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Pete Doherty a solo

Musicbox, 11 de Maio de 2009.

Foi com grande surpresa que todos descobriram naquela fresca segunda-feira que o ex-vocalista e guitarrista dos Libertines ia tocar ao Musicbox. Toda a gente correu em direcção a todo o sítio possível para conseguir bilhetes. No final, acabaram na fila que, para quem conhece a “pitoresca” zona, chegou a dobrar a esquina do Jamaica. O Musicbox foi lentamente enchendo de fanáticos do famoso artista, desde absolutos desconhecidos a uma ou outra personagem de bandas da pop portuguesa.

Muito rapidamente, o que dizer deste inesperado concerto? Pois bem, meninos e meninas: Não se metam na droga. Enfim. É sempre fácil fazer críticas destrutivas. Mais fácil ainda se torna se o alvo da crítica representar o sonho molhado de qualquer rockstar wannabe. Basta adicionar uma pitada de inveja, polvilhar com azedume da vida robótica que se tem trabalhado de sol a sol e, por fim, la piéce de resistance, ironia q.b. para tentar camuflar as anteriores. É a isto que se dedicam com incansável afinco os tablóides britânicos e as revistas cor-de-rosa. Pois bem, a Rua de Baixo tem rosa no logo, mas também tem azul e amarelo. Nessa inevitabilidade, tem o dever de analisar estas coisas da lide artística com um pouco mais de substância e profundidade.

É preciso muito para se subir a um palco e deitar cá para fora as coisas que nos vão na alma, sem nos sentirmos minimamente incomodados pelos olhares críticos. Esse muito pode ser muita coisa. Muita lata, muito desespero, muita displicência, muito exibicionismo ou… muita convicção de que se tem algo a dizer que realmente interessa aos ouvintes. No caso da estrela desta noite, o virtuosismo instrumental não é o seu forte. Mas convenhamos que esse também nunca foi o forte de nenhum songwriter que realmente valha essa denominação. Essa palavra que não tem tradução em português, à excepção do macarrónico “cantautor”. Um misto de escritor literário e compositor, que não é essencialmente um ou outro. Os poetas cantores. De quando em vez aparecem aves raras destas, que mudam o rumo do rock n’ roll.

Quem somos então nós, meros observadores, para julgar um tipo que já mandou, literalmente, no rock britânico? Não é qualquer zé ruela que vive uma vida sem restrições, vai aos píncaros, bate no fundo e logo a seguir levanta-se e encara o mundo como se nada fosse. É o que parece entretê-lo na vida: forçar limites. É isso que encanta as miúdas e as deixa babadas em frente ao palco, quase prostradas. A primeira miúda que não goste do estereótipo romântico do poeta aventureiro e desregrado que atire a primeira pedra. Só não houve soutiens e cuequinhas arremessadas porque era segunda-feira e isso não ia cair bem.

O concerto teve o seu quê de decadente, não nos iludamos. Mas isso deve-se ao facto de a personagem em causa ser, de per si, decadente. Aquela pose esgazeada e cadavérica não descortina nenhum pré-ensaio. É claramente fruto de muito fritanço.

Foram tocadas músicas do álbum “Grace/Wastelands” construído com a colaboração de Graham Coxon, ex-guitarrista dos Blur, e outras dos extintos Libertines. Como é habitual, o público perdeu-se um pouco nas novas, para rejubilar nas mais antigas. Enquanto as meninas se abstiveram de figuras menos felizes, o mesmo não aconteceu com os meninos. Bastou aparecer um tipo em cima do palco com uma harmónica, que de repente o concerto se transformou numa espécie de “Bravo Bravissimo”. Sim, aquele programa italiano que nos proporcionou grandes momentos de televisão, em que se metiam miúdos a imitar adultos. Recordo-me que pelo menos nesses dias longínquos, os miúdos ainda sabiam fazer qualquer coisinha. Chegando ao contestant number three!, Pete Doherty esgotou o stock de “talento” disponível na sala. A partir daí foi uma espiral descendente até ao final do concerto. Toda a gente subiu ao palco, a dançar psicadelicamente ao som de uma guitarra cada vez mais afónica e de uma voz cada vez mais desmotivada. Ó meninas! O concerto dos Stones em Hyde Park foi em ‘69! Essa dança já tem quarenta anos e não se encaixa nesta banda sonora! Enquanto isso, tentavam roubar o casaco do artista e a segurança subiu calmamente ao palco para dispersar os fãs que viviam o sonho de estar em amena cavaqueira com o seu ídolo. Em fundo, era projectado um filme a preto-e-branco, pelo qual Pete Doherty passou várias vezes os olhos e se desconcentrou, partindo músicas ao meio. Esteve claramente em noite não. Teve de fazer uma pausa e sair do palco por uns instantes, para se lembrar da letra de uma música que se tinha esquecido. Nas suas próprias palavras: “I’ve done a thousand gigs and I had never gone poof! I’m just too fucked up…

Voltou para acabar o concerto com mais algumas músicas e mandar os fanáticos em êxtase para casa. Mal devem ter dormido.



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