Matem o Mensageiro

“Matem o Mensageiro”

A Verdade anda por aqui.

Gary Webb ficou na história como um dos mais polémicos jornalistas da história dos Estados Unidos.

A sua investigação acerca do envolvimento da Central  Intelligence Agency (CIA) na importação e tráfico de cocaína para as cidades americanas e  que posteriormente se tornou na “epidemia” de crack nas ruas pobres de Los Angeles, Nova YorkMiami, durante a administração Reagan, levou-o ao céu jornalístico e ao mais profundo inferno em  pouco mais de dois anos.

Matem o Mensageiro tenta ser um testemunho fiel dos eventos ocorridos na década de 90, mais precisamente em 1996, ano em que Gary Stephen Webb, um jornalista de investigação do  San José Mercury News, escreveu uma série de artigos, mais tarde transformados em livro de seu nome “Dark Aliance”.

Nesse livro, ele explicou , utilizando para isso vários testemunhos “oficiosos”, todo o envolvimento da CIA no tráfico de crack nos Estados Unidos, com o fim de financiar os guerrilheiros contrarrevolucionários (os Contras)que se opunham à Frente Sandinista de Revolução Nacional, e tentavam estabelecer um governo de direita, tão ao agrado dos interesses dos Estados Unidos e da Argentina (na altura um regime de Direita).

Michael Cuesta (mais conhecido pelos seu trabalho nas séries de TV: Sete Palmos de Terra e Dexter) realiza este filme a partir do guião de Peter Landesman, obviamente adaptado do livro com o mesmo nome do jornalista Nick Shou. O que leva a que a realização centre a acção permanentemente  em Gary, sob o seu ponto de vista  (à exepção de uma cena que parece confirmar a sua versão, mesmo ele não estando presente) o que torna a narrativa extremamente pessoal e comprometida  com a versão de Gary dos factos  e descompromete o realizador …

Temos portanto um bilhete em primeira classe para acompanhar Gary Webb (Jeremy Renner), desde as ruas contaminadas pelo crack da Califórnia, passando por prisões e aeródromos ilegais na Nicarágua, às ruas sinistras de Washington.

Assistimos a vários avisos/ameaças por parte de agentes da CIA, Barões da droga , políticos e mesmo colegas jornalistas, tentando travar a investigação febril de Webb em torno deste verdadeiro escândalo, onde a administração Reagan e a “Agência” ficariam muito mal na fotografia.

Mas Gary não se deixaria intimidar e publicou mesmo a sua investigação.

Mas apesar do seu êxito inicial e a nomeação para o mais desejado prémio jornalístico do mundo, o Pulitzer, a vida profissional e familiar do jornalista, começa a descambar enquanto ele é cirurgicamente desacreditado pelos meios de comunicação mais ligados à máquina política de Washington e Langley (sede da Cia).

Quando a história é verdadeira, destrói-se o homem.

Quando a mensagem não é bem-vinda, mata-se o mensageiro.

Gary Webb viria a ser encontrado morto em sua casa com dois tiros na cabeça, a 10 de Dezembro de 2004…o relatório médico diria que foi suicídio….

Matem o Mensageiro“, é para mim um excelente filme.

É preciso coragem para contar esta história, e a forma como o filme tem sido recebido pela crítica na América, prova isso mesmo.

Webb é ainda hoje, alvo de grande controvérsia no seu país de origem, sendo para uns , um herói e para outros , um mitómano que tudo criou na sua cabeça.

O filme tem esse enorme mérito, de não tentar decidir por nós, sendo bastante ambíguo na maior parte do tempo e isso é um sinal de competência da realização.

Elogio também para a inteligência da realização na escolha dos planos e  no ritmo das cenas, que ajudam a criar um filme entusiasmante e que nos prende do princípio ao fim.

Bom som, boa fotografia e montagem, grande grupo de actores.

Jeremy Renner é cada vez mais um actor a ter em conta em termos de prémios de interpretação. É uma aposta segura e aqui mais uma vez faz jus à personagem real que interpreta e isso é dizer muito!

É sempre uma delícia ver Andy Garcia, Michael Sheen , Ray Liotta e Oliver Platt ainda que em pequenos papeis.

Rosemarie DeWitt, no papel de mulher de Webb e Tim Blake Nelson na interpretação do advogado de defesa, Alan Fernster, cumprem também perfeitamente o papel, assim como Mary Elizabeth Winstead, enquanto Anna Simons, colega e confidente de Gary.

Sem dúvida um dos filmes que mais prazer me deu de  ver nos últimos tempos.

Sai pois com um retumbante….

Satisfaz Plenamente.



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