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Galos, BD e restaurador Olex… no Chiado

Chiado rima com tradição. Desengane-se, o Chiado está como novo, repleto de exemplos de comércio tradicional que de tradicional não têm nada.

“E as pessoas não estranham?” Sempre com um sorriso Marisa, empregada em part-time desde a inauguração, no quiosque do Largo de Camões, vai explicando que Coca-Cola não há, mas há uma deliciosa limonada ou até mazagran, uma bebida já quase esquecida. Foi um dos primeiros a abrir, pela mão da jornalista Catarina Portas, como parte do projecto de renovação de quiosques abandonados que polvilham a capital. Aqui não encontrará Coca-Cola, chocolates Mars ou cerveja. Pretende-se oferecer o melhor dos produtos nacionais, tornando-os acessíveis a todos, num espaço agradável e ao ar livre que atraia famílias e turistas. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” como diria Pessoa. E certamente que não será difícil entranhar os pastéis de Belém, as sombrinhas de chocolate Regina ou os rebuçados do Dr. Bayard, que farão muitos reviver momentos de infância. “E a clientela da noite, é diferente?” pergunto, pensando no Bairro Alto ali ao lado e reparando nas bebidas espirituosas que decoram as prateleiras. A conversa é interrompida por um homem com casaco azul-escuro e umas calças verdes. Ao longe, seria um homem qualquer. Ao perto, a sujidade das suas roupas e o seu rosto envelhecido, apesar dos seus 30 e poucos anos, indiciam que faz da rua a sua casa. “Não me pode comprar nada para comer?” pergunta-me. Marisa trata-o pelo nome, é um “cliente” habitual. “Gabriel, então?” Enquanto decido o que fazer, entrega-lhe uma sandes. “É de quê?” pergunta. “Torresmos” responde Marisa pacientemente. “Ah torresmos não aprecio, pode ser outra coisa?” Olho para Marisa e imagino que deve estar a pensar o mesmo que eu, a cavalo dado não se olha o dente. “Escolha qualquer coisa então” digo. Ele pede um bolo, agradece e afasta-se. “De noite não sei, só faço o turno de dia. Teria de falar com a colega que trabalha à noite” Paciência, terá de ficar para outra vez. Hoje também só estou no turno de dia.

Em frente, a Garrett surge pouco convidativa. Centenas de lisboetas às compras e turistas de guia na mão percorrem-na, observados pelo paciente Pessoa. Curioso que nesta altura do ano ninguém pára para o ver, sentar-se ao seu lado ou perguntar o que faz aquela estátua na esplanada de um café. Perante tamanho reboliço, parece pequeno e sem importância. A tendência natural dos lisboetas empurra-os para a única superfície comercial da zona. Mas se não o fizer  irá descobrir um Chiado mais interessante.

Experimente virar numa das ruas, em direcção ao Carmo ou ao São Luiz e descubra por si mesmo. Onde as livrarias que oferecem relíquias a preços acessíveis e cheira a papel antigo com pó, se encontram a paredes meias com lojas de decoração e vestuário actuais e cafézinhos debaixo de arcadas, por onde todos passam apressadamente. Numa dessas ruelas, encontrei a Vida Portuguesa. Uma das lojas mais tradicionais do Chiado, dir-se-ia que existe há décadas. Mas não. A Vida Portuguesa abriu em 2004, fruto de mais um projecto de Catarina Portas, que foi à procura de produtos antigos nacionais, “aqueles que mantiveram as suas embalagens originais ou ainda se inspiram nelas”. A loja oferece artigos do antigamente como o restaurador Olex e os lápis Viarco, transportando-nos no tempo. A Carla trabalha na Vida Portuguesa há 1 ano e meio e representa para mim a sua essência. Jovem, de corte de cabelo moderno, com uma franja que lhe cobre as sobrancelhas, representa a nova geração que não quer perder as raízes do seu país. Por lá passam diariamente muitos turistas, mas também muitos portugueses, que ali revivem as suas memórias, cheirando o sabão azul e branco ou os pacotinhos de alfazema para as gavetas de roupa. “E quem compra mais, turistas ou portugueses?” pergunto. “Nesta altura do ano os portugueses compram muito, para oferecer. Mas os estrangeiros são mais engraçados, perguntam se podem comer os bombons pois pensam que foram produzidos há muito tempo. Temos de lhes explicar que os produtos existem há muitos anos, mas que são produzidos agora ainda… que podem comer à vontade.”

Quase no Largo do Carmo, a The Wrong Shop chama a minha atenção. O nome apelativo e os galos de Barcelos convidam a entrar e conhecer mais um espaço. Sim, galos de Barcelos, esse ícone da cultura portuguesa aqui transformado em objecto de design, com uma etiqueta que indica “Paint it or leave it”. Disponível em alumínio, pode ser personalizado  com sprays de cores variadas. Ou ainda representando temas, como os Galos Nu, Reino Unido, EUA ou gay. O tradicional, aquele com popa vermelha e motivos de rancho folclórico, esse não têm. Descubro ainda a colecção “I hate you gifts” que oferece gatinhos ou palhacinhos em louça, daqueles que não oferecemos nem a quem não gostamos nada… ou não. T-shirts com desenhos da Torre Eiffel, Big Ben ou o urso de Madrid indicam “This is not Lisbon”, numa clara paródia às lembranças típicas.

A caminho do Cais do Sodré, no largo dos Bombeiros, encontro a BD Mania, uma loja especializada em livros de BD. O empregado parece ter sido desenhado de propósito, com uma cultura especializada e resposta para todas as perguntas na ponta da língua. Cheira a livros e a plástico. É que além da colecção de literatura, a loja oferece artigos de merchandising de clássicos da BD como o Super Homem ou o Homem Aranha. Pensar-se-ia ser o paraíso de muitas crianças mas, a julgar pela clientela, é o paraíso de muitos adultos aficionados, que se perdem em tertúlias animadas com o empregado.

Ali mesmo ao lado, o Bairro Alto oferece uma atmosfera bem diferente. O seu ambiente diurno é silencioso e escuro. O cheiro a cerveja e urina dominam o ar. É quase como se o bairro estivesse a ressacar da noite anterior. É das zonas com maior vida nocturna e de dia parece perder a sua razão de ser. Além dos moradores de décadas, que despejam o balde de lavar a varanda na rua e estendem os lençóis a pingar, passeiam os turistas e os curiosos que procuram o bairro mais boémio da capital. Numa das ruas, dois miúdos dos seus 10 anos jogam à bola em frente a uma loja, como se estivessem num campo. A loja é a lendária casa de tatuagens e piercings Bad Bones que, naquele cenário, tem quase um aspecto de casa de família. “Mãe!” chama um deles. A Mãe, sentada atrás do balcão, tatuada e cheia de piercings quase parece uma Mãe tradicional respondendo ao filho com voz carinhosa. É difícil imaginá-la a tatuar caveiras e dragões centenários em costas de motards de meia-idade.

Ao virar da esquina, mais uma surpresa. Uma casa de chá que passa despercebida na loucura da noite, convida na calma do dia. O cheiro contrastante a torradas, chás aromáticos e bolos caseiros é irresistível. A Cultura do Chá remete-nos para uma típica casa de avó, com toalhas de mesa floridas, bules fumegantes e chávenas coloridas. Além de casa de chá, oferece as paredes a pintores que pretendam expôr, tornando a casa mais acolhedora e sempre diferente.

Regresso ao Largo de Camões. A agitação no Chiado mantém-se, a calma do Bairro Alto antecipa a noite. O Gabriel ainda anda por ali, talvez a tentar que alguém lhe ofereça um sumo que ajude a empurrar o bolo.



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