“O Filho” | Michel Rostain

“O Filho” | Michel Rostain

É possível viver assim

Michel Rostain é encenador de Óperas, tendo dirigido, entre 1995 e 2008, o Teatro Nacional de Quimper: Teatro da Cornualha. Estreia-se, agora, no meio literário com o romance semi-biográfico, “O Filho” (Sextante, 2013).

Não é fácil avaliar um livro sobre um tema tão insuportavelmente antinatural. Perder um filho é uma daquelas possibilidades impensáveis, sendo muito mais cómodo acreditar que não conheceremos essa realidade.

«Onde estou, a morte não está, e onde ela está eu não estou. Então, porquê temê-la?». Esta reflexão de Epicuro é uma das muitas que apresenta uma forma de estar perante a morte. No entanto, a morte pode atingir-nos sem nos matar. É estar vivo e viver com a morte.

Em “O Filho”, a morte é um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida. Seja através das memórias que evocamos ao recordar o carácter de quem partiu, através da análise detalhada e quase obsessiva dos ‘últimos momentos’ (do resultado entre as escolhas que tomamos e as que desejaríamos ter tomado), seja através da louca e incessante busca de um sentido nos detalhes mais ínfimos.

Apesar da temática pesada e da profunda complexidade de sentimentos presentes na obra, trata-se de uma narrativa surpreendentemente leve. Com o filho como narrador desta estória, é até possível sorrir perante a sua visão daquilo que os pais procuram sobre o que foi a sua vida.

«Viva a vida», evoca com frequência este pai já sem filho. Por ser aquilo em que acredita – na vida, na vontade de viver – este pai grita «Viva a vida». Aceitar a perda não será o termo a aplicar neste caso, “acreditar” será mais eficaz. Este pai busca vestígios do filho; busca pedaços da vida do filho que desconhecesse, algum sinal de que ele queria (ou não) viver, de que a doença apenas existira porque o corpo deixara de querer viver. Procurava sinais, recados, mensagens ocultas. Sentidos. Procura um sentido no caos.

Com o desprendimento humorístico típico da juventude em relação ao sentimentalismo familiar reflectido no discurso, a descrição deste impiedoso processo de luto rejeita cair num encadeamento de lugares comuns e constrói, com uma dose humor que tem tanto de negro como doce, uma narrativa presa às íntimas tranças de memórias, filosofias e crenças – detalhes que tornam a dor de cada um tão intransmissivelmente sua. Assim, delicadamente esculpidos neste romance, estão não só o relato de uma perda e uma reflexão sobre o que é estar vivo, como também um dilema entre o ateísmo e o simbólico, tão próximo do sagrado.



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