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Rosewater

Quando a ficção não supera a realidade

O timing dificilmente seria mais propício para a estadia nos cinemas portugueses de “Rosewater – Uma Esperança de Liberdade”, o primeiro esforço de Jon Stewart na cadeira de realizador. Numa altura em que o ataque terrorista ao jornal satírico “Charlie Hebdo” voltou a colocar na agenda mundial a importância da liberdade de informação, eis que “Rosewater” nos relembra que, todos os anos, centenas de jornalistas são os principais alvos de diversos regimes, avessos a esse direito universal.

A película é baseada no best-seller “Then They Came for Me”, de Maziar Bahari, o jornalista nascido em Teerão mas com cidadania canadiana que, em 2009, decide regressar ao Irão para cobrir as polémicas eleições presidenciais a decorrer nessa altura. Pelo caminho, consegue embrenhar-se na comunidade local, é entrevistado para o “The Daily Show” (de Jon Stewart) e acaba por filmar os protestos que se iniciam no momento em que a vitória é dada a Mahmoud Ahmadinejad. Sob o risco de sofrer represálias, envia as imagens que recolheu para a BBC e é preso pouco depois pelo regime local, que o interroga e tortura como espião durante 118 dias.

A premissa, real e perigosa, é aqui retratada de forma tudo menos sarcástica. E a crítica, apesar de óbvia, é bem menos mordaz do que poderiam esperar os maiores fãs do “The Daily Show”. De resto, Jon Stewart deixou definitivamente para trás, durante o filme, a cadeira de apresentador irónico e focou-se somente na história, pensando, talvez, que a realidade deste caso dispensasse muita retórica e falasse por si.

Gael Garcia Bernal, que interpreta Maziar Bahari, ajuda (e muito) na tarefa de conferir realismo à história, servindo muitas vezes como única “ponte” emocional entre os diversos momentos retratados no filme. O ator mexicano foi uma escolha pessoal de Stewart para o papel, que lhe assenta que nem uma luva e que adopta como seu desde o primeiro minuto.

Fica, no entanto, a sensação de que algo falha na altura em que é necessário ir mais longe, mergulhar mais um pouco no que Bahari poderia estar a sentir, nas alucinações que vai tendo ao longo do tempo e no que lhe vai passando pela cabeça… E, com essa falta de “profundidade”, os 118 tortuosos dias do jornalista em cativeiro parecem quase suportáveis… Falhou Bernal ou falhou o argumento? Fica no ar uma certa aura de que algo ficou por dizer e que Stewart poderia e deveria ter ido mais longe, pois, neste caso, é muito claro que a realidade é bem mais forte do que o que a ficção nos quis mostrar…

Resumindo, quem estiver à espera de ver em “Rosewater” a marca indelével do carácter de Stewart, mais vale ir para casa ver repetições do “The Daily Show”… “Rosewater” não deixa de ser uma crítica subtil ao regime iraniano, tantas vezes satirizado no programa de televisão, mas não oferece nem risos, nem interpretações mordazes. Subtil acaba por ser a palavra primordial deste filme, que tanto prometi talvez tenha sido nesta última alínea que o filme mais falhou: “Rosewater” poderia ter sido, facilmente, um grande filme político se tivesse sido mais audaz. Faltou-lhe a força e faltou-lhe um pouco mais do que Stewart nos habituou nos seus programas: coragem.



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