Pavel – Um homem não se apaga

Pavel – Um homem não se apaga

O homem que viveu duas vezes

Francisco de Paula Oliveira, português, morreu Antonio Rodríguez no México. O legado que deixa  passa por uma vasta obra no âmbito do jornalismo cultural, do ensaio e da intervenção social. Por cá, outrora figura de relevo do Partido Comunista Português e da luta contra o Estado Novo e os ditames de Oliveira Salazar, viu-se envolvido numa conspiração que o tornou errante, forçando-o ao exílio no continente americano.

Por sua vez, Edmundo Pedro, antigo dirigente do Partido Socialista que também assumiu responsabilidades como presidente da RTP e deputado à Assembleia da República, conviveu e confidenciou com a figura supradita, que carinhosamente tratava por Pavel. Desta amizade e da indignação contra os factos que forçaram Francisco de Paula Oliveira a abandonar o seu país, chega-nos Pavel – Um homem não se apaga (Parsifal). Remontando à década de trinta na Europa, o fervor revolucionário marxista-leninista era remetido à clandestinidade nos países sob alçada de regimes totalitários de direita. Neste contexto, os feitos do camarada Pavel, tal como Edmundo Pedro os relata, assumem um carácter panegírico. São diversos os elogios ao intelecto dotado do “misterioso militante” e à sua perseverança na causa comunista, através da luta contra a repressão ideológica, destacando a perseguição incansável levada a cabo pela PIDE. Torna-se claro que Pavel – Um homem não se apaga tem ambições de fazer uma síntese de uma época e de um homem, não conseguindo, no entanto, desligar-se das emoções como propõe o rigor da escrita da História. Destinada a ser uma fonte de consulta para o futuro, espera-lhe alguém que problematize com olhos de cientista, comparando o espaço e tempo quer de Francisco de Paula Oliveira, quer de Antonio Rodríguez – a mesma pessoa que viveu duas vezes.

São vários os momentos em que a tarefa de “cronista do reino” leva Edmundo Pedro a optar por  resolver divergências e dissabores com figuras de proa do PCP. É sobretudo nos ataques a Álvaro Cunhal que tal se nota. Sobre este surgem apontamentos como, “Cunhal, após a sua instalação na União Soviética, depois de fugir do Forte de Peniche, recebia não só um salário principesco, mas usufruia também de excelentes mordomias”, ou, “Só depois de ter «formatado» o partido à sua maneira, só depois de a sua direcção ser composta unicamente por quadros da sua inteira confiança, só então ele se poderia ocupar da eventual recuperação do Pavel sem correr risco de ser substituído por ele na liderança do partido”. Território já visitado por Edmundo Pedro, certos avanços semelhantes apareceram no artigo publicado no Expresso, A segunda morte de Pavel.  Ludgero Pinto Basto, antigo dirigente do PCP que exercia a profissão de médico e “mantinha na Praça Marquês de Pombal um consultório onde tratava a saúde às burguesas ricas de Lisboa”, publicou uma resposta ao autor no mesmo jornal. Ambos os artigos são reproduzidos no livro, havendo ainda uma nova resposta ao falecido Pinto Basto, assegurando que o debate sobre as crises passadas e legados do PCP se perpetue. Quanto ao sequíssimo prefácio de Mário Soares, digamos que este não se aventura em polémicas.

O valor de Pavel – Um homem não se apaga, reside sobretudo na análise possível da evolução ideológica ao longo da vida, as mentalidades reformistas vs revolucionárias e como se sobrepõem ou complementam. Está patente quando Pavel, já reconhecido como Antonio Rodríguez, quebra com o seu passado estalinista, ou quando Edmundo Pedro quebra com o seu passado marxista. Rodríguez, numa bonita sucessão de capítulos finais escritos pela filha, é descrito como um humanista com uma responsabilidade social imensa, que revolucionou o pensamento cultural mexicano, deixando maior herança do que no seu país natal.

Pondo de parte as suposições sobre a realidade alternativa de Portugal e do PCP, afirma Edmundo Pedro que a chama revolucionária de Pavel nunca se extinguiu, como o próprio lhe confidenciou numa das visitas posteriores à Revolução de Abril.  Talvez, noutras circunstâncias, houvesse um culto da personalidade em torno de Francisco de Paula Oliveira, pese a possibilidade de Antonio Rodríguez reprovar tais sintomas febris.



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