Lambchop-2

Primavera Sound Porto 2024 | Dia 2 (07.06.2024)

O dia complicado em que Úria triunfou.

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Texto por Miguel Barba e fotografia por Graziela Costa.

Todos nós estamos sujeitos a ter um dia difícil. No segundo dia do Primavera Sound no Porto, coube à produção do festival vivê-lo com os problemas no palco Vodafone, que ditaram o cancelamento de todos os concertos que aí iam ter lugar. Já a forma como se comunica – em especial com o público – é essencial, e não conseguir fazê-lo da melhor forma, pode ter consequências adversas, algumas no imediato outros no médio e longo prazo.

A chuva atrasou a chegada e a entrada no recinto e André Henriques já toca no palco Plenitude. Leveza” é o belo pretexto para estarmos aqui.  E «Espanto» faz-se ouvir, “Fácil / Imagina que é fácil”.  «Muro» conta com um sample da chuva torrencial que caia no dia em que a canção foi gravada. Parece adequado, dadas as circunstâncias. Há passagens por “Cajarana”, porque o caminho que o trouxe até aqui é importante e é bonito ver estas canções a coexistir lado-a-lado, reflexos de momentos bem distintos na vida de quem lhes deu forma. «Milagre na Óptica do Utilizador» e «De Tudo o Que Fugi» são precedidas pela apresentação da banda. São também duas belíssimas canções reflexos desses períodos. Tempo bem passado.

Samuel Úria eleva as guitarras ao alto com os seus comparsas, enquanto promove e estende – houve direito a canção nova, ainda em processo de maturação – o seu já vasto cancioneiro. Foram 50 minutos despretensiosos, sinceros, de uma entrega absoluta, com um humor simples mas fantástico e com a capacidade de apelar às nossas emoções, e começou ao com de «Aos pós».

«Lenço enxuto», não contou com Manel Cruz, como acontece na versão do álbum, mas soou belíssima. Seguiu-se a homenagem a Xico da Ladra, amigo de muitos ali presentes, e que teria feito anos na semana que passou.

Em «É preciso que eu diminua» Samuel Úria canta “Eu só sei crescer” e continua a agigantar-se para nosso deleite. A surpresa da tarde está reservada para «Vem por mim», que conta com a presença de Milhanas, que há pouco tinha actuado no palco Porto.. Nesta altura apercebemo-nos que a chuva parece ter realmente ficado para trás e celebramos. Vivemos o momento porque este, em particular, está a ser verdadeiramente bom. A fechar Samuel Úria tem «Fusão» e «Repressão»; “Repressão, repressão”, grita-se à toa / Qualquer causa é boa num refrão / Repressão, se é gourmet, serve a Lisboa / Qualquer moda é causa num refrão”.

Para o final fica a frase do dia, da autoria do baterista que acompanha Úria: “Faz lá igual, Lana Del Rey”. Não fez!

No Palco Plenitude é vez de This Is The Kit. A probabilidade de já terem ouvido a voz de Kate Stables nalgum álbum que não dela não é tão baixa quanto possam pensar, mas estamos aqui reunidos para escutar as suas canções. «Moonshine Freeze» surge logo a abrir; canção completa e madura que encontra um imenso reconhecimento no nicho que as escuta e celebra. O cinto que Stables tem à cintura rapidamente revela a sua principal função: segurar e estabilizar o banjo que tanta vez será tocado. «Inside Outside» avança após uma afinação do banjo on-the-fly.

Navegando entre pop, rock, folk e até algum jazz, Stables vai delineando as suas paisagens que assentam de forma perfeita no dia soturno e rasgado por relâmpagos e trovoadas que se vai sentindo no Porto, mesmo com a chuva a conter-se. É música que aquece a alma. Há muitas interrogações nas canções de This Is The Kit e mesmo que não se encontre uma resposta para elas, deixam-nos melhor do que estávamos quando as começámos a ouvir. Se isso não é uma coisa boa, não sei o que poderá ser. A fechar, «Bashed Out», é dedicada a Manuel, técnico de palco que concertou a guitarra partida de Stables.

Os Lambchop surgem no palco Super Bock numa versão muito simplificada. Kurt Wagner está acompanhado apenas por um elemento ao piano. O boné está sempre presente e a camisa branca que usa, fá-lo brilhar em palco, literalmente falando. Um concerto delicado e bonito e que seria perfeito numa sala pequena.

Pese embora o mui bem recebido álbum de estreia as The Last Dinner Party são claramente beneficiadas pela multidão que aguarda a Lana Del Rey. O álbum “Prelude to Ecstasy” é um conjunto de potenciais singles, repletos de refrães orelhudos, perfeitos para um festival, juntando-se a isso 5 raparigas irreverentes em palco e com vozes quase angelicais. Um cover de «Wicked Game» de Chris Isaac teve o efeito pretendido e converteu os poucos que faltavam. O resultado é muita pipoca, porque na prática pouco se retém. É um momento que muitos poderão considerar bem passado, mas que uma vez para trás, aí fica, o que não impediu para um final de concerto verdadeiramente festivo ao som de «My Lady of Mercy» e «Nothing Matters».

No Plenitude, os Tropical Fuck Storm mostram mais uma vez que a Austrália é um poço de surpresas. É mais um capítulo na já longa relação entre o Primavera Sound e bandas provenientes de muito perto dos nossos antípodas. Os Tropical Fuck Storm mostram o seu rock de momentos anárquico nas estruturas, nos ritmos e na forma como as guitarras e o baixo se atropelam propositadamente. Há distorção constante porque a intenção não é ficarmos confortáveis. A espaços surge um teclado que injecta ainda mais imprevisibilidade na canção. São rock na música que debitam e punks na atitude com que o fazem. Reflectem na perfeição o seu nome nas canções. E a t-shirt da Bunny Tsukino, a.k.a. Sailor Moon, que Gareth Liddiard usa ganhou.

Com alguns minutos de atraso, a espera de muitos por Lana Del Rey chega ao fim. Está tudo pensado ao milímetro, mas ao contrário do que Mitski e PJ Harvey fizeram, aqui a atenção dispersa-se facilmente. O pop aqui procura ser pomposo e vistoso, sob um véu de nostalgia. A prestação vocal é imaculada – quiçá pontualmente até demais – e todas as canções são cantadas em uníssono.

Pese embora o cariz pessoal que a próxima afirmação tem, não deixa de ter o seu quê de verdade. Uma espectáculo pop como o de Lana Del Rey perde pela falta de espontaneidade, e a descida ensaiada junto público acaba por ser a excepção que confirma a regra. Sacrifica-se pela entrega perfeita que almeja e que na realidade consegue. É inegável e responde aos desejos da esmagadora maioria.

Há todo uma aura retro na estética que Lana Del Rey, abraça em pleno, na forma cimo se veste, como se penteia ou pelas imagens que desfilam no ecrã de fundo. Fica a sensação de vivermos num verão californiano eterno. O alinhamento percorre a já vasta discografia de Lana Del Rey, optando por versões mais curtas de algumas das canções, como é o caso de «Without You», que abre o concerto, ou de «Ride» e «Arcadia». Há também espaço para um cover dos Sublime, «Doin’ Time».

À imagem do concerto de Março no Belém Soundcheck, Tirzah tem uma relação muito particular com a luz. A presença deste elemento é mantida em níveis mínimos, se bem que aqui acaba sempre por existir mais luz. Na sua voz suavemente rouca, Tirzah procura uma abordagem diferente, mais suja na forma de apresentar as canções e na forma como são feitas as transições entre elas, mas se deixarmos, as canções entranham-se. Há algo etéreo e depois há uma batida que surge da escuridão, que uma observação mais atenta revela a presença essencial de Coby Sei, a controlar os beats, os samples e a criá-los igualmente ali.


Leiam aqui a reportagem do primeiro e do terceiro dia de festival.



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