Rufus Wainwright | “Out Of The Game”

Rufus Wainwright | “Out Of The Game”

Menino crescido

Convencionalmente, o crítico de música escreve com uma perspectiva omnisciente. Admitir que não se ouviu algum álbum é visto como uma fraqueza, uma oportunidade para desacreditar a opinião – “quem é este tipo que me vem falar do novo álbum de artista x se não ouviu a sua discografia inteira primeiro?” Mas esta postura de ter ouvido tudo é, obviamente, uma ilusão, e a opinião de um novato não tem de ser menos credível do que a de um perito – o importante é ter jeito para a coisa. Mas poderá ser importante para o leitor saber com qual dos dois está a lidar.

Isto para dizer que até sou bastante fã de Rufus Wainwright, e segui a sua carreira assiduamente entre 1999 e 2007. Depois perdi contacto com o artista, em parte porque o último álbum que ouvi (o disco ao vivo de interpretações de Judy Garland) parecia um final tão perfeito para a sua narrativa, e em parte apenas pela distracção que atacou tantos nestes anos de demasiada-música-a-sair-demasiado-rápido. Uma pessoa perde contacto, mesmo com os amigos mais próximos.

“Out Of The Game” é então a minha reintrodução. O facto de ter ficado rapidamente ciente da sua existência, e não dos últimos dois, terá certamente algo a ver com o envolvimento de Mark Ronson, uma personagem mais presente no – ahem – zeitgeist contemporâneo do que Rufus. E a ideia de um disco Soul feito por Ronson e Wainwright tem os seus encantos. Não foi o que aconteceu em “Out Of The Game”, importa frisar – a sonoridade é retro, sim, mas a ligação à música negra limita-se a alguns coros com toque de R&B.

O verdadeiro compasso para o álbum, como foi notado por Oliver Wang, entre outros, é o Classic Rock dos anos 70: Fleetwood Mac, Electric Light Orchestra, a pompa e circunstância dos Beatles por altura do “Abbey Road” e a carreira posterior do Paul McCartney. Brilho e sumptousidade, um fundo perfeito para os apetites do cantautor. Os heróis secretos deste disco são os licks de guitarra que vão povoando “Out Of The Game”, gritando “1972!”.

Enquanto isso, Rufus canta de forma mais directa e sincera do que alguma vez o ouvi antes. Muitas das letras são apelos, cartas, recados – umas tantas até vêm com nome no título. Fala-se do amadurecer, com a ironia que conhecemos: a canção «Out Of The Game» vive daquele sentimento de escândalo que surge quando vemos pessoas mais jovens que nós a fazer as figuras que já esquecemos que nós costumavamos fazer. «Montauk» é sobre a mortalidade, e mais levemente sobre a forma como a idade nos força a sermos embaraçosos e enternecedores: “one day you will come to Montauk/and you will see your dad/wearing a kimono/and see your other dad/pruning roses/hope you won’t turn around and go”.

Ainda há espaço para a opacidade de outros tempos – «Perfect Man», por exemplo, demonstra a espirituosidade old school de um Coel Porter ou de um Noel Coward em linhas como “after another production/of ‘The Flying Dutchman’/I landed in Berlin/thinking “over it, over it/how can I get over it’/and wonder what state I’m in”. Mas no seu todo, “Out Of The Game” é mais caloroso, mais pessoal do que o que me lembrava da obra anterior de Wainwright. É bom quando velhos amigos nos recebem assim.



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