Sara Cruz | Entrevista
À conversa com Sara Cruz que, em Outubro de 2024, lançou o seu primeiro álbum, “Fourteen Forty-Five”.
“Fourteen Forty-Five” é o título que dá nome ao primeiro álbum da cantautora Sara Cruz. São dez canções em inglês que se revelam numa identidade muito própria, e a partir da qual a polidez da voz da artista se sobressai. São dez canções que, da urgência quase febril que as emoções impendem, se tornam pertença e calmaria. “Fourteen Forty-Five” parte de um sentido numérico para que, pelo caminho, encontremos um rumo afectivo. E que bom é que assim seja.
O disco está disponível em formato vinil e nas várias plataformas digitais. O próximo concerto está marcado para dia 14 de Fevereiro, sexta-feira, no Estúdio Time Out, pelas 21h30, no âmbito do Festival Montepio às Vezes o Amor.
Obrigada por este oceano de ternura, Sara. Sem artifícios e sem malabarismos, é, efectivamente, um álbum que nos desperta para a sensibilidade.
Boas escutas deste maravilhoso “Fourteen Forty-Five”!
Rua de Baixo (RDB): Lançaste em Outubro passado o teu primeiro álbum, Fourteen Forty-Five, como foi/está a ser esse processo? Queres falar um pouco sobre a construção deste álbum? O porquê do título? Como tem sido esta viagem?
Sara Cruz: Eu já queria ter lançado um álbum desde que comecei a fazer música, sempre foi assim um grande objectivo. É um processo longo, no qual surgem muitas dúvidas, medos, inseguranças…. e, até, é um processo que consegue ser um bocado complexo, mas a verdade é que eu tive a sorte de fazê-lo rodeada de pessoas que eu adoro. São pessoas que entraram no barco comigo e disseram bora fazer acontecer. O meu grande braço direito foi o Cristóvam, que é quem produziu o disco, um cantor e compositor também açoriano… só que ele é da Ilha Terceira e eu sou de São Miguel. E então, grande parte do disco foi gravado e produzido na Terceira, também gravámos aqui em Lisboa, e uns pedacinhos também em São Miguel. Decidi chamá-lo de Fourteen Forty Five (1445) pois esse número fazia muito sentido na minha cabeça, é um número que tem muito significado para mim, é a distância, em quilómetros, entre Lisboa e Ponta Delgada, que é onde eu nasci e onde eu vivi a maior parte da minha vida. E, nesta fase, onde eu ando um bocado sempre cá e lá, há essa dualidade quase, achei que esse número ecoava em mim como um bom porta-estandarte do disco até.
RDB: Que urgências te assaltam com este novo álbum?
Sara Cruz: Eu acho que uma das coisas que me preocupa é a velocidade com que as coisas acontecem. Aliás, agora a grande maioria de nós artistas lança singles (três, quatro…) antes de um disco, por exemplo. Mas, sim, acho que hoje em dia é um bocado isso o que me preocupa mais… Quero lançar um álbum de dez músicas, mas será que as pessoas vão ouvi-las todas? Será que só os singles vão receber mais atenção? Mas as outras canções não são igualmente importantes? Acho que é um bocadinho aqui esta questão da rapidez com que tudo acontece, aquele medo de lançar uma música ou lançar um disco e um mês depois parece que já passou… Ainda que não tenha sentido muito que isso seja uma realidade, porque também tenho estado tão envolvida no processo que ele para mim tem tido a mesma força todos os dias.
RDB: Lançaste vários singles referentes a este último álbum (inclusive, alguns vídeos associados). Queres falar sobre algum em específico? Sobre algo que te tenha inspirado para construíres o mesmo, por exemplo…
Sara Cruz: O lançamento dos singles foi um processo um bocado intuitivo, na verdade… ou seja, eu e o Cristóvam sempre concordámos em relação às músicas que teriam potencial para… e, portanto, foi a «Plot Holes», a «Day or Two», a «The Show», a «Faithful» e a «Grass is Greener». Eu e o Cristóvam até costumávamos brincar a dizer que a Faithful e, no caso, a Wild Habit eram as primas do disco, porque eram assim um par de músicas em que a guitarra acústica não é necessariamente o elemento principal, da parte instrumental. Surgiram assim num registo sonoro um bocadinho diferente. No caso da Wild Habit, que não foi lançada como single, acaba por ser um loop, quase um mantra que faz um crescendo até ao fim e, aliás, é a música que fecha o disco, a última das dez, e que acabou por ser das minhas favoritas.
RDB: Absorves várias influências musicais nas tuas músicas, e isso é evidente neste “Fourteen Forty-Five”. Como é que isso se reflecte em ti e no processo de escrita destas canções?
Sara Cruz: Eu acho que as minhas influências acabam por vir um bocadinho cá para fora de uma forma até inconsciente. É aquilo que andamos a ouvir, ou a nossa intenção a cantar se calhar já estava um bocadinho influenciada por isso mesmo, tudo isso acaba por ser inconsciente, ou seja, não há uma tentativa de soar a algo especificamente. Pelo contrário, estou sempre a tentar fazer o exercício do isto sou eu, quero mesmo que o meu trabalho soe a mim e que eu me reveja nele, e que não seja propriamente só uma expressão de influências minhas. Estou sempre um bocado nesse caminho de encontrar a minha voz, o meu som e tudo isso, o que eu acho que, na verdade, é um caminho infinito e que eu espero, até, que nunca acabe. São estas coisas bonitas da música.
RDB: Teres nascido nos Açores marcou-te de que maneira em termos artísticos?
Sara Cruz: Eu sou muito ligada à minha terra e aos Açores e acho que é um privilégio gigante e uma grande sorte ter nascido ali. Sinto-me muito sortuda por ter tido a oportunidade de nascer e crescer num sítio tão maravilhoso e isso inevitavelmente marcou-me muito. Acima de tudo, eu acho que pelo tempo que eu tinha para explorar a minha criatividade. Quando era miúda, eu passava imenso tempo sozinha, no quintal, a fazer não sei o quê, cantava, brincava com os cães, andava de um lado para o outro assim num nível de imersão muito grande. Eu acho que isso me ajudou muito. E apesar da influência da minha família que já estava muito ligada à música, eu sinto que o facto de ter nascido na ilha me permitiu ter tempo para olhar mais para dentro e para o que sentia, para pegar na guitarra e ficar horas à volta disso…
RDB: Como foi descobrires-te enquanto a cantautora e a artista que és?
Sara Cruz: Eu acho que ainda estou a descobrir, sabes? Eu acho que é uma liberdade enorme não estarmos presos ao que mostramos à partida; claro que há sempre aquela pressão, mas eu acho muito libertador pensar que não “há regras” e que o meu próximo disco pode ser um disco de outra coisa qualquer. Então acho que esse processo de descoberta nunca acaba, mesmo da minha voz e da minha forma de cantar, sabes? Por isso também fico curiosa para saber como vou soar daqui a 5 ou daqui a 10 anos, como é que vou olhar para os discos que lancei, é um processo curioso.
![]()
RDB: Coisas que mais gostas quando cantas as tuas músicas ao vivo?
Sara Cruz: Gosto de ver as pessoas cantar, é uma sensação maravilhosa. Cria-se mesmo uma sinergia muito bonita e faz tudo aquilo valer muito a pena. Gosto também da sensação de partilha, quando estou a cantar a minha música no palco sinto que estou a ser vulnerável desde logo porque as minhas músicas são todas especiais para mim e sinto que quando estou a cantá-las para as pessoas é como se estivesse a ter uma conversa com amigos, numa sala, às três da manhã sobre essas coisas que me aconteceram ou me inspiraram. Um concerto para mim é sempre um momento de partilha, sem dúvida.
RDB: Como lidas com os períodos de vazio criativo? E, por outro lado, como são os períodos de fertilidade criativa? Como é que é esse processo criativo de escrever música nova, por exemplo?
Sara Cruz: Eu tive alguns momentos de bloqueio, acho que acontece com toda a gente, e sobretudo eles aparecem na pior altura, quando não dá mesmo jeito que apareçam… No processo de escrita deste álbum foi muito gratificante pois permiti-me a receber inputs de pessoas cujo trabalho eu admiro e com isso pudemos levar a música para o melhor lugar possível. E, apesar de eu ter escrito as músicas todas do disco, houve alguns contributos externos que foram essenciais. Por exemplo, na Good Thing, o refrão, com a ajuda do Cristóvam, ficou algo completamente diferente do que estava inicialmente. Gosto muito de colaborar com pessoas. Acho que escrever sozinha é um processo solitário, apesar de ser aquilo a que eu estou habituada.
RDB: Uma coisa boa e uma coisa menos boa de ser artista?
Sara Cruz: Eu acho que uma coisa menos boa é ter second thoughts, quando vem aquele monstrinho e nos faz duvidar de nós e das nossas escolhas… Acho que o mais difícil é quando a coisa está mais complicada e temos de manter o foco e a determinação e o mindset de que vai dar certo. Uma coisa boa é sempre que me meto no carro com os músicos ou com as pessoas que fazem parte do processo e vou tocar num sítio e estamos lá nesse lugar onde nunca estivemos e conhecemos as pessoas e damos o concerto e depois estamos juntos… todo esse processo de estrada é muito bonito.
RDB: O que podemos esperar com este novo álbum?
Sara Cruz: Olha, agora dia 14 de Fevereiro vou estar no Estúdio Time Out e estou super entusiasmada com esse concerto. Vai ser o primeiro concerto assim com banda inteira, vai ser bom. Em Maio também já tenho um concerto em Palmela, no Cine-Teatro São João. E estou super pronta para tocar as músicas para as pessoas, que é o que eu mais quero, tocar o disco para as pessoas e fazê-las sentir alguma coisa que eu acho que precisamos muito disso. Precisamos de música que nos faça sentir algo.
RDB: O que fica por dizer?
Sara Cruz: Olha, não sei, acho que também estou a descobrir isso. E assim também me vou preparando para ver se consigo dizer no próximo (álbum)…!
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados