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Primavera Sound Porto 2024 | Dia 1 (06.06.2024)

Foi a noite de Polly Jean, mas Mitski esteve muito perto.

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Texto por Miguel Barba e fotografia por Graziela Costa.

A voz de Royel Maddel faz lembrar Car Seat Headrest e o som é o que se pede para um final de tarde com um sol cada vez mais tímido. Deliberadamente ou não é fácil reconhecer semelhanças com os MGMT e também há um je ne sais quoi de Tame Impala aqui e ali. Procura-se uma identidade, enquanto se lida com aquela urgência pop/punk potenciada pela tenra idade do conjunto australiano. A fechar surge o mui celebrado cover do ressuscitado «Murder on the Dancefloor» de Sophie Ellis-Baxter.

O Palco Super Bock é especial. É acolhedor num espaço algo esguio, entre um acolhedor arvoredo e por ali acontecem muitos e bons momentos. É a par do actual Vodafone o palco que resiste desde a primeira edição do Primavera Sound no Parque da Cidade. Saudosismo à parte, agora a música é logo outra. Aqui a personalidade que os Royel Otis ainda não têm aqui há rodos. Os Blonde Redhead são sempre desafiadores e com um espaço próprio, muito alavancado pela presença magnética de Kazu Makino, mesmo quando escondida sob a pala de um boné. As canções, sempre etéreas, evoluem para um crescendo e uma tensão latente que nem sempre é resolvida, mesmo em tom provocatório. A neblina, fruto das poeiras que teimam em pairar, assenta que nem uma luva e estabelece o cenário perfeito. A sequência final do concerto, com «Spring and By Summer Fall», «23» e «Kiss Her Kiss Her» mergulha-nos naquele transe tão característico do Primavera, em que o corpo se deixa levar, agitando-se suavemente de um lado para o outro, desta feita rendido ao post-punk e a uma imagem de fundo que esteve presente desde o início e perfeita para a ocasião: o morango sobre um fundo violeta.

Uma banda com uma vocalista com a presença e carisma e um crítico de leite (sim é verdade), nunca pode ser ignorada. Punk e Rock. São os Amyl and the Sniffers, sem merdas e que não têm a pretensão em ser mais do que mostram em palco. O ritmo é elevado, do princípio ao fim. Umas vezes num registo quase de spoken word outras a cantar. O tempo é curto e há que tirar o máximo partido. Mesmo assim é suficiente para a mensagem a apelar mais tolerância e menos para quem não a tem com os outros. E a Palestina, sempre presente ao longo do festival.

Há uma dinâmica de públicos em frente ao palco Porto.. Este duplo ponto final fica ridículo, mas por uma questão de rigor, é o que é… Há muita gente para Polly Jean, mas também os há já para SZA. O Palco não convence também. O espaço é estranho. Não é melhor que o anfiteatro natural em frente ao palco Vodafone. Queixamo-nos e lidamos.

PJ Harvey faz uma entrada incrível. Olhando-nos de frente, arranca com o mais recente “I Inside the Old Year Dying”. Há um controlo cénico absoluto: nos gestos, na luz que a ilumina e depois na voz. Somos discípulos enquanto escutamos este trio de canções composto por «Prayer at the Gate», «The Nether-Edge» e «I Inside the Old Year Dying».

Em «The Glorious Land» ouvimos a corneta a anunciar a beleza do que aí vem, mesmo com um pequeno contratempo na guitarra. Os elementos são invocados, e ela está no seu elemento.  A auto-harpa surge em «Let England Shake» e «The Words That Maketh Murder» soam incríveis e fazem-nos olhar para PJ como uma divindade pagã. Avançamos mesmo com a guitarra a não querer colaborar momentaneamente para «A Child’s Question, August». Ao fundo a imagem é de uma parede com a tinta a estalar em tons alaranjados ou será lava. É o tempo que passa ou o tempo em suspenso?

O tema título do mais recente álbum, com uma abordagem distinta na lírica e mesmo na forma de colocar a voz, assumido pela própria PJ Harvey, sempre em busca de áreas menos confortáveis mas não menos desafiantes. Em «Send His Love to Me» temos John Parish a encarregar-se brilhantemente da guitarra acústica que, juntamente com o violino, para nos oferecerem um harmonioso hino folk.

«50ft Queenie» ressuscita a veia rock. É um exorcismo, uma provocação um portento de interpretação. A luz branca vai dando lugar a cores mais quentes. A forma como PJ Harvey se desloca em palco valeria a nossa presença por si só. Toda ela canta; a sua voz prolonga-se até à ponta dos dedos, que ora se esticam, ora entrelaçam. «Angelene» mergulha-nos numa introspecção e «The Garden» é old school, terminando com Polly Jean a sentar-se à secretária e a pegar na caneta. Um mais um frame do filme que se vem desenrolando diante de nos olhos.

«The Desperate Kingdom of Love» é interpretada apenas com a guitarra acústica. «Man-size» arranca apenas à guitarra para depois ganhar músculo quando a banda se junto, tornando-se unos. Por esta altura não há imagens projectadas, há apenas uma banda em palco, a enchê-lo e a partilhar o momento plenamente com quem ali está. Sem extras ou qualquer outro subterfúgio de produção. É a essência daquilo que um concerto deve de ser.

«Down By the Water» foi o momento de êxtase que se esperava. Para fechar, após apresentar a banda, fica «To Bring You My Love». No final houve uma longa e merecidíssima ovação. Foi enorme. Inolvidável.

Imaginem um actor de método. Mitski é assim em palco; abraça a sua persona artística de forma verdadeira intensa. É uma performance completa. A banda que a acompanha está disposta em seu redor. O centro do palco é seu. Até há um palco mais pequeno no meio, dúvidas houvesse.

«I Bet on Losing Dogs» é entoada em uníssono, com s vozes do público em frente ao palco a serem apanhadas e projetadas pelos microfones da frente de palco. As canções de Mitski têm uma estrutura muito própria e nem sempre seguem a direção mais óbvia. Em cima da cadeira num equilíbrio frágil, escutamos Mitski cantar «First Love / Late Spring» e  percebe-se porquê. Por vezes a vida é isto… um equilíbrio periclitante constante.

É possível dançar com um foco de luz da forma mais dedicada possível. Mitski mostrou-nos. Uma descrição da performance que Mitski nos oferece não faz – nem de perto – jus ao que se vê em cima do palco Vodafone. Memorável e belo. Ora parece que estamos a partilhar um sonho, ora parece que somos submersos num ambiente de cabaret ou num baile country numa América profunda saída do imaginário de Mitski. Uma montanha-russa de emoções.

«Bug Like an Angel» arrepia pela sua simplicidade e «Fireworks» surge já perto do fim, mesmo antes do remate final intenso com «Nobody» e «Washing Machine Heart». Magnífico!

SZA mobilizou a faixa etária mais baixa presente no festival. Um palco a evidenciar uma produção sumptuosa, com bailarinos e todo um cenário, onde navega pela soul e R&B mas não acrescenta nada de novo ou particularmente inovador, fazendo-se valer de uma boa voz e presença em palco, e não se coibindo de resgatar elementos pop e até pop-punk. O resto, a audiência sedenta assegurou, mas o recheio é escasso, embora vistoso. A verdade é que antes tínhamos presenciado os concertos magníficos de PJ Harvey e Mitski.

É perante menos gente que Anda Frango Elétrico sobre ao prático Vodafone. Após SZA a debandada acentuou-se. «Coisa Maluca» apresenta Ana ao público do Norte. «Tem Certeza?» surge deliciosamente funkizada. Segue-se «Dela». O convite é para dançar com o tropicalismo sempre presente, mas com uma camada de electrónica energicamente aplicada por cima.

«Camelo Azul», quase em jeito de blues e perante uma plateia com clareiras, mas que vai ficando mais composta, aconchega e «Insista em Mim» é motivação contra o cansaço que se vai apoderando dos nossos corpos, e que vamos procurando contrariar, canção, após canção num concerto que apenas pecou pela hora tardia.

 

Leiam aqui a reportagem do segundo e do terceiro dia de festival.



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