My Bloody Valentine | “mbv”

My Bloody Valentine | “mbv”

Kevin Shields e os anjos do Apocalipse

Foram vinte e um anos os que demoraram os My Bloody Valentine para concluírem “mbv”, o sucessor de “Loveless”. Nos entretantos, Kevin Shields ia fazendo promessas de lançamento, regressando e deixando o estúdio e estourando orçamentos (não esquecendo que quase faliu a Creation no processo de criar o registo anterior); mas, quase que em notícia-relâmpago, prometeu, no mês passado, que iria disponibilizar o muito aguardo terceiro longa-duração da banda em “dois ou três dias”. Não foi exactamente verdade, mas uma semana depois eis que surge “mbv” perante uma plateia virtual de vários milhares de admiradores que abdicaram de horas de sono numa espera com, finalmente, luz ao fundo do túnel.

Com tanta demora, talvez esperássemos um novo disco que, à semelhança do passado, fosse mudar o mundo, fechar gente no quarto com os auscultadores no máximo e injectar matéria de sonhos que faz achar que não há coisas mais bonitas no Universo. Bem, talvez não tenha mudado o Mundo; mas nem “Loveless” o fez quando apareceu e nos últimos vinte anos a história provou ser-se outra. Só que entretanto agregaram uns valentes milhares de admiradores e encravaram-se, qual nó no estômago, em número equivalente de adolescências.

Assim, mais de duas décadas volvidas, voltar a ouvir material novo dos My Bloody Valentine é voltar a orbitar a Terra, qual Major Tom: Kevin Shields, que segundo consta gravou quase tudo quanto é instrumento no disco (não gravou as vocalizações de Bilinda Butcher porque não pôde), continua a destilar essa matéria celestial e a reconvertê-la em ruído que antecede o Apocalipse.

A primeira faixa, «She Found Now», é a ponte lógica deixada por “Loveless”: um turbilhão de distorção que jorra pelo background e se deixa guiar por uma guitarra numa viagem circular; com espaço desde logo para as vocalizações etéreas, que vão ditando as coordenadas da viagem: é uma faixa que veio, claramente, dos anos 90. Logo a seguir, «Only Tomorrow» volta a camuflar as vocalizações por entre uma guitarra com incontáveis reverbs e delays que vai debitando uma melodia quase astral de rampa de lançamento. Mais tarde, começa em conflitos consigo própria e o resultado não podia ser melhor.

«Who Sees You» equivale às «Variações sobre um tema» de Kevin Shields: uma massa de guitarra que foge ao tom por entre todas as possibilidades imagináveis e constrói um momento facilmente ao nível dos tempos áureos da banda: era disto de que falávamos quando estávamos aflitos por sinais de vida dos My Bloody Valentine. A primeira surpresa talvez ocorra em «Is This and Yes», uma faixa sintetizada que podia ter sido roubada aos Spiritualized, intercalada pela voz de Bilinda Butcher.

«If I Am» dispara noutras direcções: nunca ouvimos uma bateria assim tocada pela banda e a vocalizações circulares vão levando a melhor de uma guitarra tímida que tenta acompanhá-la. O seguimento improvável é «New You», talvez a música pop que os My Bloody Valentine nunca tinham escrito. Guitarras e sintetizadores repescados a “Loveless” vão construindo uma fenda na casca: há Sol a entrar e não precisamos de estar todos fechados em casa a sonhar com isto.

A trilogia final aponta numa nova direcção, que diríamos muito promissora caso não soubéssemos que o último intervalo foi de mais de vinte anos. Pista bastante lógica, «In Another Way» começa com uma wall of sound absurdamente desconcertante por onde brotam as vozes: não é faixa para se ser poupada ao volume das colunas. E há também espaço (sim) para uma bela zaragata de guitarras lá mais para o final, que volta a trazer a questão de como é que um homem faz tanto com uma só guitarra e os seus milhares de pedais. «Nothing Is» é o seguimento merecido da descarga energética com, claro, mais energia: um loop perfeitamente agressivo que vai em crescendo e parece ir queimando a mesa de mistura.

O final é de helicóptero com «Wonder 2»: o break-beat esforça-se agora em criar a wall of sound e a voz de Bilinda vai fazendo descolar do chão: isto até chegar um conjunto de distorção com sintetizadores encorpados que faz carregar as armas e começar a carnificina. Absolutamente desconcertante este disco, que merece ser trazido à vida em cima de um palco e desmantelar uns bons amplificadores. Sem direito a tampões para os ouvidos. É caso para dizer novamente: bleed my ears, please.



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