rdb_trintaum_header

Quinze anos de Trintaeum

Entrevista com Rui Trintaeum, dono do melhor local nocturno no Porto aonde nunca foste.

Hoje em dia o Trintaeum é, para o bem ou para o mal, a dica secreta do Porto. Longe do burburinho da Baixa, o estabelecimento terá certamente ao longo dos seus recém-celebrados quinze anos desempenhado outros papéis – mas a nossa relação com o Trintaeum ao menos é consequência de muitas noites de desespero a tentar encontrar algo no Porto que se assemelhasse ao que consumimos actualmente em blogs, fóruns e podcasts. Termos encontrado foi uma questão de sorte – apenas nos apercebemos que havia ali algo digno de investigar devido a coincidências cósmicas tipo o Francisco encontrar um flyer avulso para uma festa dos House Of House ou o Daniel encontrar o lugar na net googlando os seus artistas favoritos + Porto.

Não morre por excesso de hype este lugar na Foz que, discretamente, tem trazido para a Invicta artistas como Mark E, Rub & Tug, Tensnake, Nitedog, Todd Terje, Lindstrom, Greg Wilson e o lendário Carl Craig. E de certa forma isso faz parte do charme de um lugar com atmosfera de sala-de-estar (trazendo à mente o mítico Loft); o papel de parede, a mesa de DJ “improvisada”, as palmeiras e o rio visíveis pelas janelas. Uma pessoa sente-se em boas mãos – mesmo nas noites sem atracções internacionais. De resto, os DJs residentes contribuem muito para a qualidade do Trintaeum, das orgias record geek da noite DiscCovers com Chico Ferrão até ao jacking das sessões Are You Re-Edit, com a presença do (internacionalmente aclamado, localmente ainda subestimado) Social Disco Club. O Trintaeum ocupa-se sistematicamente de dar lugar a estilos de música que, por alguma razão, padecem de exposição por entre o ruído e os copos da noite portuense actual. True heads recognize.

Começamos com a pergunta típica. Como começou o Trintaeum?

Rui Trintaeum – Começou com o facto de eu voltar a querer ter um bar. Iniciei-me muito novo nestas actividades: durante a minha juventude, conjuntamente com dois dos meus melhores amigos, a fazer festas. Chamavamos à nossa associação “ficha tripla”, era uma risota.  Anos depois, fui viver com uma pessoa, precisava de trabalho e virei-me para a noite a ver se alguém me dava trabalho. Fui convidado para ser DJ, podendo assim dizer que iniciei esta actividade de uma forma acidental.

Quando surgiu oportunidade de abrir um bar, avancei conjuntamente com uma pessoa. Era um espaço perto de minha casa, chamado  “Loco Mosquito”, onde para além de ser o dono do bar, punha música. Deixei estas andanças por uns anos largos, fui trabalhar com o meu pai, mas senti vontade de voltar a esta actividade. Procurei um espaço, encontrei aquele e iniciei o Trintaeum.  De facto esta é uma ocupação para a qual me sinto vocacionado, ou não tivesse começado nela aos 14 anos.

Existia alguma ideia de passar música diferente daquela que se estava a passar no Porto?

Claramente. Se não houvesse música nesta actividade, eu não estava nela. Penso que isto já diz tudo. A música foi, sem dúvida e desde sempre, o pilar central do Trintaeum.

Que tipo de sonoridades era possível escutar na altura em que o Trintaeum abriu?

Na época dava-se o boom do Acid Jazz, algo que estamos a recuperar actualmente nas noites Ácido Base do João Bruschy e do Rui Pimenta.  Era um estilo musical que conseguia chegar às pessoas, mesmo às menos conhecedoras de música,  graças à sua energia e acessibilidade . Havia também algo de Easy Listening e, claro, de House e Disco, tendo partido daí a sua progressão. O Trintaeum sempre esteve balizado num determinado espectro musical, mas em evolução permanente.

Qual o enquadramento do Trintaeum  dentro do actual contexto da noite do Porto?

Pronto, falarei por causa própria, mas continua ser  o único espaço no Porto com uma proposta músical coerente e com nível global.  Quem gostar de música se for ao Trintaeum já sabe que nunca será mal recebido. Há outros espaços a fazer coisas interessantes, como por exemplo o Gare, mas dentro de um espectro alargado, com coisas muito distintas.

Sabemos que há um conceito por detrás do espaço do Trintaeum…

Sim há. A música influi em nós. Na nossa maneira de vestir, de estar, de pensar. O Trintaeum tem um good vibe, que influi também no público.

O Trintaeum pretende ser uma grande sala de estar. É uma casa, com papel de parede e tecto baixo. Não tem segurança, nem precisa, já que nunca houve nada de conflituoso nem de problemático. A pista de dança tem um ar propositadamente improvisado, com tripés e fios à mostra, para transmitir um lado underground e intimista, que possa aproximar muito mais as pessoas, para que a música se possa desenrolar e atingir as pessoas. Isto é recebido pelos artistas, que enfatizam estes pequenos detalhes. Por exemplo nesta última noite de Carl Craig, sei que ele ia completamente rendido a uma boa festa, depois de horas a fio a por música. O (Rui) Vargas teve lá noites fantásticas. No aniversário dos 9 anos da sua residência mandou-me uma mensagem “Melhor noite do ano para mim”. É muito gratificante, artistas que estão aqui hoje e que amanha estão pela Europa, Austrália, Japão, terem uma grande vontade de voltar ao Trintaeum.

De onde vem o nome Trintaeum?

Não estamos longe. Vivo numa zona de prédios, cada um com um número. Havia mais do que um Rui nessa zona, sendo que eu era o Rui do nº31. Paralelamente, e como quando era novo tinha muita energia, … aquela coisa do 31 “troublemaker”… foi tudo evoluindo… Depois tive uma banda de Post-Punk, Culto da Ira , onde era baixista e assumi Rui 31 como nome artístico. Quando quis abrir o bar, precisava de um nome e naturalmente pedi sugestões aos meus amigos mais próximos, que disseram “põe 31, toda a gente te conhece como 31”. Como quando abri o Trintaeum era muito diferente do Rui 31 dos Culto da Ira, criei a palavra “trintaeum” toda por extenso. E não estou nada arrependido, ficou aqui o meu nickname “forever”.

Quando fomos ao site do Trintaeum, vimos um comentário de há um ano atrás, de um internauta que perguntava “Então o Trintaeum vai fechar?”

Não, o Trintaeum sofreu alguma deslocalização. A música não tem sido valorizada. Eu não posso medir o Trintaeum pela noite de Carl Craig. Eu tenho de o medir por um risco feito entre a noite de Carl Craig, a de Social Disco Club, a minha, e a dos outros residentes que por lá passam. Financeiramente, é esse risco que aparece no final do mês.

Houve uma altura em que o Trintaeum esteve na iminência de desaparecer daquele espaço, mas a venda que estava combinada não se efectuou, e eu, como se diz em bom português, fiquei com o menino ao colo. E lá o vou, da melhor maneira possível, levando. O futuro se verá…

O Trintaeum apresenta uma forte aposta nos artistas internacionais…

Vamos cá ver. 15 anos é uma evolução. Comecei como DJ residente, punha uns discos a rodar à semana, fui evoluindo, fui tendo, para além dos residentes, uns convidados. Dos nacionais, passei para os internacionais. E pronto, ninguém gosta de andar para trás não é?  O Trintaeum nunca teve a ideia de assentar apenas nos internacionais. Ainda que estes sejam a cereja no topo do bolo, tenho um a dois convidados internacionais por mês. Raramente tenho mais. Por vezes acontece, ter um artista cá em Portugal por algum motivo e apanhá-lo para um DJ set. Por exemplo, ainda este mês o Nitedog estava cá a comprar sapatos (ele trabalha no ramo), e o Social Disco Club convidou-o a trazer discos e a por música com ele. De resto o Trintaeum tem muitos residentes aqui do Porto. Não tenho mais artistas locais porque sei que não tenho público para os ver. Convidar pessoas a vir por música e não ter retorno financeiro nem reconhecimento do público não tem qualquer sentido.

Na lista de residências do Trintaeum  deparamos com uma abordagem diversificada mas dentro de uma linha específica. Porquê os DJs residentes que acolhe?

A ideia sempre foi ter no Trintaeum, aqueles que a meu ver eram melhores DJs. Também ao mesmo tempo procurou-se desenvolver a cena local, dando espaço a novos artistas.

Há sempre alguém a fazer coisas novas, se eu vir que consigo mete-los, eu meto-os. Tudo isto tem de ser adaptada à realidade. Nos últimos tempos, as coisas não são o que foram. Tenho os Sábados cobertos por residências.  Tudo gente óptima, e música óptima. mas a criar uma noite mais acessível. Estando o Trintaeum isolado, o público que resta é a população residente na zona, tratando-se esta de uma fatia etária um pouco mais velha. Neste momento temos ao Sábado as residências Ácido Base que já referi, as Saturday Night Fever, com o (Pedro) Tenreiro e o Vicente Abreu. O Tenreiro teve durante muitos anos no Trintaeum uma noite Disco, de nome Dancin Days. No entanto por muito boa que esta fosse (e era maravilhosa), não tinha resposta do público, tendo-se então criado uma coisa mais acessível. Onde antes se tocavam discos obscuros e raridades do Disco, toca-se agora Chic. Temos também a noite do Chico Ferrão, a DisCovers, uma noite inteira dedicada às versões, música obscura “embrulhada” em melodias conhecidas, para conseguir chegar ao público.  E temos a festa Brasil, da Joana Blu, com música brasileira boa, algo que não existia no Porto, e que tem boa resposta.

Às sextas feiras é que temos Vargas, Social Disco Club, Sicrano e Beltrano, sonoridades mais voltadas para o House.

Social Disco Club é o artista nacional mais High Profile nacional que tem passado no Trintaeum nos últimos anos, e é um nome que se encontra associado na consciência pública a este club. Como começou a relação do Trintaeum com o SDC?

Sem dúvida. Eu e o Humberto conhecemo-nos através do MySpace. Não o conhecia, nunca tinha ouvido falar dele sequer. Percebi imediatamente que o projecto do Humberto era algo de sólido, e por isso mesmo interessante. Comunicámos, ele veio pôr música comigo, gostei, veio fazer uma noite sozinho, gostei, e convidei-o para ser residente. Sem dúvida foi uma aposta mais do que ganha porque é inquestionável que o Humberto é um dos valores ascendentes dos últimos anos. Fico muito feliz porque ele entrou no Trintaeum quando ninguém o conhecia, nem ninguém lhe tinha sequer dado espaço para ter uma residência conforme veio aqui a acontecer . Mas também acho que seria o sítio ideal para ele. Ainda assim afirmo e lamento que não tenha tido em termos de público, no Porto, a resposta que merecia, porque ele é sem dúvida um grande DJ, ao nível de qualquer um dos internacionais que nos visitam.

Mas porque é que achas que não há maior resposta, há alguma razão?

Eu tento perceber isso, acho pouco compreensível, enfim, acho que neste momento no Porto não há cultura de música, não há gente para música. Ou há um hype qualquer e então aí aparece-te bastante gente ou então não aparece ninguém. Entramos nos extremos. Já falei com o Rui Vargas, já lhe disse claramente isto… O Rui Vargas é uma pessoa que enche o Trintaeum. É o valor para mim mais seguro, mais do que a maioria dos artistas estrangeiros que eu convido. Acho triste. O Vargas é sem dúvida o número um, um grande DJ, faz uma noite maravilhosa no Trintaeum, mas não existe aqui um número dois. Ou seja, se o Vargas traz, suponhamos, umas trezentas pessoas, não há um que traga cento e cinquenta, nem cem, nem cinquenta! A seguir há um fosso enorme e não há ninguém! E há óptimos DJs9, não só o Humberto, mas também, por exemplo, o Tiago Miranda  e o Tozé Diogo, que já lá estiveram, e de quem gosto muito. Tenho pena de não os ter lá mais vezes. Mas há mais nomes por aí, de pessoas que por lá passaram, deixaram saudades e eu gostava de os repetir. Não repito porque não tenho hipótese.

Foram 15 anos, é muito tempo… tens alguma noite específica que possas dizer que foi a melhor noite do Trintaeum ?

Não há uma só, claro. Esta última do Carl Craig foi enormíssima, Henrik Schwarz, das duas vezes que esteve, foi brutal, foi fantástico. Gilles Peterson, a primeira vez que lá foi, em 2001, com o apoio do Porto 2001. Ele adorou, aliás ele citou-nos no fim do ano, nos “mais” do Gilles Peterson Worldwide: o programa dele era transmitido pela Voxx, na altura o meu pai estava doente e eu estava lá no hospital a fazer-lhe companhia. Liguei o rádio e começa o programa com um disco do Tenreiro (que é óbvio que quando o Giles esteve cá o meu carro era só discos dos gajos de cá, logo a “cilindrá-lo”), e a seguir disse duas coisas, disse que tinha estado em Portugal, falou no Trintaeum, mandou um abraço para mim, para a Cristina, para o Tenreiro, isto worldwide! Fiquei a olhar para o rádio: “Huh? O que é isto?” Mas isto para tu veres a enormidade da noite. Outra noite muito boa, incrível, foi o Rainer Truby. E Peter Kruder, que encontrei dois anos depois no Lux e fui ter com ele à cabine, dei-lhe um toque, ele olhou no meio do escuro, eu perguntei-lhe “Remember me?” e ele respondeu “Of course!” E perguntei-lhe: “Remember trintaeum?” E ele respondeu: “Of course man, it was legendary!” Pá, estas coisas é óbvio que vão comigo, isto são coisas que nunca mais se esquecem. Tive depois muitas outras noites boas.

Finalmente, o que é que há no futuro do Trintaeum? Já foi anunciado que vem aí o Theo Parrish…

O Theo Parrish, já ando atrás dele para aí há cinco anos. Tive datas marcadas no último ano para aí duas vezes, que depois não se vieram a confirmar. Para mim completa a triologia Detroit: Carl Craig, Moodymann e Theo Parrish. Eu acho que já posso dormir descansado. Se querem que vos diga já posso fechar o Trintaeum e ir embora, o meu trabalho está feito e a partir daqui já não tenho muito mais para fazer ali.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This