Um Homem na Cidade – Vicente Alves do Ó

Um Homem na Cidade #1

Tanta Lisboa para ver e tão pouco tempo

A meio da semana começam a chegar. Revistas, jornais, sites de internet, um manancial de informações, propostas, convites, ofertas, novidades, tudo para que a vida na cidade seja cada vez mais concorrida, mais diversificada, mais moderna ou apenas pareça viva. A Lisboa cultural estende-se por todos os bairros e todos são já motivo de visita. Museus, restaurantes, lojas, teatros e cinemas, monumentos, passeios, edifícios, numa vertigem que nos obrigaria a fins-de-semana de três ou quatro dias e dias de 48 horas.

Quando morava no Alentejo, mais ou menos a 170 km da capital, lembro-me de ter um acesso mais restrito a esta informação e sabia que, nas minhas visitas ocasionais, tinha um tempo limite para tudo aquilo que realmente queria ver e fazer. Por isso escolhia e fazia as minhas escolhas criteriosamente, consciente de que, o que mais me apetecia ver ou que era importante assistir, tinha que ser à prova de desilusão. A peça x, a exposição y, como se cada um dos acontecimentos, por si só, fossem um momento particular e especial do dia e até de toda a vida. Como vivia longe, essas visitas revestiam-se ainda mais de um carácter quase religioso e cerimonial. Vinha a Lisboa dois dias e meio, dormia pouco, aproveitava o máximo e voltava sempre com a mochila cheia de livros e filmes em vhs.

Agora que vivo na cidade, reconheço que faço muito menos coisas, vejo menos, visito menos do que nesses tempos de solidão alentejana. Porque o tempo é outro, porque a informação chega a toda a hora e muitas horas são necessárias para decidir o que fazer, e porque o dinheiro é menor do que a oferta cultural que a cidade proporciona.

E há um outro factor também. Talvez o mais importante. Ir, chegar, ver ou sentir, voltar para casa, tornou tudo numa rotina de quem acumula pontos numa caderneta, para conversas de jantar e opiniões formadas em cima do joelho.

O tempo necessário para um filme, um livro, uma igreja, um quadro, uma paisagem, deveria ser o tempo certo e nunca o tempo permitido. O conhecimento e a sabedoria, o sentir, e o simplesmente observar, necessitam dum tempo que já não nos é permitido. E assim vamos, escolhendo porque os outros escolheram, porque os outros propõem, porque os outros falam bem ou mal. Vamos sem tempo de reflexão se aquilo que vamos ver: o tal filme, a tal exposição, o tal teatro, é de facto, importante para nós, para a nossa viagem pessoal por esta vida, ou simplesmente se não é para garantir a nossa presença num grupo ou tribo que fala sempre das mesmas coisas e que recrimina quem não viu, fez ou sentiu.

A cultura ou a arte na cidade é apenas um potencial elemento na construção dum indivíduo. Pois cada olhar pessoal deve construir o seu guia, a sua lista, a sua fonte, a sua ideia do que somos ou poderemos ser; para que cada um de nós tenha um ponto a acrescentar à grande conversa do mundo. Não porque viu este ou aquele espectáculo doutra forma, mas simplesmente porque a vida, no seu todo, é uma outra visão possível da realidade que habitamos.

Às vezes olho para todos os livros que tenho nas minhas estantes. Já li muitos. Outros sei que nunca chegarei a ler. Antigamente sofria com isso, achava que não tinha tempo de vida para nada, que ficaria incompleto, burro, se não lesse tudo o que deveria ler e ver. Hoje penso exactamente o contrário. Só preciso do tempo certo, dos livros certos – e de acertar nos livros certos – para fazer de Lisboa uma visão só minha: da cidade em que vivo e do homem que sou.

Ilustração de Bruno Martins



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