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Virginia ou a “loja bonequinha”

As pessoas devem sentar-se e conversar. É assim que Francisco Casaca justifica o ambiente acolhedor - quase demasiado familiar para nos irmos embora - da loja You’ve Done it Again, Virginia.

Sita à Rua do Breyner, 340, em pleno quarteirão Miguel Bombarda, no Porto, e aberta desde Maio deste ano, a loja de Margarida Pinto e Francisco Casaca, dois profissionais das letras sem background na área da moda, foi o concretizar da aventura de “venderem ousadia”.

A história desta loja é feita de acasos. Acaso o Francisco e a Margarida se terem conhecido num festival de cultura japonesa. Ou a Margarida vir de Lisboa para o Porto há 5 anos – e ficar, por não conseguir deixar de amar a cidade. Terem-se reencontrado há ano e meio, através de uma amiga comum. Quererem seguir rumos diferentes nas suas vidas. Serem duas pessoas completamente diferentes que se complementam. Acaso ser no Porto. E a Virginia tornou-se assim num acaso feliz.

A loja “bonequinha”

Quando chegamos à lojinha envidraça, mal damos por ela, não fossem as peças divertidas nos bustos e as frases invertidas no vidro da montra. Se espreitamos para o lado de dentro, é como se o olhar nos fugisse para uma casa de bonecas, e se entramos, apercebemo-nos de que foi mesmo num mundo encantado que acabámos de entrar. Uma loja feminina, forrada a papel de parede, com armários recuperados e “comprados na feira de velharias da Igreja de Cedofeita pela Margarida”, com espelhos que “são portas de armários” e vestidos pendurados do tecto em cabides nada convencionais. Como diz o Francisco, “esta é a loja “bonequinha” que faltava no quarteirão”. Onde as pessoas se podem sentar, conversar e ouvir música. Francisco diz-nos que essa é também a dinâmica dos donos das lojas pequeninas do quarteirão de Miguel Bombarda, que gostam de vir cumprimentar a Virginia.

A Sala de Estar da Avó

No espaço interior da loja, encontramos uma sala encantadora, fornecida com móveis de outros tempos. Francisco Casaca gosta especialmente daquela sala – a que chama, carinhosamente, “sala de estar da avó”-, com a decoração ainda e sempre em progresso, com um ar vintage, a pedir actividades diferentes. Projectadas para aquele espaço estão a exposição e manufactura de joalharia e reforma de vestidos. O espaço prolonga-se até ao pátio exterior coberto, onde se poderá assistir, em breve, a exposições, filmes e projecções, no ambiente de empatia familiar de toda a Virginia, o que a torna uma lojinha multifacetada – e, ainda assim, sem procurar concorrer com nenhuma loja do quarteirão. Com a colaboração da Breyner 85 e do Pedro Pinto, vão procurar promover eventos, e assumir a Virginia como espaço musical, de eventos ou de exposição fotográfica, como acontece com a fotografia da Vera Marmelo.

Originais Irrepetíveis

É esta mística da loja e de quem nela “habita” que justifica a atitude perante o público e os amigos. Se a Virginia fosse uma mulher, seria sofrida, complicada, “saudavelmente desequilibrada”, ao mesmo tempo que seria confiante – com todos os problemas que isso traz -, bem-disposta, e que não desiste, que se tenta encontrar e “ousa ousar”. E, segundo Francisco Casaca, é preciso ter coragem para usar as peças que a Virginia vende. Isto porque, segundo ele, no Porto, ao contrário de Lisboa, “as pessoas olham e não pedem desculpa, não desviam o olhar”. E é preciso ter coragem para ser olhado. “Há clientes que experimentam vários vestidos, e podem até ter o corpo certo, mas chegam ao fim e não têm coragem para usar aquela peça com aquele pormenor.” Francisco diz que os pormenores – “discretos, mas não banais” – é que fazem das peças “os originais irrepetíveis”. E, talvez por a aposta da Virginia ser em peças únicas, é que a sua atitude não tem como objectivo final o lucro, e a sua fórmula parece ser “não repetir”. Até a loja parece ser permanentemente mutável porque, em cada estação, irá mudar de decoração, e as peças estarão dispostas de outro modo – exemplo disso são os sapatos em cima de um aparador, que já foram servidos em bandejas.

Amigos & Criadores

Margarida e Francisco assumem a loja como um ponto de passagem. E não tanto um porto de chegada. Acolhem os amigos que merecem a oportunidade e dão-lhes o “empurrãozinho” que precisam para se lançarem em voos mais altos. Tal é o caso da Telma Araújo, designer de moda formada no Citex, que pegou na mão que a Virginia lhe deu e tem, neste momento, em exposição, t-shirts especiais para pessoas únicas.

Há nomes e marcas que têm lugar na Virginia pelo encantamento que produziram na dupla de proprietários, mas também por se dirigirem ao público procurado. A Hard Hearted Harlot, de S. João da Madeira, marca pelo calçado exuberante, elegante e feminino, cheio de glamour e que chama a atenção – tanto em exposição, como no pé. A Tilly Bloom, criadora de acessórios desconcertantes, ocupa um lugar de destaque na loja e chama todas as atenções, e combina extraordinariamente bem com as malas e clutchs handmade da Emma Gordon, a fazer conjunto com um vestido ou blusa da Darimeya. A Yobordo, marca galega de t-shirts que começou com peças masculinas, tem lugar na Virginia, e passa para a próxima estação, com peças muito femininas – ilustradas com mensagens sempre divertidas.

A dar o toque de irreverência, podemos encontrar a Disaster, criadora de malas, porta-moedas e acessórios – como vendas para dormir, espelhos compactos personalizados ou luvas -, os acessórios com formas celulares da Nervous System ou as sapatilhas perfumadas da Victoria, para várias idades, e com pormenores feitos para dar nas vistas.

A Virginia além-Rua-do-Breyner

A Virginia assume-se como uma “loja analógica”, mas tem planos para o meio digital. Pela mão de uma amiga da Margarida, a e-shop da Virginia estará, em breve, online. Mas não é uma e-shop qualquer. “Todas as coisas na Virginia têm um twist, que a distingue de todos os outros.” Na manga – do vestido ou da blusa –, a Virginia tem uma fanzine em edição limitada, promoções especiais e novos nomes para a próxima estação.

Francisco abre a caixinha das surpresas. “Na próxima estação, devemos ter a Pesqueira connosco, uma marca argentina, a Bloots – embora já tivéssemos querido trabalhar com eles no Verão, mas já não tinham os modelos específicos que nós queríamos; vamos continuar com a Hard Hearted Harlot, porque eles têm uma linha de botins que nós queremos vender na Virginia; a Tilly Bloom – aliás, estamos a planear promover um fim semana dedicado à Tilly -; a Emma Gordon; a Yobordo e a Darimeya; a Amores de Tóquio, a Melissa, a Hobo e a Scheda.” Ana Encarnação também está entre os carinhos da Virginia. “A Ana tem a facilidade de se adaptar ao perfil do cliente e está sempre em formação contínua, e, por acreditarmos nela, vamos ter peças dela na próxima estação.”

E no quarteirão?

Francisco consegue identificar o perfil da maior parte das lojas do quarteirão de Miguel Bombarda. E, mesmo assim, sabe que a Virginia é diferente. Talvez porque gosta de assumir o bizarro, o estranho, o original e por não ter preconceitos. Ao imaginarem com quem se sentariam a falar, perdendo a noção do tempo, Francisco diz que poderia ser “com um poeta, um músico, o sr. do Carocha, o Herberto Helder, a menina Erasmus do Gato Vadio ou o senhorio.” Todas as interacções são valiosas porque “levantar todos os dias é uma experiência nova”.

Planeiam para breve uma edição de colecção de postais Virginia com frases e informação sobre a loja. “Num conjunto de 25 postais coleccionáveis que qualquer pessoa leva, mesmo que não esteja à procura de roupa”, adianta Francisco. Está ainda previsto o lançamento de tiras de comics – uma tira por dia com um amigo de ambos, para “o obrigar a lançar-se na Virginia, porque nós gostamos de lançar os amigos e as suas ideias”.

E se seguirmos à letra o que os The National nos dizem na música que inspirou o nome da loja, a Virginia “put a record on”, “reinvent herself” e “make another masterpiece while I am dreaming”



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