“Vidas instáveis” | António Mega Ferreira

“Vidas instáveis” | António Mega Ferreira

Nove vidas cercadas por luz e sombra, como deve ser

No que diz respeito à vida cultural portuguesa, António Mega Ferreira tem estado sempre na linha da frente. Actualmente girando entre um triângulo que tem como vértices as profissões de escritor, gestor e jornalista, Mega Ferreira foi, entre outros títulos, Comissário Executivo da Expo 98, Presidente do Oceanário de Lisboa e Presidente da Fundação do Centro Cultural de Belém.

Com mais de 30 livros publicados entre ficção, poesia, ensaio e crónicas, recebeu em 2002 o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Para quem não está familiarizado com o espírito crítico e inventivo de Mega Ferreira, a publicação de “Vidas instáveis” (Abysmo, 2014) será uma boa forma de conhecer de perto o seu universo de ensaísta.

O livro, que nos dá a conhecer a vida de nove figuras da história mundial através da instabilidade que atravessou as suas vidas, reúne textos publicados na revista Egoísta, no jornal O Primeiro de Janeiro e num catálogo de exposição, transcrições de conferências e, também, dois inéditos. A acompanhar cada um dos nove ensaios, uma pintura de João Queiroz ajuda a instalar um cenário de melancolia para nove vidas geniais a que esteve sempre associada uma paisagem trágica.

E de que vidas traçou Mega Ferreira uma linha de instabilidade? Leonor de Aquitânia, rainha de duas nações, vista como tola e de conduta impudente mas fundadora, de certa forma, da ideia da Europa; Leonardo Da Vinci, que entre a inconstância e a diversidade – e um tremendo génio -, terá sido o primeiro homem pássaro; Rembrandt, o pintor da bruma e da poeira, que representou como ninguém a materialidade crua dos seres na natureza; Frei António das Chagas, para quem a revelação divina chegou tarde e depois de uma vida desregrada e de muitos excessos; Casanova, um fabuloso actor no grande teatro do mundo, um libertino que viveu sem arrependimento e sem se deixar apanhar pela sombra do pecado; Balzac, que como Rembrandt teve uma multidão de credores à perna e que, antes de alcançar a glória literária, foi responsável por uma fábrica de romances populares e folhetins que deixariam muito bom escritor envergonhado; Carolina Coronado, libertária, sonhadora, letrada e romântica, isto antes de se tornar doméstica, supersticiosa, maníaca e exilada; Ernst Junger, uma das mais destacadas figuras da extrema-direita alemã – antes de conhecer uma epifania – que alcançou a glória através de uma escrita glacial e um rigor sem emoção; e Marilyn Monroe, aparentemente a musa de Mega Ferreira, de quem o autor escreveu isto: «Há nela simultaneamente a sugerida transgressão  moral de um corpo irrepreensível, obsceno de beleza e sensualidade, e a profunda ingenuidade do olhar espantado aberto sobre o mundo.» Nove vidas enormes que, através do olhar crítico de Mega Ferreira, nos chegam envoltas num misto de luz e sombra. Como deve ser.



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