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Pão de Forma

Ícone de uma geração sonhadora, de tempos de loucura e revolução, as carrinhas Pão de Forma marcaram uma época para sempre.

Enquanto que em grande parte do mundo as carrinhas Pão de Forma se tornaram míticas após o encerramento da sua produção, no Brasil, único país ainda fabricante do modelo, elas proliferam e são hoje um veículo utilitário que circula habitualmente pelas ruas.

De um lado do oceano Atlântico, seis amigos preparam as pranchas para mais uma viagem de “surfadas” rumo ao Sul de Portugal. Esperam-lhes lindas praias, grandes ondas, sol, calor e noites passadas à volta da fogueira, com cerveja, miúdas e o Jack Johnson do grupo a cantar e a tocar guitarra. Colocam o necessário na Pão de Forma restaurada, com peças importadas e retiradas de sucatas, que só pode ser utilizada pontualmente porque o motor é antigo e a gasolina e, portanto, uma “bebedolas”. Sai caro aos passageiros, mas vale a pena. Elas são símbolo de convívio e diversão e por onde passam deixam sorrisos estampados na cara de quem as contempla. Vêem-se poucas na estrada e quem as tem, usa-as como “Ferrari de fim-de-semana”.

Do outro lado, carregam-se mangas, abacaxis, tomates, alfaces, maçãs e melancias. Algumas levam pedreiros para o local de trabalho (por cá, as Toyota Hiace) e fazem take-away de pequenos-almoços – de manhã param à porta das obras com café, pão, bolo, entre outras iguarias, e servem o café da manhã aos homens famintos. São também a viatura favorita de famílias numerosas, escolas, pastelarias, correios e empresas.

Sejam pessoas ou mercadoria, tudo cabe na Kombi, nome como é conhecida no Brasil, lugar onde ainda não perdeu a sua múltipla funcionalidade e onde ainda é rentável fazer uso dela.

Vemos várias por todo o território, mas sobretudo no estado de São Paulo, devido ao estabelecimento de uma fábrica em São Bernardo do Campo, em 1957, que as produz de forma ininterrupta até aos dias de hoje.

A Kombi no Brasil

No nosso querido país lusófono, a Volkswagen Transporter ganhou o nome de Kombi, ou Kombosa, a partir da designação Kombinationfahrzeug que significa: veículo combinado.

O primeiro modelo a ser produzido em território brasileiro incluía dois bancos desmontáveis no ex-compartimento de carga, com capacidade para seis pessoas. Tal modelo já era produzido na Alemanha desde 1951 e depois dele, em ambos os países, vários arranjos de carroçaria vieram a ser realizados: adaptações para carros de bombeiros, ambulâncias, furgões refrigerados para gelados, transportadores de cerveja e veículos para campismo. Estas tranformações conduziram a um aumento considerável da produção.

Lançada com um motor 1200cc, refrigerado a ar (herdado do seu “pai”, o Beetle ou Carocha), o Brasil deu a grande bem-vinda à Kombi no final dos anos 50.

Chegada durante o nascimento da bossa nova, a confortável viatura acompanhou o movimento hippie na década seguinte, lutou durante os anos de ditadura e militarismo e presenciou o início da democracia brasileira.

Apesar da sua versatilidade, foi apenas mais tarde com o lançamento do modelo Samba, de oito lugares, que surgiu a pioneira das monovolumes de hoje em dia. A partir dos anos 80 surge o motor 1600 versão a diesel, e mais tarde a versão a álcool, muito utilizada no Brasil, refrigerado a água.

Um contexto histórico: o Hippie Mobile

Há 40 anos, jovens com cabelos lisos e compridos, óculos redondos com lentes coloridas, calças à boca-de-sino, túnicas, camisas floridas e sandálias, adoptaram como veículo principal a carrinha Pão de Forma. Vivia-se ao natural. Eles andavam em tronco nu e ostentavam exuberantes tufos de pelos corporais. Elas não usavam sutiã e também exibiam consideráveis tufos de pelos corporais. Eram os hippies, grupo de jovens descontentes com a política e moral vigentes que surgiu para fazer frente aos poderes e à repressão instituídos.

Influenciados por um período pós-guerra e pela Geração Beatnik, surgida na década anterior, difundiram os conceitos de paz e amor pelo mundo, em grande parte na Breadloaf. Da mesma forma que os Beatles, John Fitzgerald Kennedy, os acontecimentos de Maio de 68 e a guerra do Vietname existem na nossa memória, as carrinhas Pão de Forma também.

Durante a sua evolução, os hippies adoptaram valores socialistas-anarquistas e começaram a formar pequenas comunidades. Para satisfazer as necessidades e ir ao encontro dos princípios que seguiam, encontraram o modelo Type 2 da Volkswagen, nome com o qual como foi inicialmente apresentado à imprensa por ainda não ter um.

A divisão de tarefas fazia parte da conduta do movimento e combinava com a filosofia dos carros Volkswagen, cuja assentava na ideia de carro do povo (volk = povo e wagen = carro). Os veículos que produziam eram desenhados mecanicamente de forma simples e, portanto, qualquer pessoa com um conjunto básico de ferramentas poderia ser mecânico da sua própria carrinha Volkswagen.

Os Hippies Mobiles sofreram apenas ligeiras alterações no design nos primeiros vinte anos de fabrico e isso permitiu aos seus clientes conhecer bem o veículo, arranjar peças e manter a sua carrinha em perfeito estado.

Tida como precursora no âmbito dos veículos de transporte de passageiros e carga, era perfeita porque rapidamente se transformava numa casa ambulante. Possuía espaço para os mantimentos necessários e também para os passageiros, o que  permitia aos hippies funcionarem sob o sistema de boleias, serem ecologicamente correctos, economizar e também conhecer gente durante essas viagens. Desta forma, facilmente se tornou o principal meio de transporte dos amantes da natureza, rock psicadélico e LSD.
Hippie Mobile, Hippie Wagon, Hippie Van… A grande adesão do movimento levou a que fosse inclusivemente apelidada de acordo com o seu nome e que arrastasse um legado histórico incontornável. Possuía outros nomes também, tais como: Bulli, Breadloaf, Transporter, VW Bus, etc.

Uma história sem fim…

Há tanto para dizer quando falamos da carrinha Pão de Forma… A verdade é que é um símbolo do século XX e que muitos gostariam de ter uma e viajarem estrada fora.

Nos dias de hoje, o facto curioso é a existência simultânea de dois fenómenos aparentemente antagónicos: se, sobretudo na Europa e nos EUA, a maioria dos seus modelos é objecto de procura por parte de coleccionadores, no Brasil, devido à sua actual produção, a Pão de Forma não perdeu a sua função inicial como transporte necessário e multifuncional.



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