O ESCURIAL no Teatro da Cornucópia

“O ESCURIAL” @ Teatro da Cornucópia

Le roi est mort, vive le roi!

“Excessivo, grotesco, trágico, humano” é o que promete a Molloy Associação Cultural a quem tiver coragem de entrar no universo de Michel de Ghelderode.

É de facto o que sentimos ao longo deste espectáculo, à falta talvez do excessivo, porque já não estamos no início do século XX, hoje o público está calejado, é mais difícil que se impressione com o drama humano, sobretudo excessivamente.

O rei está triste e enlouquecido pelo sofrimento protocolar que a morte da sua rainha implica, então obriga o seu bobo a fazê-lo rir até à exaustão, ao descontrolo, talvez para conseguir escapar à personagem que lhe é imposta.

Acontece então que, através da farsa do bobo, ambos se apercebem destas personagens em que vivem e daí surge a ideia de inverter o poder, trocar o corpo e a alma até o jogo se tornar demasiado real. Até a ideia de morte começar a surgir naquele momento já não tão artificial.

A morte pode ser de repente a única saída possível porque a rainha morreu e o rei tem de vir, seja ele quem for. É o que nos diz o monge, que é a morte, que é o mensageiro, que é a terceira personagem da peça que tudo vê e em nada intervém.

Será assim?

É o teatro dentro do teatro que nos é proposto. Centrado nas personagens, são elas que nos deixam em suspensão à espera de percebermos até onde vamos dentro do ser humano.

O que nos resta se deixarmos as nossas personagens, se as esvaziarmos?

O cenário é despido mas pungente, como a própria farsa, a “satânica comédia” que viemos ver.

Saímos apenas com a ideia de que talvez o espectáculo ganhasse num ambiente mais intimista, um palco mais próximo, mais pequeno. Por outro lado, assim ficamos com a grandeza decrépita cheia de nadas que parece ser aquele palácio, a própria vida do rei.

Com Dinarte Branco, Tiago Barbosa e Tiago Nogueira, em cena no Teatro do Bairro Alto até 28 de Julho.

 

Fotografia de Nuno César Lomba



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