The Witness 2

The Witness | Análise

A ilha dos quebra-cabeças

Sem uma narrativa ou até uma banda sonora, numa ilha populada por personagens petrificadas em poses poéticas e animais que nunca vemos, The Witness é um jogo de puzzles extremamente silencioso mas com cores vibrantes e cenários  que, à primeira vista, enchem o olho. Sozinho pela ilha, o jogador terá de atravessar várias zonas, com vários puzzles, activando no final raios que incidem no topo da montanha ao centro, para desbloquear a zona final. Os puzzles baseiam-se sempre na mesma premissa, desenhar uma linha de um lado ao outro do puzzle em cada um dos painéis que vamos encontrando. Sempre que o fazemos, desbloqueamos qualquer coisa mais à frente.

Os puzzles definem-se por um código que vamos aprendendo à medida que progredimos em The Witness e o qual se vai complicando à medida que o fazemos. Temos de estar atentos às sombras, ao terreno, ao chilrear dos pássaros, já que tudo o que nos rodeia pode ser uma pista para desbloquear o painel de puzzle que temos à nossa frente. Encontramos algumas regras complexas em alguns casos, noutros temos puzzles que nos obrigam a memorizar ou até a apontar certos e determinados padrões. A complexidade de alguns quebra-cabeças pela ilha é tal que chegamos ao ponto de por vezes termos conseguido resolver alguns puzzles quase sem querer, depois de já termos tentado soluções aleatoriamente em desespero. Ainda hoje volto a olhar para eles e ainda não percebi como os resolvi… mas resolvi e é o que interessa! Os momentos iniciais podem ser frustrantes e levar os mais impacientes ao aborrecimento total. Por sua vez, os obsessivo-compulsivos só vão ficar descansados quando perceberem todas as mecânicas e resolverem todos os desafios que The Witness lhes coloca.

A proposta de um mundo aberto para um jogo de puzzles deste género, mesmo apesar deste ser lindíssimo, torna-se problemática. Rapidamente, sem dar conta, o jogador perde o fio à meada da zona em que se encontra e depara-se com um puzzle para o qual ainda não está munido com conhecimento necessário  para o resolver. Conhecimento esse que só alcançará mais à frente e que, à falta de uma linha condutora, leva a que o jogador vagueie pelo cenário até encontrar um puzzle adequado ao seu grau de progressão. The Witness pode também ser problemático para daltónicos, já que muitos puzzles se baseiam em cores e o mesmo acontece para pessoas que tenham dificuldade em distinguir notas musicais mais agudas ou graves que outras, já que alguns puzzles se baseiam no som.

Pelo caminho, vamos encontrando audio logs que revelam algumas citações filosóficas de vários autores e que aparentemente não têm grande ligação com nada na ilha de The Witness. E este é um dos grandes problemas deste jogo, a falta de ligação com algo concreto, que motive o jogador para além do desafio de resolver tudo aquilo que encontra pela frente. Muito resumidamente há uma constante falta de uma ideia de história ou de contexto que transcenda a simples experiência de resolver todos os puzzles de The Witness. Até porque, apesar de possuir cenários fenomenais, com um estilo muito puro e distinto, a verdade é que, passado uma hora ou duas, reparamos que o mundo é estático, diria estéril até e com falta de vida que o torne mais interessante. Tudo parece cenário montado para um filme de Hollywood ao qual retiraram todos os efeitos especiais. A falta de uma banda sonora ao longo de quase todo o jogo, visto que só surge na zona secreta como chave para marcar o tempo disponível para resolver os puzzles, é também ela estranha e acaba por contribuir ainda mais para a esterilidade do cenário da ilha de The Witness. Por sua vez, o final é a maior desilusão deste jogo, quando depois das incontáveis horas que os jogadores são obrigados a coçar a cabeça para resolver todos os puzzles, a recompensa é tudo menos satisfatória e novamente… vaga.

Este é um jogo simbólico, com puzzles bastante concretos, onde o jogador define o significado daquilo que anda por ali a fazer nesta ilha quase como se de uma peça de arte contemporânea se tratasse. Conteúdo não falta, com bastantes puzzles (assim como uma zona secreta) e cuja longevidade dependerá sempre da perspicácia do jogador para os resolver. Dentro do género, Portal 2 ou Q.U.B.E. – Director’s Cut parecem-me propostas mais interessantes, embora The Witness tenha algum charme e, acima de tudo, muitos desafios para oferecer. O apreciador de puzzles encontrará aqui um título interessante disponível na PlayStation 4 e PC.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This