Real Estate | “Atlas”

Real Estate | “Atlas”

Para tardes chuvosas e tardes solarengas

Três anos é demasiado tempo, particularmente na expectativa de um novo trabalho; foi, no entanto, uma espera infrutífera para quem aguardava uma dissociação plausível de “Days”. De facto, é forçosa uma comparação enraizada pelas origens do processo criativo dos Real Estate – de modo a compreender a evolução de que adveio “Atlas”, aguardemos também uns minutos -, contrastando a análise a priori do que poderia ser, após a edição de «Talking Backwards», esse mar de estio embebido num devaneio complacente, com a que realmente se verificou. Ora, nesse enredo, jamais uma crítica ou qualquer tipo de review seria imune e inocente a estas investidas contextuais, portanto.

Esta reiteração de percurso adivinhava-se correctamente. A prepotência que “Days” possui na construção do que é os Real Estate, sinuoso entre um jangled pop, tão devasso quanto formal, e um surf rock igualmente inócuo, seria uma premissa inexorável na constituição do novo álbum; porém, que se ouçam ambos seguidos e a acepção maximalista – que antes não era distinta – do segundo récord é acentuada em confronto. Não é calvário que se lhe atribua, não – DIIV parece ter bebido do mesmo licor -, mas é verosímil o reconhecimento de texturas mais aveludadas, duma voluptuosidade impúbere que não se perde em pretensiosismos.

E é sempre tão espontâneo, tão doce, tão tolerante. Os meandros do tenor delicado de Courtney são os logros das cordas que se envolvem e vice-versa, formando-se a sensação indelével de que tudo está no sítio certo, no momento certo, ou não fosse todo o trabalho uma contemplação solipsista da infância e do tempo e da solidão, onde “I don’t want die \ lonely and uptight”, de «Crime», marca o fulgor do álbum, uma brisa de verão, uma catarse e excomungação de umas quantas questões inerentes à vivência de cada um. – O ambiente subúrbio de Arcade Fire, numa referência extrema, é transposto para um pôr-do-sol adormecido no deleite de um dia ameno, compare-se; não há noite em Real Estate.

Por outro lado, a aparente elipse destes temas e composições é interrompida intermitentemente pela reinventação de cada um deles, acrescentado a qualquer coisa nova, a qualquer pedaço de memória que torna “Atlas”, ainda que não surpreendente, sisudamente fresco; sisudez genuína que expulsa volatilidade e infantilidade, inconformadamente resignada à recordação pelo reverb acentuado que, se em “Psychocandy” dos The Jesus and Mary Chain, adivinhava uma sensação de vazio, aqui é frondoso através de palavras indulgentes.

“I’m out again on my own” adivinha, em «Had To Hear», em segunda audição, uma questionável identificação de Courtney no agora, num esforço estóico de aceitação: é, enfim, uma característica que se vai desenhando através de «Past Lives» ou «Talking Backwards», esse reconhecimento in loco que intersecta o passado e o presente, em meia dúzia de acordes e inflexões vocais, melodias embaraçadas. Surge, assim, uma aparência dreamy, uma sensação etérea nos 40 minutos do álbum, figurando em «Horizon» o rigor do termo formal.

Que “Atlas” não reclame uma concepção avantgard ou um experimentalismo que seria ou não bem visto, aos seus malogros os seus êxitos, é, acima de tudo, uma embriaguez de honestidade e humildade, um logro melancólico para tardes chuvosas ou tardes solarengas. Porque, afinal, quer se revejam nos riffs catchys ou na envolvência que pintam, os Real Estate são singelos no que compõem, e a simplicidade com que motivos de clamor existencial são cantados descobre a fluência contemplativa esculpida em Courtney, ou Mondanile, ou, acima de tudo, no ouvinte; são artistas e não intelectuais. E «Navigator» despede-se, num aceno resignado.



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