Sasha Grey em entrevista

Sasha Grey

«Um dos meus objectivos principais foi sempre o de desafiar a percepção da sexualidade feminina e os estereótipos criados à volta das mulheres na pornografia.»

Sasha Grey não é a estrela porno habitual de que estamos à espera. Nem loira, nem falsa, nem com uma necessidade exagerada de dar nas vistas e impressionar os fãs com roupas caras ou objectos extravagantes. Mas também não é difícil de admitir e compreender, sem dificuldade, que Sasha Grey é muito mais do que uma estrela porno: uma rapariga extremamente elegante e de presença forte, com uma mão cheia de mensagens importantes para dar a quem estiver disposto a ouvir, sem palavras meigas nem tabus.

Um mundo escondido por detrás de máscaras imponentes e poderosas que querem, podem, e mandam, é exactamente aquilo que é aos poucos desvendado por Sasha Grey no seu primeiro livro, lançado recentemente em Portugal pela Divina Comédia (Lisboa, 2013): “Juliette Society”.

Tal e qual o seu livro, Sasha (Marina Ann Hantzis, 1988, EUA) apresenta-se carismática, maquilhada, vestindo roupas simples e pronta para responder a todas as perguntas sem arrependimentos nem meias palavras, apenas com a verdade pura e simples. A Rua de Baixo esteve com ela no Hotel do Chiado para a conhecer um pouco melhor e saber mais sobre a sua primeira aventura pelo mundo dos livros.

Entraste relativamente cedo (18 anos) na indústria dos filmes pornográficos. Sempre tiveste a sensação de que não estavas destinada a uma vida comum?

Sim. Quando tinha 13 anos lembro-me ir ao supermercado com a minha mãe, e já então pensava em formas de ganhar dinheiro e arranjar trabalho, mas na Califórnia temos de ter pelo menos 16 anos para trabalhar. Recordo-me de estar neste supermercado e pensar que o rapaz que estava a registar os produtos na máquina era muito novo, então decidi perguntar-lhe a idade. Quando ele disse “18” eu disse isto: “Ha! Eu nunca irei trabalhar numa mercearia quando tiver 18 anos, isto é de doidos!”. A minha mãe ficou pasmada e disse-me que aquilo era uma coisa muito rude, que não devia ser dita a ninguém. Então eu pus-lhe as coisas desta maneira: quando fazemos 18 anos, os nossos pais têm o direito de nos mandar embora de casa, e isso significa que começamos a estudar na universidade e que apenas podemos aspirar a um trabalho deste género. Como é suposto pagarmos as nossas próprias contas e ter dinheiro para a renda, a luz, as despesas da casa e tudo mais? Era este o tipo de coisas em que eu pensava desde muito nova, e na verdade não consigo dizer porque é que me sentia assim já com aquela idade. Mas acho que foi sempre assim.

Sasha Grey não representa de todo o protótipo da artista pornográfica à qual a indústria nos tem vindo a habituar. Que papel desempenhaste nela?

Durante, e mesmo antes de ter começado a fazer pornografia, um dos meus objectivos principais foi sempre o de desafiar a percepção da sexualidade feminina e os estereótipos criados à volta das mulheres na pornografia. Tinha um agente pornográfico, mas nunca tive um manager ou uma companhia com a qual tivesse assinado um contrato de exclusividade. Ninguém era responsável por mim, fosse para me levar à ribalta ou para criar uma imagem específica que eu adoptasse. Sempre pude ser eu mesma e usei maioritariamente a internet para dar a conhecer a minha opinião e a minha ideologia, usando bastante o Myspace para escrever em blogues e conversar com os meus fãs. Dei-me mesmo ao trabalho de responder ao correio de fãs durante uma ou duas horas por dia, todos os dias, e isso foi realmente importante para mim, ajudando-me a construir uma carreira e a guiar-me até onde me encontro hoje. Não era propriamente discreta ou tímida sobre o que estava a fazer; na verdade estava cheia de orgulho de tudo e nunca tentei apresentar-me como um símbolo ou uma coisa puramente sexual. Acho que tudo o que fiz me humanizou e me tornou uma pessoa verdadeira e real aos olhos dos meus fãs.

Em 2011 abandonaste a carreira pornográfica. A tua missão ficou cumprida ou ganhaste o gosto pela representação em Cinema mainstream (depois de “The Girlfriend Experience”, 2009)?

Na verdade fi-lo uns anos antes, em 2009! Bem, eu nunca disse propriamente “Hey, já não faço mais pornografia!”, mas tive esta conversa com alguns amigos mais próximos e disse-lhes que não ia fazer grande alarido à volta do assunto, ou uma grande declaração pública do género. Simplesmente aconteceu deixar de fazer pornografia e começar a fazer outras coisas. Há relativamente pouco tempo lancei um livro fotográfico sobre sexo em Nova Iorque, um evento de grandes proporções numa livraria sem fins lucrativos onde tive a oportunidade de conhecer imensos fãs, e nenhum deles se tinha apercebido de que eu tinha deixado de fazer pornografia, assim como nenhum dos jornalistas com quem tinha estado a falar. Então decidi que se calhar devia fazer alguma coisa, mas como não queria fazer disto uma grande história ou dar um exclusivo ridículo para uma revista, escrevi sobre isso no meu blogue e no Facebook, estávamos em 2009. Foi então que realmente comuniquei ao mundo que tinha desistido da pornografia.

Sasha Grey em entrevista

Depois de ter filmado “The Girlfriend Experience” continuei a fazer pornografia, mas ao mesmo tempo fiz audições para outros filmes e papéis durante mais ou menos um ano. Chegou então uma altura em que tive de escolher entre a pornografia e o cinema mainstream, porque era impossível continuar as audições e ter aulas ao mesmo tempo que tentava fazer de mim a melhor actriz possível. Foi aí que realmente desisti e comecei a fazer mais filmes. Acabei recentemente as gravações de um filme que vai sair brevemente, já em Dezembro deste ano, chamado “Open Windows”.

“Juliette Society” é a tua primeira aventura literária. Ganhaste ânimo para te lançares dado o enorme sucesso de “As 50 Sombras de Grey” e a vontade do público em conhecer o backstage do mundo da pornografia e do erotismo?

Sim, claro que sim, sem dúvida! Acho que uma das coisas mais importantes sobre esse livro foi permitir à cultura popular de hoje falar abertamente sobre BDSM e as diferentes maneiras de explorar a sexualidade, normalmente consideradas abusos e olhadas como perigosas ou até mesmo degradantes para as mulheres. O BDSM sempre foi visto um pouco dessa maneira, a menos que estejamos a falar de pessoas que fazem parte da comunidade. Foi sendo parte de uma sub-cultura e de pessoas que viviam realmente este estilo de vida, e agora pela primeira vez está a ser exposto para um público muito mais abrangente e popular, o que para mim é verdadeiramente importante.

O que vai mudar nas pessoas depois de lerem o livro? Que reacções esperas receber?

Essa é uma questão interessante porque, afinal, o meu livro não passa de ficção. Foi escrito para servir como entretenimento e espero que as pessoas o apreciem pelo que ele é; mas se quiserem ou puderem tirar algum significado para além do que está escrito, ou decidam encará-lo como uma metáfora, espero que esta possa oferecer um melhor e mais profundo conhecimento dos diferentes aspectos da sexualidade de cada um, ajudando as pessoas a serem menos críticas para com os gostos dos outros. O facto de não estarmos interessados em alguma coisa não quer de todo dizer que não possamos respeitar as pessoas que estão. Ajudar o público a entender isso, e ajudar a aceitar que assuntos tabus da sexualidade podem ser muito positivos quando tudo o que se passa é consensual e entre adultos é, a meu ver, uma mensagem muito forte e importante que precisa de ser passada.

Vivemos numa sociedade cada vez mais receptiva às relações sexuais e à sua exposição, tanto no Cinema como em livros extremamente bem recebidos pelo público. Por estares tão ligada à indústria do sexo e da pornografia, sentes que ainda tens mais para dizer do que aquilo que escreveste em “Juliette Society?”

Não tenho a certeza se tenho necessariamente alguma coisa de nova para dizer. Enquanto escrevia “Julliette Society” sabia que não se tratava de uma história nova ou que abordava assuntos diferentes, mas ao mesmo tempo senti um alto nível de responsabilidade para com o meu público e as pessoas que gostam de mim e têm expectativas sobre o meu trabalho. Acima de tudo quero continuar a inspirar as pessoas a serem mais seguras de si mesmas e, às vezes, isso é uma coisa muito difícil de se fazer.

Por detrás da actriz mainstream e da estrela porno, onde fica a Marina? Sasha Grey é uma profissão, um alter-ego ou pura e simplesmente o nome que representa a Marina?

Para mim é simplesmente um nome que me representa aos olhos da vida pública. O nome verdadeiro do Jay-Z também não é esse, e eu tenho a certeza de que ele é praticamente a mesma pessoa. Eu escolhi Sasha Grey por um motivo, e é claro que há uma grande carga psicológica que o rodeia, tal como me permite criar uma barreira entre aquilo que sou e o público, apesar de essa barreira ser muito pequenina. Mas não acho que haja nada de significativamente diferente entre ambos os nomes que me representam.

Por qual das tuas profissões gostas mais de ser reconhecida? A de escritora ou a de actriz?

Isso é demasiado difícil de escolher! Adoro fazer ambas as coisas e sinto-me abençoada o suficiente para as poder fazer ao mesmo tempo, por isso é muito bom ser reconhecida como actriz ou como escritora.

Fotografia por Graziela Costa



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