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Street Fighter 30th Anniversary | Análise | PS4

As origens de Street Fighter nas consolas modernas

À vista desarmada, os jogos de luta podem parecer que são sempre a mesma coisa. As diferenças entre eles não são tão óbvias quanto outros géneros porque, visualmente, temos quase sempre a mesma informação: duas personagens frente-a-frente com 2 ou 3 barras acima da cabeça num espaço que, por vezes, parece que foi inserido com um green screen. As divergências são mais notáveis quando se pega no comando e se aprende as novas mecânicas e como elas impactam o xadrez mental que estes jogos requerem. O título em análise procura demonstrar isso mesmo ao nos dar fácil acesso a quase todas as iterações de Street Fighter – o pioneiro que não só popularizou o género de luta como também o definiu. Deste modo, Street Fighter 30th Anniversary não é um jogo comum, mas sim uma colectânea, e deve ser avaliado na maneira como nos apresenta os títulos na contra-capa e o que faz para os tornar apelativos. Nestes termos, é bem sucedido ao compilar uma lista de jogos que, hoje em dia, são jóias de coleccionador e um deleite para os fãs mais ávidos. No entanto, não é ideal para quem se queira iniciar na franquia, mesmo com os modos online e de treino que existem.

Street Fighter 30th Anniversary permite-nos saltar facilmente entre 12 dos principais títulos da franquia para experienciar as mutações entre cada um. Somos apresentados a uma interface genérica, sem grande energia, que mais se assemelha a um museu virtual do que a um convite para um torneio. De qualquer maneira, a compilação de jogos presentes neste título é, sem dúvida, a melhor forma de os jogar numa plataforma moderna, especialmente porque a ultima iteração do Street Fighter III saiu para a Xbox 360 e para a PS3. Porém, as versões de cada jogo são as das arcades, ou seja, não são as versões optimizadas para as consolas. Portanto, as conveniências ficaram relegadas à interface da colectânea e é a partir daqui que escolhemos a dificuldade, velocidade e consultamos os segredos dos jogos. Isto permite que a antologia possa reproduzir, fielmente, a experiência das arcades sem descartar as vantagens das consolas, o que melhora a jogabilidade intendida para cada título. Para além disso, temos mais opções para melhorar a experiência geral: é-nos permitido gravar e retomar os jogos a qualquer ponto no tempo, ideal para os que querem fazer uma pausa a meio de uma campanha. Finalmente, temos um pequeno leque de escolhas de filtros e resolução de ecrã, com uma opção para ladeá-lo com wallpapers nostálgicosEstas pequenas liberdades servem bem o seu propósito ao dar-nos uma aproximação mais fiel à estética dos jogos como eram antigamente sem comprometer necessidades modernas, fazendo com que sejam mais cativantes.

Apesar de tudo, não creio que a acessibilidade deste jogo seja suficiente para que se torne realmente inclusivo. O modo online é competente nas opções que nos dá, ou seja, temos os habituais modos de Ranked, Casual, Leaderboards Lobbys, mas só existem para 4 dos títulos da colecção. O mesmo aplica-se para o modo de treino; no entanto, para alguém que os queira aprender, a falta de um de tutorial para perceber como funcionam as diferentes mecânicas, como existe no Street Fighter V, não pode ser colmatada somente com texto, como é o caso. É verdade que o objectivo desta antologia é oferecer a experiência original o mais imaculada possível; todavia, sinto que “acessibilidade” é algo que falta gravemente ao género de luta e a sua ausência reduz o seu público. O facto de existir um modo online só realça o quão necessário é ter um guia para que nos sintamos minimamente orientados num combate virtual contra outra pessoa. É possível gozar da nostalgia que os modos para um jogador oferecem em cada título, mas alguns deles têm uma dificuldade imperdoável como é o caso do Super Street Fighter II: Turbo. Tentei mudá-la para um número mais baixo, mas até no nível 1 senti-me totalmente avassalado pelo CPU. Após uma pesquisa, percebi que isto tem a ver com as versões que foram usadas para esta compilação. Algumas são as primeiras de cada jogo, ou seja, sem quaisquer ajustes que haviam sido aplicados posteriormente.

O foco deste jogo é recriar o tempo em que se gastavam escudos para mais umas tentativas nas arcades e convidar-nos a reviver a época dourada da franquia

Felizmente, esta colecção tem talvez a maior quantidade do espólio da saga. Há tanto conteúdo que até a própria experiência de o ver parece algo separado do resto do jogo. É fácil ficar agarrado a ver todas as imagens e ler as suas descrições. Os textos, quando não estão a ser traduzidos do japonês, parecem que foram escritos por um guia turístico, e a opção de deixar cada subsecção correr como um slideshow convida-nos a sentar e a apreciar todas peças da história da franquia Street Fighter. Mesmo não tendo nenhuma conexão nostálgica, é difícil ficarmos indiferentes à evolução de um dos legados mais antigos e respeitados no mundo dos vídeo-jogos, especialmente quando temos acesso aos seus ‘making of’s e ás várias sprites de cada personagem (isto é, ‘fotogramas’ de animação). Só é uma pena não termos opções de personalização da experiência, como, por exemplo, poder alterar a rapidez da mudança de slides ou meter uma música de fundo diferente, preferencialmente uma dos magníficos soundtracks de cada jogo. Pelo menos conseguimos ouvi-los individualmente e até em shuffle. 

Concluíndo, Street Fighter 30th Anniversary não tenta reinventar os jogos que traz para um novo público, como aconteceu com o Ultra Street Fighter II. O seu objectivo é trazer os títulos emblemáticos da série para as consolas modernas, adicionando somente o mínimo de recursos adicionais para configurar as opções básicas. Os modos online e de treino são meros acessórios, pelo que não são, definitivamente, o foco. O foco deste jogo é recriar o tempo em que se gastavam escudos para mais umas tentativas nas arcades e convidar-nos a reviver a época dourada da franquia. Apesar da sua interface pouco apelativa e da falta de balanço nas campanhas de alguns dos títulos, consigo dar os parabéns à Capcom pela missão cumprida. Para além disso, é fantástico ter a opção de jogar online jogos como o Street Fighter Alpha 3 e o Street Fighter III: 3rd Impact contra um oponente real, porque nem sempre temos amigos que gostem de os jogar por perto, se é que os temos de todo. Para os fãs mais ávidos de Street Fighter, a longevidade de um jogo de luta reside na constante interacção contra um rival humano, por isso confio que irão apreciar os modos online do título em análise. Os restantes, que têm algum fascínio pela saga, também serão capazes de passar horas na galeria e a jogar umas partidas casuais. Todavia, o público a quem eu consigo recomendar este título acaba aí. O jogo não parece interessado em tornar os eternos espectadores em novos jogadores, mas, pelo menos tem conteúdo de sobra para que ninguém se sinta mal com o dinheiro gasto.



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