The Grand Budapest Hotel

“The Grand Budapest Hotel”

Um electrizante ensaio sobre a tragédia

O tão esperado novo filme de Wes Anderson chegou ao grande ecrã das salas portuguesas na passada quinta-feira, dia 10 de Abril. A antestreia VIP aconteceu no dia 8 de Abril, no Cinema UCI El Corte Inglés, e contou com a presença de algumas caras bem conhecidas tais como Iva Lamarão, João Libério, Isabel Nogueira, Teresa Mosqueira, entre outros. A Rua de Baixo esteve lá e foi com grande expectativa que esperámos a revelação dos primeiros minutos de “The Grand Budapest Hotel”. Como teria sido difícil não acontecer, o filme acabou por superar mesmo as expectativas mais otimistas.

Exuberante e dotado de uma mui saudável estranheza, este é um filme que nos conduz através de uma história de encantar que se constrói por entre esplendorosos cenários, diálogos regados a um hiper-realismo que se vai cruzando com boas doses de sarcasmo e personagens memoráveis e excentricamente multifacetadas. Ou seja, tudo aquilo ao qual já estamos habituados no que à cinematografia de Anderson diz respeito, só que desta vez o cineasta conseguiu extravasar-se a si próprio e elevar a sua linguagem para novos patamares. Logo no momento em que fomos brindados com o trailer deste novo filme,  soubémos de imediato que, a nível estético, este podia bem ser a obra-prima de Anderson. Não nos enganámos: dotado de um charme visual absolutamente sedutor que em tudo reflete a obsessão do autor pela centralização de planos e o abuso de cores e detalhes gráficos, este de “The Grand Budapest Hotel” está tão próximo da perfeição que ousamos dizer que será muito difícil ultrapassar-lhe a marca deixada no cinema sem cair numa mera imitação de estilo. Para explicarmos melhor onde queremos chegar com esta descrição, deixamos-vos com um vídeo que reúne em 4 minutos alguns dos melhores takes de slow motion levados a cabo pelo realizador. Odiando-se ou adorando-se, irrecusável é não se admitir que este senhor é, de facto, um génio na forma como articula a linguagem gráfica na sétima arte.

 

Já no que toca à construção dos personagens, estes têm tanto de cores exageradas e pigmentações fortes como de traços sublimes de personalidade que foram arquitectados ao mais ínfimo pormenor. Estamos perante um espaço de narrativo propositadamente sobrecarregado ao nível sensorial e para o qual também contribuem os cenários magnificamente construídos (merecendo aqui destaque o sublime trabalho do director artístico Adam Stockhause), o qual nos irá engolir, sem que nos demos conta, para o interior da ficcional República de Zubrowka. É aqui que, no topo de uma montanha, se ergue o requintado Grand Budapest Hotel, um local onde a elegância e o luxo não deixam nada a dever a vivalma. Aqui tem início uma longa conversa entre o misterioso Monsieur Moustafa (F. Murray Abraham) e o autor do livro “The Grand Budapest Hotel”, um escritor preso numa encruzilhada criativa e que é protagonizado por Jude Law. Uma conversa que virá desenterrar memórias e personagens que habitaram o hotel numa outra época, outros tempos, aqueles que anteriormente pintaram a ouro e felicidade o dia-a-dia da unidade hoteleira. Um diálogo que se serve como acompanhamento a um ostensivo jantar constituído por variadíssimos pratos e iguarias, para condizer com os rocambolescos episódios de amor e ódio, manhas e ciladas, assassinatos e coragem. Uma história deliciosamente contraditória e complexa quanto-baste, onde o mais importante habitante das memórias é Gustave H. (Ralph Fiennes), outrora um brilhante “concierge” do famoso hotel, um verdadeiro mestre de sedução e de cerimónias, leitor e declamador de poesia romântica. O enredo desenrola-se no decorrer de uma guerra imaginária, porém recheada de referências a duas guerras reais (a Segunda Guerra Mundial e da crise da Polónia), e todo o enredo é complexo e bizarro até à medula, com personagens sedutoras e romantizadas através de códigos distorcidos e que parecem postular a invenção de novos cânones e linguagens cinematográficas.

The Grand Budapest Hotel

Num ambiente de um mistério digno de uma Ágatha Christie, e numa Europa que parece condenada ao abismo, às personagens é dado o espaço e a liberdade para que se revistam de qualidades e valores verdadeira e incontornavelmente humanos. Uma obra que parece funcionar como uma (ostentosa) reflexão ao desaparecimento da velha Europa,  algo como um electrizante ensaio sobre a tragédia onde nenhuma premissa aberta é deixada ao abandono.

Wes Anderson chega e desamar-nos por completo, investindo nestes 100 minutos todos os ingredientes mágicos que fazem da sua cinematografia aquela fórmula inigualável e que nos faz sair da sala com a única constatação possível: Não, não há outro como ele.

 

(Ok, mentimos. Há uma outra constatação: a de que pelos vistos andamos a perder os melhores bolos do Mundo.)

 

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