PR#1 Ondjaki

Entrevista exclusiva com o escritor angolano.

O escritor angolano Ondjaki é, aos 27 anos, um dos nomes incontornáveis da nova geração de escritores de língua portuguesa. Com uma versatilidade que vai do romance à poesia, passando pelo conto e livro infantil, Ondjaki fascina-nos com a magia que os livros têm dentro de si. Conheçam-no um pouco melhor e não hesitem em conhecer a sua obra.

RDB: És um homem de muitas paixões: pintura, teatro, cinema, literatura. Que lugar ocupa esta última na tua vida?

Ondjaki: Ocupa, ou tem ocupado, um lugar mais central. Mas é como qualquer outra arte, um modo de explorar e expôr partes da minha sensibilidade. É também um modo de ir fazendo passar algumas mensagens, não necessariamente ideológicas, antes posturas estéticas, simples pensamentos também.

RDB: É fácil conciliar o tempo para tantas actividades?

Ondjaki: Não diria que é fácil, mas tem a ver com o modo de as pessoas estarem no mundo. Eu gosto de estar no mundo a fazer coisas e a ver o resultado prático desses investimentos. O tempo vai-se inventando…

RDB: Estas paixões interligam-se? Isto é, por exemplo, um conto dá a ideia para um quadro; um quadro surge de mote para um conto?

Ondjaki: Nem sempre, mas também não são compartimentos separados uma vez que a mente e a sensibilidade são da mesma pessoa. Há coisas que se tocam, que se confrontam, que se provocam. A música provoca-me momentos literários, mas os filmes e as artes dos outros também. Gosto de estar com os poros abertos e sofrer pressões de todas as artes, e de vários mundos, individuais e colectivos…

RDB: Na tua escrita, há também uma grande versatilidade. Romance, novela, poesia, conto, histórias infantis. Há para todos os gostos. Estás ainda à procura do género ideal ou é tua intenção continuar a escrever em diversos géneros literários?

Ondjaki: É minha intenção ir fazendo o que a minha estética ditar… E assim encontrar o melhor formato para dizer o que for urgente, para mim, do ponto de vista da criatividade. Eu busco sementes mas não estou preocupado com o resultado das plantas ou flores que as minhas mãos criam. Estou muito aberto ao futuro da jardinagem, dos encantos da escrita. Gosto muito de ser vários.

RDB: Apesar de toda esta ligação às artes, a tua formação académica não está dentro desta área. Porque escolheste o curso de Sociologia?

Ondjaki: Não escolhi, foi um processo um pouco conturbado e sinuoso. Acabei por fazer Sociologia sem grande paixão pela Licenciatura, mas aprendi imenso. Fez-me crescer e compreender muitas coisas. Faz parte da caminhada.

RDB: O olfacto é um sentido que, nos dias que correm, parece ter caído numa espécie de esquecimento. No entanto, na tua obra os cheiros são uma presença constante e elemento-chave na descrição de qualquer pessoa ou coisa. Que importância adquirem para ti os cheiros?

Ondjaki: Não sei bem… Já me têm dito isso. Acho que é um pouco natural, não é muito pensado. Acho que os cheiros recriam ambiências, podem sugerir coisas a quem lê, mas a verdade é que eu acabo por imaginar os cheiros como coisas importantes para os próprios personagens, e para mim, enquanto escrevo. Ajudam-me por vezes a estar lá, a descobri-los também. Voltaria à imagem do jardim: o que seria do jardineiro sem um mapa de cheiros?

RDB: Outra das presenças assíduas na tua obra é a morte. Mas é quase sempre uma morte sem conotações negativas. Uma morte, atrevo-me a dizer, bela. É bela a imagem que tens da morte?

Ondjaki: Não diria que tenho uma imagem bela da morte, nem poderia mesmo dizer que a imagem literária que tenho da morte é a imagem real que faço dela. Oxalá um dia consiga conciliar as duas visões, pois literariamente vejo-a como uma coisa simples e natural. Vejo-a como uma passagem, mais do que uma barreira. Os meus personagens não costumam ter problemas com a morte, mas todos sabemos que, do ponto de vista individual, a morte é um grande diálogo, um grande confronto com que nos debatemos. A morte tem que estar nos livros, pois está em toda a parte.

RDB: África, mais precisamente Angola, é sempre o pano de fundo. Imaginas-te a escrever um livro sem Angola ou África? São muito importantes para ti as raízes?

Ondjaki: Felizmente tenho raízes abertas, divagantes, em fluxos criativos e de busca. Mas já escrevi alguns contos e imensa poesia sem esse pano de fundo africano. As raízes são importantes para mim, é claro, mas é preciso que as raízes se saibam reinventar. O Mia Couto até tem um livro com um título que diz quase tudo: “cada homem é uma raça”. O universo está cheio de Humanidades e as raízes tocam-se, o mais das vezes.

RDB: Tens alguns textos  escritos na linguagem popular angolana, com alguns vocábulos de kimbundu incluídos. “Quantas madrugadas tem a noite” é um exemplo perfeito. Porquê essa linguagem? Quais são, para ti, os prós e os contras de usar esse tipo de linguagem (digamos menos correcta, mais tipicamente oral)?

Ondjaki: A linguagem de um livro, para mim, advém normalmente de uma necessidade de adequar o formato de escrita à estória que se conta. É só isso. Não ando preocupado em escrever em “linguagem popular angolana” ou em “linguagem erudita angolana” ou mesmo em “linguagem erudita portuguesa”. Nada disso existe. Existem, sim, caminhos e estéticas de cada autor. Nem sei se o livro “Quantas madrugadas tem a noite” está escrito nessa suposta linguagem popular angolana.

RDB: Projectos para o futuro? Estás a trabalhar em algum livro? Outro projecto?

Ondjaki: Estou sempre a trabalhar em outros projectos, felizmente. Imaginando-os, sonhando com eles, ou assistindo à dura realidade que o nosso planeta de injustiças todos os dias fornece. De momento escrevo contos e estou a preparar um novo romance.



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