Short Stories @ RDB #10

A vida é curta.

A vida é curta, aproveita-a enquanto puderes… passei a minha vida a ouvir esta frase. A vida é um bem que acabamos por considerar como adquirido. É algo que nos pertence por direito, afinal é a minha vida. Eu é que sei quando, onde e como hei-de aproveitá-la. Um jovem independente, bonito… não que seja convencido mas há que saber usar os espelhos que tenho em casa. Como podia não aproveitar tudo o que tinha…

A verdadeira independência, se assim posso dizer, só a consegui já muito tarde. Os meus pais sempre desejaram que eu entrasse na faculdade, nem que isso significasse ter que lá andar o resto da minha vida. Não foi bem assim mas esteve lá perto. Acabei o curso de Relações Empresariais (a parte das relações era o meu forte) em seis anos, tendo em conta que o curso era de quatro anos. Mas o importante era acabar e se sempre me quiseram ver com um curso tirado, então aqui têm… Para ser sincero nunca pensei que conseguisse tirar este curso porque, para um estudante universitário, ou melhor, para um ex-estudante, há que reconhecer como é difícil terminar um curso. Afinal, temos sempre que tomar decisões difíceis, diria mesmo críticas: estudar ou ir para a borga; ir às aulas ou ficar no bar… e há pessoas que dizem que a vida de estudante não é difícil. Sabem lá eles o que dizem, de certeza que nunca foram estudantes.

Hoje, em frente à televisão, com o comando na mão, percebo que as minhas preocupações se resumiam a isto. Afinal, o que se podia esperar de um menino mimado, com carro e dinheiro, sem que para isso se estivesse esforçado. Um típico menino “beto”, como era chamado na faculdade.
Vou carregando com toda a força nos botões do comando até me doerem os dedos. As imagens passam de tal modo que não consigo acompanhá-las, nem sequer percebê-las. Este momento talvez seja também uma forma de não pensar, de fugir ou de me desligar. Quantas vezes não me apeteceu desligar…

As luzes desligavam-se, as pessoas, as que restavam de muitas delas, começavam a sair. Sempre gostei de ser o último a sair de uma discoteca, muitas vezes não me lembro de como saía ou até como chegava a casa. Mas, mesmo assim, queria ser sempre o último.
Muitas noites sei que não chegava a casa, sobretudo nas noites que eram de Ladies Night, as minhas preferidas. Acho que são as preferidas de qualquer rapaz! Quem não gosta de ver aqueles corpinhos (e, por vezes, que belos corpos) a dançar. Já para não falar do modo como se arranjam (e como se arranjam).
A minha mãe sempre me disse que eu nunca fui esquisito. Comia de tudo e com as raparigas também sempre foi assim. É como se diz na tropa: marcha tudo (e como marchava).
Não posso dizer que me lembre de alguma cara em especial. Também isso não interessava muito e no escuro era difícil reconhecê-las. Mas, seja como for, e independentemente com quem tenha sido, recordo-me de uma noite em especial (e que noite).
Recordo-me que fizemos amor uma única vez. Foi o suficiente para ter sido bom. Parecia que já nos tínhamos tocado antes (não que eu me lembrasse). Ela sabia exactamente a forma como e onde me tocar. Foi bom, muito bom e como tudo o que é bom acaba depressa, também o meu desejo e tesão terminaram. Foi bom mas já passou. Passado.

São horas de me deitar, está a ficar tarde. Desligo a televisão e, à medida que percorro os corredores até chegar ao meu quarto, penso no que vou fazer no dia a seguir. Já na cama vejo como estou cansado. As minhas pernas doem-me e não me lembro de me ter sentido tão cansado como hoje, não que tenha feito algo de especial ou de muito diferente dos outros dias. Os meus dias também não podem ser muito diferentes do de hoje. Apenas me recordo de ter sentido medo. Sim, reconheço, tenho medo. Medo de tudo: medo das pessoas, medo dos olhares dos homens e, sobretudo, do das mulheres (essas que eu sempre gostei de fazer sempre algo mais do que olhar), medo que me toquem. No fundo, medo que me amem e, talvez por isso, busco refúgio na solidão, na vida que tive.
Percebo agora que vivi uma vida falsa. Reconheço que não aproveitei a vida como me diziam. Aproveitei-me mais de pequenas coisas da vida dos outros para depois construir a minha. No fundo, acho que somos todos assim. Todos acabamos por ir buscar pequenas peças da vida dos outros para construir o nosso próprio puzzle. Mas não me apercebi que usei muitas peças erradas para a construção do meu puzzle.

Já não posso ser o último a sair de uma discoteca (já nem me recordo da última vez que fui a uma). Já não sei o que é ficar acordado até tarde porque rapidamente me canso. Passo o tempo todo em casa de um lado para o outro. Muitas vezes ainda faço umas corridas e umas voltinhas bem radicais mas isso é quando os meus pais e os meus vizinhos de baixo não estão em casa. A minha mãe farta-se de ralhar comigo quando faço isto porque diz que lhe risco o chão com as rodas. Eu até me divirto. Hoje é a única coisa que posso dizer que gosto. É a minha vida. O meu Presente.



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