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Parkland

Politraumatizados

Será que um dia a América irá ultrapassar o “Kennedysmo”?

Vezes sem conta o cinema americano revive os fantasmas e demónios do assassinato de JFK.

Parkland Memorial Hospital, é o nome do hospital onde John Fitzgerald Kennedy e o homem que o assassinou (alegadamente), Lee Harvey Oswald, foram socorridos e onde acabaram por morrer.

Estes, agora, distantes eventos são dos mais marcantes na consciência colectiva, norte americana, concorrendo apenas com a guerra do Vietname. Certamente por isso, os escritores e realizadores americanos tomam o lugar de historiadores para deixarem às gerações futuras a sua versão dos factos.

Em Parkland, tenta-se contar as histórias de vários indivíduos participantes nas ocorrências que envolveram o assassinato do muito amado Kennedy nessa fatídica tarde de Novembro. Algumas dessas histórias são contadas como histórias de devoção e zelo, outras de irresponsabilidade e incúria, outras ainda de perfeita insanidade e pelo menos uma, de arrepiante injustiça.

Os melhores aspectos do ser humano fazem poucas aparições neste filme, o que por si só, tem o mérito de revelar uma análise, que escapa à auto-indulgência tão típica de algum cinema norte-americano.

No dia 22 de Novembro de 1963, perto das 12.30h, um Lincoln Continental descapotável desce a Elm Street, no centro de Dallas, no seu interior seguem, o Presidente dos Estados Unidos da América junto com a sua mulher Jaqueline, o governador do estado do Texas e a sua mulher, um segurança e um motorista. Três balas atravessam a curta distância entre o armazém de livros do Texas e o carro principal da comitiva. Duas das balas encontram o seu alvo, JFK cambaleia e cai nos braços de Jackie.

O presidente está morto! Longa vida ao Presidente!

A América entra em histeria e a vida de alguns é reescrita contra a sua vontade, este filme fala de alguns:

Abraham Zapruder (Paul Giamatti), dono de uma empresa de confecção de roupa feminina, foi um deles. Abraham, um entusiasta membro do partido democrata e admirador de Kennedy, estava a documentar a passagem do seu presidente por Dallas, quando conseguiu um dos maiores e mais acidentais furos jornalísticos do século XX. A partir desse momento, este anónimo imigrante de sucesso, passa a ser uma das mais requisitadas personalidades de Dallas, quando os serviços secretos, o FBI, a polícia de Dallas e praticamente todos os meios de comunicação dos EUA, o assediam em busca do famoso filme.

Charles “Jim” Carrico (Zac Efron) é um residente de cirurgia que está de serviço nas urgências de Parkland, quando um já quase cadáver Kennedy dá entrada no serviço. Uma longa batalha contra a morte é então travada, onde literalmente dezenas de médicos e enfermeiros se empenham para lá do razoável para trazer de volta à vida um então já falecido presidente. A cena em que Jim faz uma desesperada tentativa de reanimação cardiopulmonar num homem já morto, chega a ser incomodativa, o que é obviamente a intenção do realizador Peter Landesman.

O contraponto a este zelo pela vida humana, acontece dois dias depois quando Oswald dá entrada nas urgências de Parkland, tendo também ele sido alvo de atentado e atingido por arma de fogo.

Nessa altura deixa de se ver uma equipa de homens e mulheres que juraram com solenidade a protecção da vida à maneira Hipocrática e passamos a ver pessoas de bata que chegam a se perguntar se vale a pena salvar a vida daquele homem à sua frente. Um homem que como tantos outros também possuía uma família que o amava…

Robert Oswald estava no seu local de trabalho, quando recebe a notícia que o seu irmão Lee foi detido por suspeita do assassinato do presidente Kennedy. Homem honesto e justo, vive o dilema interior de ter de lidar com a incomensurável magnitude de tudo o que está a acontecer, do afecto que o une ao seu irmão e da perplexidade perante uma mãe delirante e interesseira.

Esta história revela-se particularmente interessante, pois revela os aspectos mais torpes de uma sociedade baseada no endeusamento do “olho por olho e dente por dente”, e que acaba por ficar cega e desdentada. Robert não violou, não roubou e muito menos matou, mas logo é aconselhado a mudar de nome e considerar-se “afastado” de todos os benefícios e direitos naturais aos “filhos da liberdade”.

Tudo por ostentar o nome do assassino do presidente, que até poderia ser Judas Iscariotes, pois para os americanos mais do que um homicídio, tinha acabado de acontecer um Deicídio.

Existem muitas outras histórias, e os apreciadores poderão ainda encontrar, Billy Bob Thornton, no papel do agente responsável pelo perímetro de segurança em torno do presidente e Ron Livingston como o polícia que não levou a sério as ameaças de Lee Oswald.

Entre muitas outras histórias e estórias, que sinceramente terão mais interesse para os partidários das teorias da conspiração do que para o cinéfilo comum, que provavelmente não vai encontrar motivos suficientes em Parkland para o distinguir de tantas outras obras que já abordaram o mesmo tema. Ainda que sejam moderadamente apelativos alguns dos pormenores apresentados e que as histórias paralelas abordadas sejam desconhecidas da maioria.

O cast deste filme é enorme e as cenas são muito rápidas e “saltitantes”, o que leva a que o trabalho de actor seja preterido em relação ao ritmo das ocorrências, quase em tempo real.

Começa a ser fastidioso dizer que Paul Giamatti parece maior que os outros, mas é uma realidade.

Peter Landesman (que além de realizar, adaptou a obra de Vincent Bugliosi -“Four Days in November”, para construir o roteiro deste filme), não arrisca, nem inova. Apresentando uma obra escorreita, ainda que em determinados momentos, com variações de ritmo algo estranhas.

Sai com um Satisfaz!



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