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“Sangue”, a partir de Titus Andronicus

Quando todos queremos vingar um dos nossos.

Titus Andronicus, general romano, regressa vitorioso à sua pátria quando esta se encontra de trono vazio. Os filhos do falecido imperador, Saturninus e Bassianus, disputam o pódio. Mas enquanto tal rivalidade poderia ser resolvida com um só derramamento de sangue, a intriga dá origem a um espectáculo de vinganças negro e macabro, em que nenhum par de mãos acaba limpo. A peça original foi considerada a obra mais gráfica e violenta de Shakespeare, assim como uma das mais polémicas. E embora nenhuma arma seja empunhada em palco, não é necessário que as nossas mentes viajem para que se sinta o Sangue – como David Pereira Bastos baptizou este projecto.

O cenário assemelha-se a um pátio de liceu. Uma tabela de basquetebol, algumas bancadas e uns quantos instrumentos de percussão, como se uma banda ali se reunisse enquanto uns vão jogando e outros assistindo. O jogo transforma-se em batalha, a roupa dita as personagens, e a banda sonora, a cargo do grupo Slap – Hand to Hand, exprime as vitórias, as derrotas e as mortes. Mas, de forma ainda mais exímia, preenche os momentos de suspense com uma ainda maior tensão.

O desporto consegue, muitas vezes, pôr-nos em contacto com um lado mais primitivo, de instintos e anseios básicos – quem é o mais forte, o mais rápido, o mais ágil… quem ganha e quem perde. Nesse sentido, o uso do basquetebol como meio de expressão torna-se uma mais-valia na criação de uma história que tem por base a natureza humana mais primária e animal. A percussão apela a isso mesmo, e certas cenas, entre sons e jogos de luz, transmitem-nos imagens que poderiam pertencer tanto a uma claque como a uma tribo antiga. Mas a presença do elemento desportivo pode, às vezes, tornar-se demais, sendo demasiado literário e criando ligações confusas e desnecessárias.

Os actores desdobram-se entre diálogos e narrativas, captando a imagem de um mundo em que a violência faz parte do dia-a-dia. Há uma crueldade fria nos confrontos e cortejos, e as mortes recaem ou sobre a violência, ou sobre a mudez. A maior crítica que se pode fazer é o facto de, por vezes, a acção ser confusa, algumas cenas pouco acutilantes e, entre rápidas narrativas, se perder uma parte da história. Mas entre algumas arestas para limar, esta peça ambiciosa joga bem com a realidade romana e com a sanguinária discussão que Titus e seus contemporâneos trouxeram aos palcos.

 

Sangue a partir de Titus Andronicus de Shakespeare
David Pereira Bastos
Coprodução mm
Teatro Maria Matos
quinta 23 a domingo 26 fevereiro 21h30

Sala principal
12€ / Com desconto 6€ | M/16



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