José Luís Peixoto

Um dos mais activos escritores da nova geração desceu à rua para uma conversa sobre os livros, o teatro, a cultura e a vida.

A escrita é uma actividade solitária. Para contornar isso, José Luís Peixoto multiplica as possibilidades da sua escrita, e assim se multiplica. Depois da prosa, da poesia, do romance, da música, este escritor que acredita ser possível, “embora não seja fácil” viver da escrita, encena as suas personagens numa peça de teatro.

“À manhã” foi um bom pretexto para, pela tardinha, a RuadeBaixo estar à conversa com José Luís Peixoto que nos falou da sua escrita, mas também da escrita dos outros, da Arte e do seu novo romance.

Segundo o jovem escritor, no panorama das artes em Portugal “há razões para se ser optimista.” Em tempos de incerteza, ficam-nos as suas palavras e a sua obra, sempre em busca de mais um “amanhã”.

RDB: Quando ouvimos falar numa peça de José Luís Peixoto pensamos: “ele está em todas”: teatro, música, escrita… Gostava que nos falasses como surgiu este projecto “À manhã”, uma espécie de evocação com um trocadilho…

JLP: …sobre o dia seguinte. Uma coisa que eu sei há já algum tempo sobre mim é que gosto muito de trabalhar com outras pessoas e a escrita não permite isso. Ao contrário, a escrita, seja ela de que forma for, é uma actividade solitária que não dá para partilhar com ninguém, mesmo que a pessoa esteja aqui ao lado. É por isso que já trabalhei com pessoas de diversas áreas em vários projectos.

Já escrevi para vários suportes e o teatro na sua essência é um trabalho conjunto. O espectáculo de teatro, que é o fim da criação, não é só o texto, o cenário, os actores; é a junção do trabalho de todas essas pessoas. Ainda assim, na grande maioria dos casos, o autor está afastado desse processo, do trabalho que é feito sobre o texto. Neste caso, também por não ter muita experiência de escrita sobre teatro e ter vontade de trabalhar com as outras pessoas, foi mais importante envolver-me e ao mesmo tempo partilhar esse momento da escrita o tanto quanto possível através da opinião rápida e directa das outras pessoas que também estavam ligadas a este espectáculo.

Este projecto em particular surgiu de um convite do teatro S. Luís a mim e ao teatro Meridional e partiu de uma concepção que elaboramos em conjunto. Escolhemos o cenário rural para este espectáculo e partimos de uma ideia que foi escrever sobre aquele que dá vontade de viver. Afasta-se do que eu escrevi ate aqui, embora, a meu ver, tenha algumas ligações.

Ao vermos a peça, sentimos uma ligação ao “nenhum olhar” por causa do cenário. Parece, não necessariamente um regresso, mas um reinventar, uma outra perspectiva, outra visão

Na verdade, tudo se pode passar no mesmo cenário. No mesmo cenário podem passar-se as coisas mais diversas. Neste caso, há um cenário em comum com o “nenhum olhar”, mas há também muitas outras questões. Uma delas é o peso das personagens do “nenhum olhar” que, para já, raramente falam e estas não fazem outra coisa senão falar. Depois, em relação às visões da vida acabam por ser muito diferentes, embora haja uma questão identitária que partilham. Aquilo que partilham é a identidade cultural.

Nota-se referências que são tuas. Da tua infância, adolescência, nas personagens, nos seus jeitos. No “morreste-me” há uma parte em que fazes uma promessa de “trazer de novo o mundo que foi nosso”. Há aqui o cumprimento dessa promessa?

Essa promessa está no “morreste-me” e é uma promessa que todos os dias, a escrever sobre as coisas mais díspares, se mantém sempre. Muitas vezes, quando preciso de força para escrever, é a essa promessa que vou buscá-la. Porque para mim é importante tentar ser a voz de pessoas que foram muito importantes para mim e que continuam a ser, embora já não estejam ao meu lado, e que me ensinaram coisas que são maravilhosas. Em muitas ocasiões tento falar com a voz dessas pessoas e fico contente quando alguém me diz “é tão novo em comparação com o que imaginei quando li o texto”. Fico contente porque uma parte de quem escreveu aquele texto é composta por pessoas mais velhas do que eu. E este espectáculo tem muito disso porque aquela linguagem é uma linguagem que poucas pessoas usam e que vai morrendo, vai sendo esquecida. E utilizá-la neste contexto é tentar mantê-la, fixá-la, dar nova vida e novas possibilidades. E isso é lutar contra a morte.

Não obstante, não achas que essa linguagem pode limitar públicos?

Não. Eu não estou a pensar nos públicos quando escrevo. Mas depois de escrever acabo sempre por pensar neles. Aliás, na folha de sala existe esse glossário, que não foi ideia minha e que até duvido que seja necessário. Porque qualquer pessoa que entenda português entende este espectáculo e as palavras que não conhecer acaba por perceber no seu contexto.

Acho interessante dar trabalho a quem lê, a quem vê, a quem acede ao texto. Se lhe chega completamente linear não envolve, não desafia, não toca realmente. Acho que é necessário haver dispositivos que permitam que as pessoas estejam presentes de facto, mas não para excluir. Ainda assim, esforço-me por ter várias dimensões. Neste texto, a dimensão mais imediata é a das relações entre as personagens. Há outras mais escondidas para quem quiser ir procurá-las. Uma delas é a relação com dois textos: o “à espera de godot” e “as três irmãs” que existem no nome das personagens e em citações, parafraseadas, de acordo com aquele momento em particular e isso já está acessível a menos pessoas. No entanto, não me incomoda nada que não detectem isso porque o que é importante é que as pessoas encontrem coisas diferentes.

Nota-se nalguns pontos uma personagem que anda sempre “à espera de mi mori” que nunca aparece. Há aqui um tema constante: o amor, a sua busca, a espera…

Há coisas de que nunca se podem fugir. Temas como o amor e a morte estão sempre presentes. Não se pode falar de seres humanos sem falar nesses dois sentimentos. Embora não seja um texto sobre a morte em contraposição a outros textos meus que abordam esse tema directamente, também lá está na idade das personagens, na esperança. E o amor também. O amor um bocadinho adolescente.

Tens experimentado linguagens diferentes: o romance, a prosa poética, a poesia propriamente dita, a crónica, o livro musical ou o disco literário e agora o teatro. És um explorador ou um experimentalista?

Acho que faz sentido experimentar. Nunca me vi exactamente como um experimentalista. Mas quando se quer conhecer tem de se experimentar. É um dos hábitos da ciência. Eu não sou nenhum cientista, mas a literatura, a vida, a arte tem de ver com aspectos da ciência, e esse é um deles. As questões que se colocam na música, dança, teatro, muitas vezes são próximas das que se colocam a quem escreve um texto. E tem de se fazer opções, tem de se gerir. E ainda por cima faz-se a gestão de objectos que têm semelhanças: num caso são as palavras, noutro o movimento, noutro os sons, mas há questões gerais.

Existem então formas de expressão artística que consideras que estão mais “evoluídas” do que outras, mais puristas. A escrita, por exemplo, ainda é uma área muito purista?

Não, na escrita tem-se feito coisas muito interessantes e diferentes entre si e a escrita é uma área onde há razões para optimismo. Porque há pessoas que estão a surgir agora, pessoas que nasceram já em democracia, que não vivenciaram o tempo de ditadura.

A literatura portuguesa mais recente não pretende estabelecer uma ruptura. É sobretudo continuidade, mas uma continuidade interessante. Mas há outras áreas mais estanques, mas isso talvez seja uma questão mais internacional e não tipicamente portuguesa – áreas como as artes plásticas estão já muito evoluídas do que a maioria das áreas artísticas.

És optimista em relação à literatura portuguesa?

Sim, de certa forma surgiu um boom editorial que teve aspectos positivos e negativos. Como positivos destacava o surgimento de pessoas com notoriedade e aceites como tal, o que é positivo e já não surgia há muito tempo, sobretudo na área da prosa. O lado negativo tem a ver com o facto de muitas publicações terem sido submersas nesta avalanche que ainda continua, porque na verdade acaba por se editar mais do que é viável. Publicar um livro e não distribui-lo convenientemente é negativo. Ao mesmo tempo, acaba por não haver espaço para falar de todos os livros, de dar a devida atenção aos livros e depois acaba por ser difícil saber a quais é que se deve dar atenção.

Que tipo de leitores achas que temos; há uma cultura de consumo literário, de procura de bons livros?

Eu tenho uma visão muito parcial, penso que não deve ser a visão mais correcta da realidade. A minha perspectiva acerca dos leitores é a dos leitores que me contactam, que eu encontro e encontro muitas pessoas que lêem, de todas as idades, homens, mulheres, e pessoalmente sou muito optimista em relação a eles. Quanto à qualidade, eu não sei dizer o que é um bom ou um mau leitor. O que é um bom leitor? De todas as definições que já ouvi, nenhuma me convenceu. É como dizer que uma pessoa é boa ou má. Há muitas coisas para avaliar e quem o faz reduz.

Tens sempre um forte feedback dos leitores que te procuram, que te querem dizer que gostaram e porquê, que querem partilhar…

Nunca percebi muito bem porquê. Em relação ao “morreste-me” percebo, por causa do tema. Pessoalmente, sinto-me muito bem com isso, é muito importante.

Ao mesmo tempo não tens o receio de…decepcionar essas pessoas?

Algumas vezes sim. Só que quando começo a escrever deixo de pensar nisso. Se não consigo deixar de pensar nisso, então prefiro não escrever. Esse tipo de pensamentos prende muito os movimentos. Porque é um engano pensar que escrevemos para um público, para um certo tipo de pessoas. Nunca se sabe. Por outro lado, há pessoas que querem tudo e o contrário disso. Querem coisas completamente distintas, por isso é impossível ir de encontro às expectativas todas. O máximo que se pode fazer é aquilo que se consegue de acordo com aquilo que se acredita.

Do que é que tu preferes escrever? Do que é que achas que é preciso escrever?

Acho que a escrita, se tem alguma função, que faz parte da sua natureza, é a humanização. É humanizar o outro e também a nós próprios. É a possibilidade de dar aos outros a possibilidade de ver o mundo de outra maneira, saber o que os outros sentem e também saber melhor o que é que o próprio sente. Conhecermo-nos melhor uns aos outros e conhecermo-nos melhor a nós próprios. Isso é o mais importante.

Sendo a leitura, a interpretação, um acto individual, eu acho que a escrita, o texto, deve ser sobre uma matéria que despolete coisas como uma espécie de elemento químico, uma mistura, de um elemento, de uma equação da qual tem de fazer parte necessariamente. Porque no fundo aquilo que conta, aquilo que subsiste de real não é o texto em si, como objecto, aquilo que subsiste e que é importante é o resultado invisível que o texto tem em cada pessoa.

Como leitor, o que procuras ler?

Eu leio muito e leio tudo. Leio de uma extremidade até à outra, tento não ter preconceitos em relação àquilo que leio, e quando tenho, porque tenho alguns, tento contornar. Gosto de ler autores que ninguém conhece e que não tenho referências sobre eles. E depois há outros autores que já conheço e releio sempre.

Acabam por ser uma influência na tua escrita?

Tudo é uma influência na minha escrita., desde um almanaque de 1910… encontro lá ideias, estruturas. O importante é ter os olhos abertos, ler tudo como se fosse poesia.

Há pouco tempo vieste mencionado num artigo de um jornal que falava sobre escritores que vivem da escrita em Portugal. Como é viver da escrita?

Viver da escrita em Portugal é difícil, mas se calhar é difícil viver da escrita em qualquer país do mundo. Mas não é impossível e espero que seja cada vez mais fácil e haja cada vez mais pessoas a fazerem isto. No meu caso, a multiplicidade de áreas em que escrevo também ajudou muito a subsistência e a viabilidade económica da minha actividade. Porque eu acho fascinante descobrir formas novas de escrever e de mostrar a escrita porque a própria forma difere o texto. O impacto de um texto escrito em néon ou escrito num livro é diferente. E isso é interessante: trabalhar com a escrita. Porque todos os meios têm formas diferentes de abordagem. Para falar da mesma coisa num poema é diferente do que para falar da mesma coisa num romance.

O Rimbaud, quando falava da poesia, chamava-lhe a “liberdade livre”. De facto, tudo está em aberto quando começas a escrever um poema. Mas quando colocas a primeira palavra tudo deixa de estar em aberto. Existem lógicas e contingências que tens de seguir… Tudo é limitado. As palavras são limitadas.

Citaste uma vez um escritor norte-americano, segundo o qual “escrever um romance é como voltar a casa numa noite de nevoeiro”. Neste romance que estás a escrever sabes onde queres ir?

Este romance é muito especial porque eu estou a escrevê-lo, mas não há nenhum nevoeiro. Deitei muitas páginas fora porque achava que não estava a ir na direcção que eu queria. Já conhecia a estória do pintor Balthus, que num dos seus quadros decidiu afastar uma das figuras uns centímetros e voltou a pintar o quadro todo por cima do que tinha. Eu acho que tem de se fazer isso, quando as coisas não estão como nós queremos, temos de voltar a fazê-las. A literatura e qualquer forma de arte não permitem a preguiça.

Não permite também preguiça afectiva ou emotiva porque obriga a trabalhar emoções…

Isso é muito importante para qualquer pessoa que queira escrever. Não pode existir preguiça e tem de haver muita força de vontade.

Quais são as maiores adversidades de um escritor?

Para mim, ele próprio. A maior adversidade é o medo que, embora encontre sempre muitos pontos exteriores, nasce dentro de cada um. A maior adversidade é o medo e outros sentimentos que nascem com ele. Mas não são impossíveis de ultrapassar e tem de se ser forte para ultrapassar o medo de sermos constantemente avaliados. Podes apenas escrever uma fita de fim de curso e as pessoas vão avaliar e isso é uma constante na escrita. Mas eu acho que as coisas essenciais dependem de nós. Temos de ver que também existe um lado positivo nessa crítica.

Para terminar, fala-se desta questão de “ser português” e a tua peça, “à manhã”, mais do que portuguesa, é regional. Ao mesmo tempo, és um escritor que já andou por vários sítios e tem a obra publicada em várias línguas…

Interessa-me muito Portugal, a portucalidade. Porque me interessa muito aquilo que sou e já andei fora de Portugal um ano e sinto-me português. Acho que o meu mundo é mesmo Portugal. Eu gosto muito de viajar, e para mim é maravilhoso ter os meus livros publicados noutros países. É uma das maiores recompensas que pode haver. Mas em relação às minhas referências, interessa-me trabalhar sobre isso, os sentimentos portugueses e naturalmente surgem estas questões. Agora, o que somos enquanto país, eu não sei… é uma questão mais ou menos eterna, como perguntar o que é a vida, o que é o Amor. São perguntas para se procurarem toda a vida e ao mesmo tempo tentarmos compreendermo-nos.



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