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30 anos de fantas

O Fantasporto celebra os 30 anos de existência com uma edição repleta de terror, zombies, vampiros, e cinema português. O Rua de Baixo esteve à conversa com Mário Dorminsky.

Arranca dia 22 de Fevereiro o 30º Fantasporto, uma edição marcada pelos regressos de cineastas que fazem já parte da história do certame. Park Chan Wok, o criador de “Old Boy”, está em competição com “Thirst”, mas não está sozinho: Jaume Balagueró traz “Rec 2”, e Shynia Tsukamoto o novo “Tetsuo : The Bullet Man”. Vicenzo Natali, cineasta premiado sempre que apresentou filmes no festival, marca presença com “Splice”.

Além da selecção oficial de cinema fantástico, onde também concorre o português António Ferreira com “Embargo”, o Fantasporto contará com a habitual semana dos realizadores. Esta secção costuma exibir os melhores filmes do festival e este ano brinda-nos com um leque alargado a várias regiões do globo. Filmes como “Fish Tank” da britânica Andrea Arnold (Prémio do júri em Cannes), o espanhol “Hierro” de Gane Ibañez, ou “Lourdes” de Jessica Hausner (que acumulou prémios nos festivais de Veneza e Viena).

O festival será ainda composto pela secção Orient Express, uma homenagem ao cinema francês, uma retrospectiva de Luís Galvão Teles e várias sessões de curtas-metragens. A juntar às curtas de cinema fantástico há ainda sessões de cinema português que resultam de parcerias com várias escolas, a agência da curta-metragem e a casa da animação.

Segundo Mário Dorminsky, director do festival, apesar dos 30 anos o Fantas é um festival jovem porque acompanha “aquilo que é a evolução do cinema”, e dá “uma imagem daquilo que é o cinema de hoje em dia”. Apesar de o festival portuense já há muito tempo não viver apenas do fantástico, este ano houve a intenção clara por parte da organização de oferecer variedade dentro desse género cinematográfico. “Há muitos zombies, muitos vampiros, muito sangue, terror e há isso tudo porque está a ser produzido, e com qualidade. Sempre que há uma grande crise, sobretudo financeira e a nível mundial, há um crescendo no cinema fantástico.” Estes são indicadores que poderão influenciar o circuito comercial em Portugal uma vez que “a maioria dos filmes que não estão comprados antes do festival, são comprados depois, se tiverem boa receptividade”.

Existe algum saudosismo por parte do público em relação ao Fantas dos anos oitenta. Também um certo brilho surge nos olhos de Mário Dorminsky quando perguntamos como era o festival no início. “O festival mudou muito. Quando estava no Teatro Carlos Alberto tinha características diferentes, não tinha condições para receber convidados. Aquilo era tudo relativamente mal amanhado pelos espaços que tínhamos. De qualquer forma era um festival simpático, com um glamour para as pessoas. Mesmo que elas entrassem por lá um bocado a medo, depois sentiam um relacionamento muito forte com o festival. E quando eu digo festival é o pessoal do festival, que trabalha no Fantas. E creio que essa é uma das grandes virtudes do Fantas: ainda continua a ser um festival de amigos, apesar da dimensão.”

Mas nem só de filmes vive este Fantas. “O festival faz ligações a várias valências da cultura” como a música, a literatura, artes plásticas e também as áreas do conhecimento e da ciência através da realização de um programa especial dedicado ao cinema e robótica. Durante o festival irá decorrer um workshop dedicado aos efeitos especias. Para esse efeito estão garantidos duas figuras de peso: David Martí, oscarizado pelo seu trabalho em “O Labirinto do Fauno”, e Colin Arthur, que trabalhou em filmes icónicos como “Jasão e os Argonautas” ou “2001 – Odisseia no Espaço”.

Mário Dorminsky assume que apesar da longevidade do evento as adversidades ainda são a sua realidade, e explica que “está a ser um ano atribulado em relação à situação de o festival se poder realizar”. “Tivemos uma quebra significativa em termos daquilo que são os patrocínios da parte de privados, não propriamente da parte do estado. Ou continuamos a sobreviver até 2011 e continuamos a fazer o festival ou então este dá o estouro completo. Espera-se que as coisas mudem. Fizemos um trabalho louco na tentativa de arranjar mais patrocínios e foi complicadíssimo.”

Quando questionado sobre a habitual abordagem directa que faz nas questões políticas, o também vereador da cultura de Gaia afirma ser preciso tornar claro que “há uma centralização em Lisboa a todos os níveis. Quase tudo se realiza em Lisboa, onde os eventos nascem como cogumelos. O Porto está de alguma forma a desfazer-se de eventos tradicionais criados na cidade e que dão impacto cultural à cidade”. Afirma ainda que “se as pessoas não vão para Lisboa não fazem rigorosamente nada, não têm impacto, não criam os lobbys”.

Dorminsky explica que em Portugal “o cinema nos últimos quase trinta anos é controlado pelo instituto do cinema. Não propriamente pelo instituto mas por júris. E esses júris também fazem parte de lobbys, o que cria a possibilidade de serem os realizadores do costume a receberem apoios para fazerem filmes. A justificação que é dada é que nos mercados internacionais, particularmente nos festivais, esses filmes ganham prémios porque são filmes diferentes. Obviamente que são diferentes. Têm o filme pago, fazem o que quiserem. É aquilo que eu chamo de fazer cinema para o umbigo. Depois não há espectadores para os filmes.”

O RDB quis saber quais os fantasmas que assombram o Fantasporto. Dorminsky fala-nos da falta de reconhecimento dada em Portugal ao trabalho de criação de imagem de “um produto cultural de qualidade feito no Porto para o mundo” e que crê ser exemplar. Qualifica como sendo “absolutamente inacreditável” a burocracia necessária “para responder ao estado em relação às verbas que são entregues pelo próprio estado”, e queixa-se também de alguma comunicação social. “Já trouxemos grandes nomes do cinema. Houve nomes como o Guilhermo Del Toro e o Ben Kingsley em que tivemos muita comunicação social na conferência de imprensa, mas também tivemos nomes como o Jaume Balagueró ou o Vicenzo Natali apenas com duas ou três pessoas”.

No entanto, garante, aquilo que realmente atemoriza o festival é a possibilidade de “não haver dinheiro para pagar às pessoas que aqui trabalham”.

E se o Fantas fosse um serial-killer, qual seria o padrão das suas vítimas? Não há espaço para dúvidas na resposta. “Todos aqueles que não nos apoiam e que nos deviam apoiar por estarem em certos lugares ou posições. Não estou a falar de privados porque aí fazem o que quiserem, estou a falar de entidades oficiais ou público-privadas que deviam olhar para a cultura de uma forma diferente”.



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