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Meninos-homens

Creep não é canção, Creep é marca musicada na passarelle pela mestria de Hiroshi Awai.

É a primeira vez que me calha escrever sobre moda masculina, que me calha na mão a singularidade de um trabalho que não visto ao vivo, deixou logo boa impressão. Vaidade pelo outro… porque vemos bem que este meninos invejam-se (desejam-se) como homens. Os bons homens.

Creep não é canção, Creep é marca musicada na passarele pela mestria de Hiroshi Awai. Sem ter nome nipónico na etiqueta e no cabide masculino, a Creep é sim uma marca do Sol nascente criada por Kiyofumi Awai em ’97 e que, passados 10 anos, deixou o posto da direcção criativa ao seu irmão mais novo, fora de casa e fora de portas.

Toronto alberga agora as inspirações de Hiroshi, que não fez mais do que transportar a capacidade inovadora, quase inerente a qualquer bom japonês – há sorriso nisto -, aterrando-a noutro país que contrasta pelas paisagens, pelas gentes, pelo trabalho em tons verdejantes como o Canadá. O bonito aqui é que Creep fala mais alto do que a língua ou os olhos em bico dos seus criadores. Creep respira bem o contexto onde se inseriu e veio criar um estilo de moda masculina muito fluida, que combina as linhas e visões futuristas orientais, perfeitamente fundidas com a paixão pela simplicidade e funcionalidade das coisas, naturalmente vividas pelo comum trabalhador local.

Estas criações são, por isso, para o nouvel homme: meninos-homens, com pequenas antíteses que espelham bem a dureza do traço de homem cruzada com toques de simplicidade e de sensibilidade jovial. Peças clássicas de design modernizado pelo corte, em que o simples que se complica/enaltece por pormenores de muita elegância: como combinar a imagem de um “tipo lenhador” de camisa de flanela, ainda com o possível toque grunge da coisa, conseguindo deixar fazer falar a doçura do novo rapaz do campo?… É o reinventar dos materiais e dos padrões, que passam uma sensação confortável indie folk, com pormenores que acendem à ideia o lume sobre a madeira, um lado mais rústico e duro do dia-a-dia activo de trabalho, que faz frente ao frio da estação. Assim se justificam os casacos de fazenda com um “upgrade” dos remendos de cotovelo, como os casacos que as nossas avós gostavam de vestir aos nossos pais – e o meu irmão ainda levou com isso – ou o fato inteiro, camisa que se estende como calça, indo mais além do que o bem sucedido macacão dos anos ‘90, assumindo os novos traços do trabalhador fabril… coisa vintage, para a barba cuidada de hoje. Tem pinta tão castiça como adoravelmente fresca, porque o desenho e a forma reproduz um design inspirado, muito actual no look completo e contextualizado que tem, sendo ainda trabalhado ao pormenor dos materiais (flanelas, fazendas, linhos e anoraks canadianos), que tornam peças e acessórios extremamente ricos na seu efeito de sedução. É o Outono-Inverno que aí há de vir, a prometer conforto num lado masculino… a puxar para o poético. É de olhar e achar que este senhor gosta do Canadá, gosta do norte dos Estados Unidos e se Creep soa a Radiohead, daquele lado do oceano veste bem ao som de Bon Iver.

Este é um contraste face à colecção que Hiroshi apresentou para a Primavera-Verão que se faz sentir, lançada no final do ano de 2009, onde a inspiração náutica reflecte uma aproximação de Hiroshi a uma realidade sazonal diferente, não a da praia e toalha com a areia, mas com a do homem-menino do mar. Pelo lado de quem vive dele pelas mãos, ou pelo lado de quem vive dele pelo suspirar. Romântico e casual, afrancesado talvez pela metade canadiana que confere a língua a um homem inspirado e cortês, como se fosse acolher alguém abordo, para um passeio… Nesta altura em que eles sabem bem, entre calções e blazer, camisas de colarinho a desapertar, até que se faça sentir bem o efeito de liberdade dos dias de férias.



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