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Shoegaze

Ou a cena que se celebra a si mesma.

O shoegaze é, ou foi (note-se que para alguns o género desapareceu, para outros nunca desapareceu e para outros pura e simplesmente nunca chegou a existir), um subgénero (esta palavra também daria pano para mangas, mas é preferível não entrar por aí) de rock alternativo, com origem em Inglaterra durante os anos oitenta e teve o seu expoente máximo personificado nos My Bloody Valentine.

Nunca foi um género consensual (e provavelmente nunca o será). Nesse ponto é justo dizer que todos se encontram de acordo. Começando pela origem do nome, da responsabilidade da imprensa musical britânica, sempre tão dada a rotulagens e sempre em busca da next big thing. Demasiado literal talvez, a origem do termo shoegaze tem uma história muito simples: durante os concertos, os elementos das bandas permaneciam no mesmo local do palco durante todo o concerto, com um ar um pouco desligado da realidade, alheados do que se passava à sua volta, altamente introspectivos, olhando quase sempre para o chão, como se a única coisa que vissem durante os concertos fosse a peça de calçado que usavam.

Continue-se no âmbito dos consensos. Ou pelo menos tentar fazê-lo. Em meados da última década do século passado o shoegaze perdeu força, importância, desapareceu. Escolham o termo que preferirem. Dois dos responsáveis terão sido o britpop e, do outro lado do Atlântico, o grunge. Dois géneros bem distintos e que marcaram toda uma geração até bem perto do final dos anos noventa. Nomes como Blur ou Oasis, do lado de cá, e Nirvana ou Pearl Jam do lado de lá, empurraram os shoegazers quase por completo para fora de cena, passando a ser vistos por parte de algum público e, em especial, da crítica como elementos privilegiados de classe média. Foi nesta fase que surgiu outro termo ligado às bandas shoegazers: the scene that celebrates itself. O termo foi criado com alguma malícia à mistura; ao contrário de outras bandas, que acabavam criando rivalidades entre si (quem não se lembra das trocas de “mimos” entre os Oasis e os Blur, tão adoradas pela imprensa britânica), os shoegazers eram conhecidos por frequentarem os concertos uns dos outros, partilharem palcos durante concertos e beberem uns copos juntos.

Até este ponto tive o cuidado de evitar ao máximo o uso de nomes de bandas, com excepção daqueles que usei para caracterizar o britpop e o grunge. A intenção foi deliberada. O objectivo foi particularizar ao mínimo e generalizar ao máximo. Agora a ideia é inverter essa tendência.

A que soa efectivamente o shoegaze? É pertinente pensar que possui características que o distinguem de outros géneros musicais, não? O que salta de imediato à vista, ou ao ouvido melhor dizendo, são as guitarras e os efeitos, mas o elemento que, por ventura, lhe confere uma maior identidade são as vozes, que muita vezes acabam operando quase como um instrumento, mesclando-se com o som das guitarras de uma forma híbrida. Uma descrição reconhecível nas palavras de Kalle Pyyhtinen, guitarrista e teclista dos praticamente desconhecidos finlandeses Scarlet Youth; “Aquilo que adoramos no shoegaze é o balanço da música entre as melodias pop e as paredes sonoras criadas pelas guitarras e vozes”.

O desvanecimento (um termo, novamente, escolhido com cuidado) do shoegaze levou a um comportamento que pode ser considerado comum nestas situações. Algumas bandas simplesmente optaram por dar a sua actividade como terminada; outras nunca o fizeram oficialmente mas deixaram de dar notícias (leia-se: deixaram a porta aberta para um eventual regresso); e outras simplesmente optaram por continuar a sua carreira, incutindo-lhe um rumo diferente.  Exemplos? Os Slowdive encerraram as suas actividades; os My Bloody Valentine entregaram-se a um longo “silêncio” só quebrado o ano passado (com direito a uma passagem por cá, se bem que o contexto estivesse totalmente desenquadrado…); os Verve ganharam uma veia vincadamente mais rock.

É bastante comum procurar rotular alguma coisa nova que nos surge à frente. Com bandas não é excepção. Também acaba por ser normal gerar-se falta de consensos quanto às ditas rotulagens, com as bandas, “vítimas” da dita rotulagem, e a imprensa, criadora desta, a estarem muitas vezes na origem das faltas de consenso. O termo shoegaze chega a ser visto por algumas bandas como sendo pejorativo.

Numa altura de regressos a velhas fórmulas e a velhas modas, a reciclagem de velhas receitas tem-se tornado comum. O shoegaze não passou ao lado desse ímpeto. A grande notícia foi, sem qualquer sombra de dúvida, o regresso ao activo da banda de Kevin Shileds, os My Bloody Valentine. Primeiro aos palcos e depois ao estúdio, de onde deverá sair novo álbum durante este ano, agora que se verificou o requisito necessário para tal acontecimento segundo Shields: “nunca poderia ser levado a gravar um novo álbum a não ser que estivesse realmente motivado por isso”.

Novos nomes também surgiram nos últimos anos: Asobi Seksu, The Pains of Being Pure at Heart ou os M83 (só para referir alguns). Ao ouvir cada um deles provavelmente as diferenças existentes serão, no imediato, o mais notório, mas uma audição mais atenta facilmente revelará os traços comuns aos três projectos.

Os A Sunny Day In Glasgow, um sexteto radicado em Filadélfia, Estados Unidos da América, e responsável pelo bastante recomendável “Ashes Grammar”, têm sido muita vezes ligados ao shoegaze. Quando lhes pedi que partilhassem a sua opinião sobre o género a sua resposta foi bem demonstrativa da volatidade e discórdia que o estilo encerra sobre si mesmo: “Penso que o shoegaze é um dos géneros mais secundários que alguma vez existiu.”, avança Ben Daniels de forma peremptória. Daniels vai ainda mais longe, afirmando que o género “sempre me desapontou. Existem talvez três a cinco bandas realmente boas e inovadoras que foram associadas ao shoegaze.”. Daniels não deixa de ressalvar que a sua opinião pode facilmente ser aplicável a praticamente qualquer género musical, porém pensa realmente que é particularmente verdadeira com o shoegaze.

Estes são alguns nos “novos” shoegazers ou Nu-Gazers como alguns gostam de se lhes referir… Neles é inegável a influência do passado mas também um olhar na direcção do futuro. Se vieram para ficar, o tempo encarregar-se-á de responder a essa questão melhor do que ninguém. A internet fez maravilhas no que diz respeito à música, em especial pela forma como massificou a sua divulgação, mas também não é menos verdade que a tornou um pouco mais efémera…



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