“Camões e a viagem iniciática” | Helder Macedo

“Camões e a viagem iniciática” | Helder Macedo

O outro lado do mito

Há qualquer coisa como trinta anos, Helder Macedo escreveu um ensaio sobre Camões, então publicado na Moraes, atravessado por um grande arrojo e uma ousadia tremenda. Esgotado até há bem pouco tempo, “Camões e a viagem iniciática” (Abysmo, 2013) conheceu no final do ano passado uma nova edição, com «algumas correcções de pormenor e pequenos acrescentamentos aos textos originais» (palavras do autor na nota prévia à edição), onde se inclui uma nova secção, de escrita mais recente, devotada às suas cartas, importantes testemunhos sobre a sociedade em que Camões viveu mas também «relevantes para uma melhor compreensão da sua obra poética» (da mesma nota).

O livro pode ser lido como um ensaio vanguardista, dividido entre a lírica e a épica camoniana, que nos oferece um retrato de Camões como um poeta inovador, um homem apaixonado e, sobretudo, uma alma insatisfeita (a sua evolução temática foi da confiança para a dúvida e desta para o desespero).

Para Helder Macedo, a lírica camoniana tinha dois pólos semânticos que guiavam Camões na sua pesquisa poética: o amor e a razão. O autor defende que Camões foi um hábil artesão, criando uma aparência na continuidade da tradição poética para depois, quase sem ninguém dar por isso, a transformar por completo. Ao contrário de Dante ou Petrarca, Camões via a mulher amada como a causa do seu impulso amoroso, legitimando também o seu desejo sexual. Ao contrário do neoplatonismo, Camões procurava a reconciliação da totalidade humana com o objecto da sua procura, preferindo partir para o desconhecido a aceitar uma suposta ordem universal superior. Porém, irá sentir-me muitas vezes um joguete do acaso, num mundo que para ele não fará qualquer sentido.

Do lado épico, fazendo um paralelismo ente “Os Lusíadas” e “A Odisseia”, será Camões a vestir a pele de Ulisses e não Vasco da Gama (um herói sem musas). A intervenção pessoal do poeta é visível ao longo de toda a obra, apontando a arte como a mais valiosa das armas, fazendo do Adamastor a transmutação da força destrutiva do ódio na força criativa do amor e transformando esta obra épica não na celebração do passado mas sim na determinação do futuro – um pouco como mais tarde o fará Fernando Pessoa em “A Mensagem”. Um livro imperdível que desmonta, em poucas páginas, a obra e a alma de Camões, ambas imensas.

 

A nova edição da Abysmo está disponível em três capas distintas, todas elas concebidas a partir de retratos de André Carrilho.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This