The National + This is the Kit @ Meo Area (21.11.2013)

The National + This is the Kit @ Meo Area (21.11.2013)

Se é verdade que os The National já deram concertos mais memoráveis por cá, não é menos verdade que este foi um óptimo concerto

Primeiro de tudo há que frisar dois aspectos importantes que, directa ou indirectamente, vão sempre moldar o texto que se preparam para ler. É importante referir que os The National são a minha banda preferida e esta é primeira vez que vou escrever sobre um concerto deles. Se a opinião sairá ou não toldada pela adoração que nutro pela sua música, caberá a vocês, e em especial a quem esteve presente no concerto, decidir. Confesso que não tenho a certeza por onde irá este texto seguir mas estou pronto para o descobrir. Em segundo lugar, decidi que apenas iria fazer uma única referência à acústica da Meo Arena (ainda não me habituei ao novo nome do espaço… soa estranho!): foi, é e continuará a ser sempre, uma treta. Ao lerem as seguintes linhas devem ter sempre em mente que, infelizmente, a qualidade sonora nunca esteve à altura dos intervenientes.

Antes da banda de Ohio (mas que agora assentou arraiais em Brooklyn), subiu ao palco This is the Kit, projecto de Kate Stables, originária de Bristol. São canções com arranjos bonitos, aquelas que ali foram apresentadas, com o banjo a conferir um registo muito próprio bem como a voz suave de Stables; no entanto, o maior inimigo revelou-se ser o próprio espaço. As canções de This is the Kit pedem um local mais pequeno e acolhedor e aí a experiência de as descobrir será, com toda a certeza, bem mais compensadora, acreditem.

O arranque do concerto dos The National surpreendeu. Surpreendeu, porque começou ao som da «Magic Chords», de Sharon Van Etten, como que a preparar-nos para a montanha russa de emoções que estava para vir: “You got to lose sometime” ou “You got nothing to lose, nothing to lose, nothing to lose this time”. Ao fundo, no ecrã que está montado do palco, passa estática, que de repente começa a desaparecer para dar lugar a imagens do acesso ao palco, onde os manos Devendorf, os manos Dessner e o senhor Berninger aguardam o momento da entrada.

«Don’t Swallow the Cap» é a primeira canção do concerto e as guitarras soam diferentes. Têm mais músculo. É o suficiente para fazer aquele clique cá dentro, sabem? A viagem continua ao som das canções de “Trouble Will Find Me”, com «I Should Live in Salt», interpretada com iluminação mínima e sem qualquer projecção no ecrã, como que em jeito de penitência e em busca de redenção.

Seguem-se «Secret Meeting» e «Bloodbuzz Ohio», recebidas de braços abertos e cantadas em uníssono por uma sala já rendida. Mas é “Trouble Will Find Me” que está debaixo dos holofotes, por isso não tarda o seu regresso ao som de «Demons», acompanhado por imagens que fazem lembrar o teste de Rorschach. Muito apropriado, como aliás foram todas as imagens que surgiram. «Sea of Love» transborda emoção e tem o condão de nos meter a gritar bem cá do fundo “Hey Jo sorry I hurt you, but they say love is a virtue don’t they?” ou a simplesmente a trautear “If I stay here trouble will find me / If I stay here I’ll never leave” com um sorriso maroto na cara.

«Hard to Find» permite respirar um pouco e confere à noite um momento mais introspectivo, que é rapidamente ultrapassado quando se escutam os primeiros acordes da «Afraid of Everyone», com uma bateria alucinante e uma entrega vocal que arrepia. “Your voice is swallowing my soul, soul, soul” é repetido vezes sem conta e não conseguimos ficar indiferentes. Simplesmente não dá. «Squaler Victoria», numa versão mais curta, faz a sala tremer. «I Need My Girl» é mel e o rendilhado que a guitarra produz torna a canção irresistível. Por dentro, sorrio. Já vi The National em prestações melhores e mais intensas, é verdade, mas esta não envergonha ninguém. Para além disso a sala é maior e é inevitável que a simbiose que se estabelece não seja tão perfeita.

A meio da actuação há tempo para apresentar «Lean», canção que integra a banda sonora de “Catching Fire”, com direito a pergunta ao público se já viram o filme e se presta para alguma coisa… O momento rapidamente fica para trás porque «Abel» surge de rompante e incendeia a plateia. É a canção perfeita para o dia de trabalho que foi stressante, nos consumiu e nos levou quase até ao limite da paciência.

Matt Berninger tem uma capacidade ímpar de pegar em palavras soltas e juntá-las de forma a conferir-lhes uma carga e significado enormes mas ao mesmo tempo dar-lhes uma certa subjectividade que leva a diferentes interpretações por parte de quem ouve as canções. «Slow Show» é um óptimo exemplo disso. «Apartment Story» dá vontade de abraçar a cara metade enquanto vamos cantando “hold ourselves toghether with our arms around the stereo for hours”. Já «Pink Rabbits» é cantada com luz em tons rosa. «England» surge com a sua majestosa entrada, com a reduzida mas eficiente secção de metais em acção. No ecrã as imagens são de chuva e a atmosfera perfeita. Sim, nada surge ao acaso. O alinhamento é mais do que equilibrado embora fique sempre a faltar aquela ou a outra canção mas o que é que se pode fazer quando há tantas e boas por onde escolher?

Os versos “There’s a science to walking through windows / There’s a science to walking through windows without you” são aqueles que mais me meteram a matutar e a tentar descodificar o seu significado nos últimos tempos. E é isso que acontece quando Berninger os entoa durante «Graceless», num ritmo frenético que é de seguida bruscamente interrompido com o murro no estômago que é «About Today». A mágoa e a tristeza são quase palpáveis naquelas palavras. É o momento ideal para partilhar a garrafa de vinho com o público. «Fake Empire» marca o final, antes do encore, com um momento de comunhão. Passaram 20 canções mas o tempo, esse, parece que voou…

O regresso ao palco é feito com a «Sorrow». Como gostava de ter sido eu a pensar num verso como “Don’t leave my hyperheart alone on the water”. «Mr. November» marca a primeira investida de Berninger pelo meio da assistência no lado esquerdo e depois o mesmo é repetido na «Terrible Love», logo de seguida, mas para o lado direito. Em comum a entrega de Berninger em ambos os momentos, como que possuído e impelido a partilhar aquele momento connosco. A fechar a actuação houve «Vanderlyle Crybaby Geeks» entoada sem amplificação e em uníssono. Não foi novidade porque já o tinham feito anteriormente mas foi óptimo na mesma! E este foi o único momento em que a acústica da Meo Arena se portou bem.

Se é verdade que os The National já deram concertos mais memoráveis por cá, não é menos verdade que este foi um óptimo concerto. Ninguém teve razões para sair dali desiludido.

Fotografia por Marisa Cardoso



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