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Fonoteca: My Bloody Valentine

Bleed my ears, please

Decorria o longínquo ano de 1984 quando Kevin Shields e Colm Ó Cíosóig, depois de várias aventuras entre bandas conjuntas e entre o fenómeno punk, decidiam formar os My Bloody Valentine. Com Dave Conway na voz, gravavam o EP “This Is Your Bloody Valentine” em Berlim, uma mistura das influências do post-punk e do gótico: a revelar muito pouco do que a banda viria a ser, o primeiro registo aproxima-os de um registo quase repescado aos The Cramps e aos Bauhaus, com guitarras levemente distorcidas e vozes quase proféticas, em jeito de celebração da cena que entretanto emergia. Isto viria a prolongar-se em “Geek”, o EP lançado no final de 85 (primeiro com Debbie Googe no baixo), que por seu lado viria salientar uma distorção mais agressiva das guitarras e um passo atrás nas vozes: as camadas sonoras começavam, então, a ser organizadas numa hierarquia um pouco mais democrática.

No mesmo ano, os The Jesus and Mary Chain lançavam “Psychocandy”, tido hoje como o disco que começou o shoegaze: a distorção quase industrial das guitarras e o fazer música a partir do ruído dos amplificadores lo-fi. Kevin Shields recusa, no entanto, a influência, afirmando que já usara a técnica na gravação dos seus primeiros EPs. Um ano mais tarde, os My Bloody Valentine voltavam a reunir-se, agora em Londres (nos entretantos tinham perdido o contacto devido ao fracasso crítico do primeiro EP) e viriam a ser contratados por Joe Foster para voltar a gravar, agora com o selo da Kaleidoscope Records (subsidiária da Creation).

Esta parceria seria inaugurada pelo EP “The New Record by My Bloody Valentine”. Por esta altura, a banda apostava numa direcção diferente: sempre com o ruído distorcido como pano de fundo, apontavam agora num caminho quase pop e que se aproximava mais da sonoridade das bandas-sensação do NME. Este EP serviu também de mote a vários concertos nos arredores de Londres, angariando pontualmente alguns admiradores. “Sunny Sundae Smile” (lançado pela Lazy Records) traria mais uma mutação no percurso: o último registo com a voz de Dave Conway apontaria numa direcção sugerida pelo rock alternativo. O registo evidencia a baixa fidelidade e explora territórios mais negros: seja a necrofilia sugerida por «Paint a Rainbow» um exemplo.

Bilinda Butcher juntar-se-ia, nesta altura, à banda que entretanto acordara em ter dois vocalistas; Kevin Shields ocuparia a segunda parcela. Sob pressões da editora e ainda tendo dificuldades de adaptação à nova composição, avançaram na mesma direcção de rock alternativo ruidoso na composição dos dois EPs que se seguiram, em 87: “Strawberry Wine” e “Ecstasy”. A pressão viria a afectar a produção do último, com erros técnicos à mistura.

No ano seguinte, travavam conhecimento com o produtor Alan McGee, produtor da Creation Records. Mas seria só até lhe apresentarem o EP “You Made Me Realise” que McGee se interessou verdadeiramente pela banda. O EP significava, evidentemente, um ponto de viragem: poder-se-á dizer que se trata de um dos pilares do shoegaze. Com um som bastante mais agressivo, a banda passa a apresentar a faixa-título ao vivo sem medo de usar e abusar do ruído: ainda hoje a faixa é tocada e a sua secção instrumental de ruído (no senso comum, a secção do Holocausto) chega a prolongar-se por 20 minutos. O ruído toma aqui a forma de berço da melodia: agora é preciso descortinar os sons que brotam por entre a distorção, que os vai absorvendo.

Seguir-se-ia o EP “Feed Me With Your Kiss”, no final de 88, que faria a ponte entre “You Made Me Realise” e o primeiro disco da banda, “Isn’t Anything”. Gravado em duas intensivas semanas, Alan McGee via agora o retorno da banda onde tinha investido: um som absolutamente dividido em camadas que formam uma massa sonora onde se vão camuflando os instrumentos; associado a isto, também uma lírica ambígua – ouvir «Sueisfine» ou «I Can See It (But I Can’t Feel It)». Kevin Shields queria explorar ao máximo o material que tinha em mãos com as suas influências mais avant-garde. Mas os prazos não levaram ao nível de perfeição técnica a que Shields aspirara, ainda que se trate da fundação mais sólida a reter no caminho para o segundo longa-duração da banda.

No início de 89, os My Bloody Valentine preparavam-se para gravar o segundo disco, mas a editora pediu-lhes que gravassem um EP em antecipação. “Glider” foi o resultado e apresentaria (possivelmente) a melhor faixa da banda: «Soon», que viria a ser utilizada enquanto faixa final do disco.

Ao mesmo tempo, o shoegaze ia evoluindo em novas vertentes: menos catárquicos (as distorções ainda permitiram a saliência da voz), foi por esta altura que apareceriam os Ride ou os Slowdive: dois espécimes exemplares do movimento, mas que não aspiravam a sangrar os ouvidos. Seriam também os que viriam a levar o shoegaze para mutações um pouco mais distantes – deixavam progressivamente de contemplar os pés e o som ficaria mais limpo.

Durante os dois anos que se seguiram, davam-se as gravações de “Loveless”, o segundo longa-duração da banda. As tensões entre Shields e McGee aumentavam e a produção do disco quase levou a editora à falência: rumores apontam para vários milhares a serem investidos em equipamentos e em técnicos, com vista a atingir o som perfeito idealizado por Shields. Decorria 1991 quando “Loveless” viu a luz do dia: apesar de alguma aclamação da crítica especializada, as vendas do disco foram muito abaixo do esperado pela Creation, o que levou à saída forçada dos My Bloody Valentine da editora.

Pelo caminho terá ficado, porventura, um dos melhores discos de sempre: “Loveless” é estudado ao milímetro e tem um efeito absolutamente esmagador. Com melodias que brotam pelas ondas distorcidas das guitarras e se fazem acompanhar por vocalizações etéreas (quase emprestadas pelos Cocteau Twins, mas dispersas nas camadas de som), as faixas do disco talvez sejam as mais belas que alguma vez vamos ter oportunidade de ouvir. Por entre o caos, brota uma beleza absolutamente ímpar que falou para a geração de contra-cultura do início da década de 90, e que continua a falar para a geração actual: as palavras escasseiam e a vida liquefaz-se perante faixas como «When You Sleep» ou «Sometimes».

Desde então, os My Bloody Valentine entraram em hiato. Em 2008 reuniram-se para alguns concertos (que se estenderam até 2009), e têm prometido o lançamento do “disco inacabado”. Mais de vinte anos volvidos, a banda confirmou que o disco está pronto (a masterização terminou no passado dia 21 de Dezembro) e anunciou que o muito aguardado registo está disponível para venda no site oficial. Podem ouvi-lo aqui.



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