ao longo da sua carreira rodeou-se de gente alheia ao fado, como o João Gil, a Mónica dos Mesa… há em si também uma ou duas costelas mais pop?

MA: Lembro-me que as coisas que compus no início, mesmo antes de vir a ser fadista, eram bastante pop. Mas eu evito fazer essa distinção entre géneros. Aquilo que tenho a certeza é que sou mesmo uma fadista, na atitude, no sentimento, como forma de estar. Há sonoridades que acho que estão mesmo na fronteira, como o refrão do “Audácia”, por exemplo, com uma guitarra eléctrica…não sei onde é que aquilo vai parar (risos). Eu componho da forma que sinto, intuitivamente, não por pensamento.

RDB: Apresentou “Diário” ao vivo no CCB, há poucas semanas. Qual a diferença entre tocar ao vivo e gravar um disco em estúdio e o que é que lhe dá mais gozo?

MA: Este disco deu-me muito gozo em estúdio, o que foi uma coisa rara. O estúdio é anti-artístico, e somos confrontados com todas as nossas fragilidades. O palco tem mais expansão. Transpor o “Diário” para vivo é muito duro….

RDB: “Diário” é Mafalda Arnauth a abrir a janela de sua casa…

MA: Acho que passa tudo pelo desarme. É isto, simplesmente. Não tenho por onde fugir, por que mentir, e tenho de me abrir ao mundo. E a sinceridade é muito importante e corta a distância entre o público e o artista.

RDB: Como vê a internacionalização do seu som? É um objectivo primário?

MA: Gosto da expressão “o meu som”. Essa definição é muito pop, por acaso. O meu som é cada vez mais colado ao que sinto. É um desafio enorme, ir lá para fora, confrontar outras reacções, sentimentos. É sempre uma incógnita, mas é muito enriquecedor. Não há nada garantido, isto em Portugal também, e por vezes há espectáculos que estão a correr muito mal…e depois dão uma volta. É mesmo uma incógnita, como disse.

RDB: Como é que vê a música enquanto cultura, e o facto dos discos não serem catalogados no IVA como objecto cultural, por exemplo?

MA: Pessoalmente, sinto que ainda não se entendeu a música e o artista como uma necessidade quase básica. Sente-se como um luxo, uma coisa supérflua. Os artistas são o alimento do espírito, e o nosso país ainda não descobriu o papel fundamental que a música (e não só) tem no nosso “sonho”.

RDB: E a música pode ainda desempenhar um papel em movimentos sociais? Por exemplo, veja-se a actual situação em França…

MA: Sim, e acho extremamente saudável. A música pode evitar grandes desgraças, a história do “quem canta seus males espanta”. Uma das grandes marcas da nossa revolução de Abril continua a ser o “Grândola Vila Morena”. Primeiro veio a música e depois o cravo, e a acção da música continua a ser fortíssima. Mas atenção, música também é entretenimento, e não há mal nenhum nisso. Entretenimento é vital.



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