panthaduprinceelementsoflight_header

Pantha Du Prince & The Bell Laboratory | “Elements of Light”

A sinfonia electrónica que veio do frio

Oslo. A capital norueguesa albergava Hendrik Weber que, num relance auditivo de sensibilidade fundida numa inspiração momentânea, notou o sino da câmara municipal da cidade ecoando pelas fachadas enregeladas dos antigos edifícios.

A influência de tal acontecimento tornou-o o primórdio de “Elements of Light”, a sua máxima. Retornando ao fresco dia da ocorrência, Pantha du Prince – já encarnado no seu pseudónimo artístico – fez jus à sua condição musical pela criatividade.

A utilização de sinos é normalmente incomum, seguindo os padrões musicais quotidianos. No entanto, a autenticidade musical revela-se, hoje, como o rótulo do músico: Weber, renunciando às regras, absorto na sua própria originalidade, produziu, num contexto minimamente alternativo, um género electrónico tilintante, de máximas monumentais, refrescantemente nortenho, fundido numa macia névoa flutuante. Todo o instrumento de 50 toneladas e sinos (e xilofones, e címbalos) revelou-se o cerne da textura cerradamente saltitante protagonizada pelos 40 e poucos minutos do record.

De facto, a ambiência constante do álbum contribui para um resultado geral auspicioso, homogéneo, roçando o saudoso constante. Existe uma doçura melancólica comum a todas as faixas que contrasta com a frieza invernal dos agudos solipsistas dos instrumentos de percussão. O mérito encontra-se nessa fusão quase esquizofrénica, tanto precedida de explosões douradas fora de tempo como de sintetizadores longínquos que tanto têm de voláteis como de inúteis. Em «Particle», por exemplo, verifica-se uma frugalidade instrumental que foge do mainstream, enquanto remotos graves se aproximam, rastejando: a junção do orgânico com o electrónico.

Toda esta polida superfície mascara traços de ambient característicos de Pantha du Prince. No entanto, vejamos: em “Black Noise”, penúltimo trabalho do artista, verificam-se texturas que variam entre algodão breu, paralelepípedos rugosos e ambos. Existia uma mística transcendente ao dark ambient que caracterizaria o disco. Em “Elements of Light”, essa incoerência deleitosa para o ouvinte revelou-se reduzida a uma requintada brisa incessante que vive na sua condição: sem uma brutalidade minimamente incendiária, regozijando-se da sua constante sibilância. «Photon» hipnotiza pela cortês e elegante mecânica, incapacitada de palpitações.

Efectivamente, a vertente experimental do álbum influi para a inferência quase inevitável de que se cinge exactamente a tal: uma experiência, um estudo destes modernos elementos (a inexistência de voz reforça este ponto). Não é o caso: a sonoridade foi produzida e aprimorada, comum a todas as faixas. O experimentalismo, em «Spectral Split», coaduna inocentemente com a atmosfera mais complexa destes 40 minutos, tomada de assalto por um quarto de hora de cândida ondulação nostálgica, divagando assim como cobiça.

Dum modo mais introspectivo, a música vive. Para além do frio experimentalismo, traços de minimalismo adoçam uma atmosfera ora polida, ora tropical. Não é só ambient; não existe o negro ruído versátil de outrora, mas a mística não se perdeu.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This