“O Comboio das Cinco” | Luís Afonso

“O Comboio das Cinco” | Luís Afonso

Um improvável pequeno-grande livro

Luís Afonso, cartoonista na imprensa portuguesa desde meados dos anos oitenta, é o improvável autor de um dos mais recomendados livros editados este ano com o selo da imaginação nacional.

O Comboio das Cinco”, livro que marca a estreia literária de Lopes, o escritor pós-moderno, personagem saído da cabeça e do lápis de Luís Afonso, é uma pequena pérola escondida entre a concha do humor descontrolado, da crítica social e do desabafo filosófico, numa viagem que apesar de curta (não chega às 100 páginas) deixa muito por contar.

Fragoso e Madalena estão numa viagem nocturna algures pelo Alentejo, quando uma guerra acesa pelo domínio dos megahertz os deixa estacionados numa valeta à beira da estrada. Depois de andar alguns quilómetros, o casal entra numa estação de comboios com a ideia de chamar um mecânico. Porém, quando se deparam com as linhas de telefone cortadas e a urgência de chegar a Lisboa de manhã bem cedo, só lhes resta esperar pelo Comboio das Cinco.

As linhas de cima seriam a sinopse para um livro regular e de sentido único. Porém, o que há mais neste livro são curvas e contracurvas, espaços em branco e buracos pintados de negro.

“O Comboio das Cinco” | Luís Afonso

No final de todos os capítulos – com excepção do último -, Lopes, autor do livro, conversa com o potencial realizador que levará “O Comboio das Cinco” ao grande ecrã. A ideia inicial é a de «fazer um filme baseado no livro que será influenciado pelo filme». Já a pensar nesse mergulho no universo cinematográfico, o autor oferece duas capas alternativas, cabendo ao leitor desvendar – ou decidir – qual delas ficará melhor para cada um dos usos.

Nas margens do livro vamos sendo acompanhados por diversos indicadores de qualidade literária, como os de pertinência, crítica social, lugar-comum, cultura cinematográfica ou tentativa de fazer humor. É o próprio Lopes que explica ao realizador este pequeno serviço público prestado ao leitor: «Resolvi experimentar. Os leitores de hoje não estão dispostos a perder tempo a tentar descobrir se há ou onde está a qualidade literária num livro.»

Há também a invenção de algumas histórias paralelas, como a de Manuel Joaquim, ex-carteiro e actual caçador furtivo, que conduz uma motorizada e é fervoroso adepto de um bom copo de tinta (ou, na falta deste, de uma cerveja gelada); ou a de Serafim Augusto, numa recriação muito pessoal do estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, ao mesmo tempo Presidente do Santa Bárbara F.C. e Presidente da Junta – o que o torna inconciliável consigo próprio.

Na contracapa, jornais ficcionais dizem de “O Comboio das Cinco” coisas como “Um monumento à literatura” (El Planeta) ou “Deixa-nos sem respiração” (The Timelines). Ficção à parte, acrescenta a RDB com letras gordas, a realidade é apenas uma: Luís Afonso serviu-nos um pequeno-grande livro.

Uma edição abysmo



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