Teresa Gabriel

Teresa Gabriel

O som celta com selo nacional

Teresa Gabriel tem novo álbum. Decorrida quase uma década, presenteia-nos em “Rites of Passage” com novas músicas que nos transportam para ambientes longínquos. Se se sentirem celtas, não é por acaso. Embarquem nesta viagem!

Em 2004 foste nossa entrevistada. O que é que mudou desde então na tua música?

A minha vida mudou muito e a minha música também. Desde essa altura colaborei com muitos artistas diferentes, de áreas e estilos diferentes e viajei e estudei. Vivi em Inglaterra algum tempo, estive em Barcelona, no México, na Turquia, na Holanda, e estudei música, som, yoga, xamanismo, música indiana, búlgara… Estive envolvida em vários projectos de divulgação cultural e consciencialização e educação ambiental, e apoiei e colaborei com a campanha europeia das sementes livres e a ICE contra a privatização da água. A minha música foi-se transformando porque fui assimilando todas estas experiências que me inspiraram e influenciaram.

De onde vem a paixão pela música folk e celta?

A minha primeira banda foram os Paesures, em 1999. Era a banda de música celta do meu irmão. Ele sempre foi muito ligado a essa cultura, e tocava harpa celta e mostrou-me o trabalho da Loreena Mckennit. Eu também sempre gostei muito de cantautores como a Joni Mitchell, o Jeff Buckley e a Ani Difranco, do estilo confessional e da simplicidade e profundidade dos seus trabalhos.

Estudaste música celta e búlgara em Londres. Porquê música indiana e música búlgara? De onde surge o teu interesse por este tipo de música?

Em 2005 o Paulo Sousa convidou-me para cantar com os ALAP, um projecto com sitar e tablas, inspirado na música hinduistânica. Eu já adorava o Ravi Shankar e a Anoushka Shankar, Nusrat Fateh Ali Khan, Abida Parveen, e tinha uma amiga que tinha aulas de canto indiano em Londres, pelo que quando fui morar para lá também tive aulas. Gosto muito do carácter devocional da música indiana, do seu lado meditativo, contemplativo e do sentimento de dissolução do ego que acontece pela sua energia intencional e pelo convite à transcendência através da improvisação. Um amigo mostrou-me uma vez um cd de vozes búlgaras, em 2000, e desde aí que fiquei fascinada pelas harmonias e pelo sentimento épico e inebriante dos coros femininos. Tive a oportunidade de ver o coro Angelite em Évora em 2009 e foi simplesmente arrebatador. Em Londres aprendi com a Dessislava Stefanova, fundadora do coro búlgaro de Londres.

Quais são as tuas influências musicais?

Comecei a tocar guitarra com 9 anos porque na altura era a fase do grunge do rock, então ouvia muito Guns n’ Roses, Nirvana, REM, Queen… Na adolescência ouvia muitos cantautores e artistas como Jeff Buckley, Tori Amos e Joni Mitchell. Aos 18 anos despertei então para a world music, música celta…Loreena Mckennit, Lhasa de Sella, Susheela Raman, Sheila Chandra, Yunchen Lamo, Ojos de Brujo. Depois surgiu a música indiana, Ravi Shankar, Anoushka Shankar, e nos últimos 7 anos descobri o lado mais orgânico da música electrónica, através do chill out, e ambient. Trabalhei com Ambiens Indages, Sérgio Walgood e UASCA. Gosto muito de Asura, Aes Dana, Carbon Based Lifeforms, Rena Jones. Adoro também post-rock e post-classical : God is an Astronaut, Explosions in the Sky, Dustin O’halloran, Nils Frahm, Olafur Arnalds, Anywhen e Thomas Feiner, Winged Victory for the Sullen, Sigur Ros. Por vezes também oiço músicas nos meus sonhos. Nos últimos dois anos os concertos que mais gostei de ver foram a Mari Boine em Sines, a Zoe Keating em Londres, Bat for Lashes no Meco, Dead can Dance em Lisboa e no Porto, MONO no Paradise Garage.

Passaram praticamente 10 anos desde o lançamento do teu primeiro álbum…

Passaram 10 anos, que foram vários ciclos de vida, que pareceram 3 vidas diferentes.

Como foi a experiência de trabalhar com nomes como Jamie Woon, Orchid Star, Sérgio Walgood ou mesmo Ambiens Indages?

Conheci o Jamie Woon em Londres em 2005 e tocámos juntos em várias ocasiões no circuito acústico de Londres, que é vastíssimo. Tocámos a música “Robots” juntos. Adoro o estilo de guitarra dele e a sua voz. Conheci o Pete Ardron, o produtor e compositor de Orchid Star em Londres, também em 2005, ele viu um concerto meu e veio falar comigo a dizer que tinha gostado muito e passado uns dias fui ao seu estúdio gravar algumas canções e desde aí que ficámos grandes amigos, e acabei por colaborar a cantar em alguns temas do seu projecto. O Gil de Ambiens Indages já tinha sido meu colega na escola e em 2006 reencontrámo-nos, naquelas sincronicidades da vida e descobrimos que íamos morar os dois para Londres na mesma altura e começámos a gravar músicas juntos e a dar concertos. Ele já tinha várias bases e ambientes e eu tinha letras e melodias e o processo foi muito orgânico e automático. O Gil, que também produziu o projecto Algodão, é um mago do som, e adoro trabalhar com ele pela sua criatividade, profissionalismo e perfeccionismo. Foram experiências muito positivas com pessoas muito profissionais e maduras e aprendi muito.

Dos artistas mais conhecidos com quem já trabalhaste, qual o nome que mais te marcou?

Todos os projectos e pessoas com que trabalhei me marcaram e foram especiais. Para já porque surgiram no caminho da vida. Nunca foram pessoas que fui convidar ou que me convidaram por alguma razão, ou interesse. Foram cruzares de caminho quase sempre em circunstâncias sincrónicas que fizeram todo o sentido na pesquisa artística e vivencial em que estávamos. Os trabalhos foram sempre feitos pelo amor à arte e à música, nunca com fórmulas, nem com copy-pastes de projectos já existentes para nos inserirmos em circuitos ou mercados ou para ir atrás desta ou daquela moda. Foram trabalhos criados com muita liberdade, autenticidade e acima de tudo um respeito mútuo muito grande sem conflitos de egos ou competição.

És professora de canto e guitarra. Qual a mensagem que pretendes passar aos teus alunos como professora e, principalmente, como artista?

A principal mensagem que passo é que os meus alunos aprendam a falar música antes de escrever. No desenvolvimento humano aprendemos a falar antes de aprender a escrever, mas no ensino oficial de música, aprende-se a escrever e depois a ler o que já foi escrito por alguém. Embora a técnica e a teoria sejam importantes, se descuramos a criatividade e castramos a imaginação, não conseguimos tocar sem pensar, o que eu acho trágico, pois pensar não é percepcionar. Eu dou ferramentas para que os meus alunos desenvolvam a sua própria musicalidade, mas que esta fonte de criatividade seja também uma forma de aceder à sua confiança, motivação e afirmação pessoal, para o seu auto-conhecimento e para que a música seja um refúgio onde se sintam sempre livres para expressar tudo o que são e libertar tudo o que tiverem de libertar.

Teresa Gabriel

Como traduzes o teu novo álbum?

Como um time-lapse musical de 5 anos da minha vida, que contém todas as viagens, histórias, processos, experiências e influências que me marcaram e me transformaram enquanto pessoa. Um diário de viagem com vários capítulos.

Intitulas, no teu site, este teu mais recente trabalho como “um diário de viagens interiores e exteriores” de 5 anos. Qual foi a viagem que fizeste nestes 5 anos que teve maior peso na tua criação musical?

Penso que foi a minha primeira viagem a Barcelona em 2005. Foi uma viagem surreal e cheia de sincronicidades. Foi a primeira vez que viajei sem planos, nem horários, nem qualquer expectativa, e recebi muitas bençãos e acho que foi a primeira vez que senti aquilo que as pessoas se referem como providência divina. Simplesmente me lancei ao desconhecido e aprendi a confiar na vida e a des-programar velhos medos e velhos hábitos na minha mente. Conheci pessoas fantásticas e tive momentos de pura magia. Essa viagem ensinou-me a estar presente, a confiar, e a ansiar pelo desconhecido. Essa epifania de expansão pessoal acabou por se reflectir também nas minhas músicas e composições, pois esse “upgrade” de percepção e de abertura acabou por se reflectir na forma como canto e toco, nos elementos que agora vou buscar, e na forma como deixo o processo criativo acontecer, escutando mais o silêncio em vez de racionalizar tanto as coisas e acima de tudo deixei de querer controlar tanto a minha vida com projecções distorcidas fruto de velhas perspectivas mais limitadas. Foi como deixar um software velho e instalar um novo, num download de inspiração. O John Lennon tinha razão quando dizia que a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos. Essa viagem ensinou-me a ser mais humilde e a confiar mais. Aprendi a receber e a confiar na minha intuição. Compreendi que aquilo que sabemos é sempre muito pouco, que a vida sabe sempre mais que nós, e que quanto mais pequeninos admitimos e reconhecemos que somos, maiores e mais infinitos nos tornamos, pois só nesse espaço de entrega a magia da vida se expressa e só nesse silêncio do ruído da nossa própria mente intoxicada e saturada conseguimos escutar os insights mais profundos e subtis do nosso espírito.

“Os velhos mapas já não nos mostram o caminho”?

Os desafios de hoje têm de ser resolvidos com o conhecimento de hoje. Está sempre tudo a mudar e a mudança chegou para ficar. Os velhos cânones e os velhos paradigmas têm tendência para “die hard”, mas nessa inconsequência atrasam o processo evolucionário. A energia do controlo é uma energia anti-vida. A nova estrutura ou o novo sistema precisa surgir de forma mais orgânica, precisamos levar com um balde de água fria para acordarmos da hipnose de massas que foi o século passado nas suas inúmerias propagandas com as “weapons of mass distraction.” As crises são uma consequência da disfuncionalidade dos sistemas. Mas são catalizadoras da mudança. A depressão é um sintoma da necessidade de mudança. Mais vale não termos resistência, mas adaptarmo-nos e termos visão. É preciso coragem para sentir e não ter medo da liberdade.

“…é o abrir de um novo capítulo, num novo estado, com uma nova percepção das coisas e uma nova forma de me relacionar e reagir ao que a vida me traz.” Que podemos esperar deste novo capítulo de Teresa Gabriel?

Não tenho expectativas. Vou simplesmente tentar estar o mais presente possível e apanhar o vento e as ondas conforme forem chegando. Há, no entanto, algumas viagens no horizonte. Vou criar a música para um espectáculo de poesia em Praga, do poeta americano Lucien Zell, e tive alguns convites para ir à Holanda e Bélgica tocar em alguns festivais. O Norbi Pan, tocador de hang-drum também me convidou para ir à Hungria participar num festival de música sagrada, e estou a pensar ir para dar alguns concertos e para criar algumas músicas com ele, também. Em Portugal vou andar por Abrantes (Associação Envolve), Coimbra (Salão Brasil), Porto, Lisboa (Panteão Nacional), Miranda do Douro, Marvão, em alguns encontros, salas de concerto e também eventos ligados à economia da dádiva e à educação livre. Estou a colaborar também com o produtor e compositor de música electrónica Sérgio Walgood e violinista Marco Rosa num live act com instrumentos e voz e vamos tocar em Junho num evento de música electrónica. Espero que 2014, ano do cavalo de fogo segundo o calendário chinês, seja um ano de muita expansão, espero viajar com a minha música e poder contribuir para a consciencialização através das minhas letras e que o caminho e a vida me continue a ensinar e a guiar.



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