rdb_trolitadas_header

Trollitada

A Crítica e As Opiniões na Internet.

“O respeitinho é muito bonito”, lá diz o povo, mal acostumado a esta conversa da democracia, enquanto conduz furiosamente na estrada, cospe para o chão, mija na rua, não apanha a merda do cão para os outros poderem pisá-la e lança impropérios à esquerda e à direita, indiscriminadamente. Diferença de opinião é que não, não há pior falta. Se antigamente a coisa era resolvida com uns sopapos e umas quantas bolachadas (quer dizer, às vezes ainda é), no mundo novo das internetes e demais tecnologias é castigada com discursos falhos de lógica – em que os factos são obstáculos fáceis de circunscrever, qual slalom de imbecilidade intelectual – ataques ao homem, insultos variados ou, na pior das hipóteses, FRASES INTEIRAS ESCRITAS EM CAPS LOCK.

1. A “democratização” da crítica

O crítico nunca foi a figura mais amada do mundo, um ensaio ou outro do Oscar Wilde não apagam a infâmia que é exercer essa profissão, que ocupa na hierarquia um lugar ainda mais baixo do que o a da prostituição. Ao menos, as putas vendem o corpo, mais ou menos bem feito. E os críticos? Os críticos são pagos para discordarem de nós, para dizerem mal das coisas de que gostamos e bem de umas outras, obscuras, para se armarem aos cucos. Quem não pensa assim, que declame os Lusíadas na sua inteireza enquanto nada até ao outro lado do Atlântico. Pois é. Não há ninguém, não é? (Para que conste, isto é o que eu chamo de discurso falho de lógica, mas avancemos.)

A verdade é que quando, por qualquer razão, a coisa nos toca a nós – no futebol e na política, ou, mais em consonância com o meu ponto, nas artes – exigimos sempre uma crítica neutra e objectiva, o que equivale a dizer positiva. Uma opinião contrária tem sempre uma razão por trás: ou é snobeira, ou falta de inteligência, ou falta de sexo, ou a pessoa em questão está ao serviço de uma conspiração mundial que se propõe a rebaixar o nosso gosto ou qualquer outra coisa, não importa quão absurda.

Nisto, a Internet não criou nada de novo. A única coisa que fez foi dar voz a todas estas vozes, como se lê nos fóruns de discussão, nas caixas de comentários dos jornais e revistas, nos blogs, nas redes sociais. Como é óbvio, a crítica é criticável, a discussão e a polémica são essenciais à boa vida de uma sociedade, da nossa sociedade, mas esta “democratização” da opinião pública, sem regras, num jogo do “vale tudo menos arrancar olhos” é contra-producente; são raras as vezes que se discutem opiniões ou mesmo gostos, o mais recorrente é discutir-se a orientação sexual, a idoneidade ou a inteligência do interlocutor. Onde é que se chega quando se discutem pessoas em vez de ideias?

Pode dizer-se que isto sempre aconteceu e não é mentira, mas num momento em que a discussão se estende a cada vez mais pessoas, num espaço público cada vez maior, é um desperdício, uma oportunidade perdida.

2. O troll, o anti-herói da Internet

Não faço qualquer apelo à censura, mas que fazer quando se lida com “trolls” e “clones”; as pessoas que acedem à Internet para procurar atenção, ainda que negativa, através da repetição até à náusea das mesmas opiniões apresentado-as como factos, muita vezes a despropósito, recorrendo ao insulto pessoal quando chamados à atenção e as que criam perfis falsos para darem largas à sua alarvidade encobertas pelo anonimato? Se não quisermos ripostar na mesma moeda, partimos em desvantagem, se pelo contrário o fizermos estaremos a entrar pelo mesmo jogo que queremos denunciar. Se ignoramos, estamos a deixar que a coisa alastre, como acontece, e a reduzir o espaço e visibilidade para a verdadeira discussão.

Parece-me que deverá haver regras como nos espaços públicos “reais”, e quem não se submeter deverá sofrer consequências (expulsão, o apagar de comentários), mas até que ponto não poderá isso significar censura? E quem decide? Isto pode parecer uma questão comezinha, mas não é. O espaço público virtual tenderá a ter mais importância do que o real, e como será então?

Quanto à estupidez não há nada a fazer, no dia em que ser estúpido for crime, vamos todos dentro.

3. Nós e “os outros”

O tema preferido de qualquer conversa entre dois ou mais portugueses são “os outros”, sejam amigos, conhecidos ou figuras públicas, em que normalmente se faz um julgamento primário, muitas vezes sem provas e sem ouvir o contrário. Por outro lado, num país com uma muito breve história de liberdade e democracia, a discussão salutar de ideias ainda é notícia.

Nos outros países não há-de ser nenhuma maravilha, no entanto nas discussões vislumbra-se um argumento aqui ou ali, opiniões, mais ou menos informadas, que não são apenas tiques cerebrais. Há respeito pelo outro e pelo que ele tem para dizer. Se calhar exagero para carregar de negrume o cenário português, em certos sites internacionais encontram-se os mesmos problemas, mas a sensação que fica é que os participantes são putos de 12 anos. Em Portugal são pessoas que têm a mentalidade de putos de 12 anos: todos nós. Onde há “respeitinho” em demasia, falta o respeito. O certo é que enquanto não ultrapassarmos esta adolescência democrática não deixaremos de pertencer ao limbo do Segundo Mundo.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This