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“Sleep Well Beast” | The National

Isto não é uma crítica a um disco. É uma declaração de amor.

Fez há pouco tempo 10 anos que conheci um disco. Esse disco chama-se “Boxer”. Foi amor à primeira vista. Esse sentimento estendeu-se à banda que o criou, os The National. Revia-me naquelas canções, naquelas palavras, naquelas melodias. Naquelas vivências. Não demorou muito para perceber que estava perante um disco de uma vida. Conheci quem partilhasse estes sentimentos. Entretanto casei ao som dele e continuo a amar e a viver ao som dele.

Eis que dia 8 de Setembro nos trouxe “Sleep Well Beast” e por isso chegou a altura de renovar os votos.

É complicado usar palavras para adjectivar “Sleep Well Beast”. Belo. Maduro. Adulto. Melancólico. Brutal. Requintado. Honesto. Político. Cheio. Todas estas palavras têm momento(s) ou canção(ões) que se adequam na perfeição.

Começa num tom quase sussurrado; «Nobody Will Be There» coloca-nos logo frente a frente com sentimentos de solidão e da luta para os contrariar, mesmo que contra os nossos instintos mais básicos. É complexidade e simplicidade lado a lado. «Day I Die» leva-nos a fechar os olhos; no trabalho escuta-se com os headphones bem assentes nos ouvidos, dos maiores se possível, e com a cabeça sempre em movimento; em casa soltamo-nos (como, fica ao critério de cada um). «Walk it Back» é a canção do álbum onde as referências políticas são mais evidentes, muito por culpa de incluir palavras de um texto que o jornalista Ron Suskind escreveu para o The New York Times, num registo falado e nada habitual para a banda. «The System Only Dreams in Total Darkness» mostra uma faceta mais irreverente da banda sem que percam a sua identidade, por um momento que seja (a começar logo pelo título longo). Por aqui o contador diz que já foi tocada perto de 300 vezes (verdade, verdadinha!). Em «Born to Beg» sujeitamo-nos a tudo e «Turtleneck» é uma canção rock como se calhar muitos não imaginavam Berninger, os Dessner e os Devendorf a compôr em 2017 e que trás à memória «Available» do “Sad Things For Dirty Lovers”.

É um álbum que reflecte os nossos tempos; negros e conturbados mas que a espaços se deixa iluminar, como por exemplo naquele momento durante a «Empire Line», em que Matt Berninger implora “Can’t you find a way” repetidamente, quando até ao momento, a canção surgia apenas pautada por uma angústia latente, quer na melodia, quer nas palavras. «I’ll Still Destroy You» é canção com os arranjos de electrónica quase florais e que eu nunca pensei escutar por estas bandas; uma lullaby for a numb mind é o que me vem à cabeça. «Guilty Party» podia chamar-se «About Today 2.0» e tem tanto de bela como de triste… Torna-se difícil perceber o que tem em maior quantidade mas não interessa. «Carin at the Liquor Store» é uma canção de amor com só Matt Berninger poderia escrever. Porque o amor não é fácil e muitas vezes exige que se lute e depois porque tem um refrão simplesmente perfeito: “So blame it on me / I really don’t care / It’s a foregone conclusion”. Três frases apenas. Mas são três frases que encerram um mar de sentimentos: há resignação mas também há uma clarividência que parece levar a contrariar essa resignação. Pode parecer confuso mas não tem de o ser, porque onde há tristeza também pode haver confiança. Não gosto de dançar mas escutar «Dark Side of the Gym» convida a isso; bem juntinho naquele slow, enquanto que no refrão se escuta repetidamente “So I’m gonna keep you in love with me for a while / I’m gonna keep you in love with me”. E aquelas cordas já no final da canção? Raios partam se aquilo não é um piscar de olho ao amigo Sufjan. O álbum termina com a canção homónima, «Sleep Well Beast» que num momento inicial me leva sempre a lembrar dos Radiohead na sua fase “Kid A”. Parece que a canção procura deixar-nos um pouco dormentes, depois da intensidade das 11 que a antecederam mas sem nunca deixar de nos fazer pensar sobre o futuro, neste caso o “beast” e o que quer que isso possa significar para cada um de nós.

Raras são as bandas que me deixam feliz mesmo quando as palavras que cantam, quando absorvidas com atenção, nos teimam em querer levar para lugares mais escuros e isolados. É uma luta interior que abraço de forma incondicional com os The National e se tiver de esperar mais 10 anos por outro disco assim, fá-lo-ei. As vezes que forem precisas.



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