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VODAFONE PAREDES DE COURA 2017 (parte II)

Com o aproximar do fim-de-semana é natural que o número de festivaleiros aumente progressivamente em redor do festival. Ainda assim, não deixou de ser surpreendente que antes das 18h30 encontrássemos uma fila bastante longa para aceder ao festival, algo não muito normal em Paredes de Coura.

Por esta altura já os Cave Story debitavam o seu repertório no palco Vodafone.FM, como uma máquina bem oleada e que não perde tempo com adornos supérfluos, soando sempre escorreitos os seus temas.

O tempo algo limitado designado às bandas que abrem o palco principal levou a que Bruno Pernadas tocasse apenas uma mão cheia de temas, dado que muitas das suas canções se aproximam da dezena de minutos. A curta duração do concerto fez com que a selecção de temas fosse praticamente um best of, em especial do seu álbum “Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them”. Foi especialmente interessante ver uma moldura humana bastante numerosa, tendo em conta que se tratava do primeiro artista a pisar o palco Vodafone nesta terceira jornada. Sabe bem ver a música do maestro Pernadas a ganhar cada vez mais adeptos e a chegar a cada vez mais ouvidos.

Seguia-se no palco secundário o escritor de canções Andy Shauf. Com base na qualidade do mais recente trabalho “The Party”, lançado por meio da Anti, aguardávamos com curiosidade a sua prestação. O canadiano transportou na perfeição a natureza suave e melosa dos temas para este registo ao vivo, onde destacamos o duo de clarinetes que o acompanha, instrumento que o próprio também sabe tocar, embora não fosse necessário neste caso. Destaque especial para a veia sonhadora «Martha Sways» e para o incontornável «The Magician». A rever numa sala pequena perto de si.

Ecoavam já as vozes dos Young Fathers no anfiteatro natural quando regressámos ao palco principal do festival. Será legítimo afirmar que Kayus Bankole, Graham Hastings, Alloysious Massaquoi conquistaram o público desde as primeiras ondas sonoras, metendo toda a gente a bater o pézinho. No mínimo, porque havia mesmo franjas do público entregues a movimentos mais audazes e extrovertidos, tendo atingido o clímax em «Only God Knows». O trio escocês, que se apresentou acompanhado dum quarto elemento que se ocupou da percussão, provou que a atitude faz milagres, e que é quase sempre contagiante na relação com a audiência, para o bem ou para o mal. Obviamente que os ritmos pujantes da maior parte dos seus temas também ajudam a levantar a poeira. A entrega foi tanta que Kayus Bankole necessitou de oxigénio adicional, prontamente proporcionado pelos serviços médicos sempre disponíveis no recinto de Paredes de Coura. A excepção deste registo é «Get Started», com os seus contornos de hino, e que permite perceber o alcance vocal de Alloysious. Claramente um dos concertos que ficam na memória desta 25.ª edição do festival. No final até o sol parecia rendido aos Young Fathers, tais eram as cores com que pintou o céu na ponta final desta tardinha.

Bem ritmados são também os Moon Duo, que tomaram conta do palco Vodafone.FM seguidamente. A banda originária de Portland tinha pontificado horas antes na sessão secreta do dia, que decorreu, desta feita, em frente ao edifício da Câmara de Paredes de Coura. O duo, que em palco transforma-se em trio, apresentou o seu som de marca, no qual mesclam rock com sintetizadores, assente em ritmos lineares que acabam por ser o veículo para as escapadelas psicadélicas da guitarra de Ripley Johnson. Um concerto morno dentro da contenção consciente da banda.

Após o workshop de jazz dos BadBadNotGood, recebido efusivamente pela multidão colocado em frente ao palco principal, recebíamos os portugueses Octa Push no palco oposto. Com uma actuação em crescendo, a dupla formada pelos manos Leonardo e Bruno Guichon conseguiu armar um tremendo bailarico graças essencialmente ao cheirinho africano dos temas do seu mais recente registo de estúdio, intitulado “Lìngua”. Ao lado da dupla estiveram em palco as vozes de Cátia Sá e Cachupa Psicadélica, além de Bruno do Show em formato vídeo na faixa «Mana». Ficou provada a crescente maturidade da dupla e que, cada vez mais, os Octa puxam!

Era altura de abastecer na renovada e variada zona de restauração do festival, onde proliferavam ofertas gastronómicas para todos os paladares, muitas delas bem distintas das tendências que costumam encontrar-se nestes eventos. Dada a proximidade foi possível irmos atestando que a energia do rock n’ roll dos repetentes Japandroids mantém-se incólume.

Seguir-se-ia uma pausa demasiado longa, provocada por problemas técnicos que atrasaram em 40 minutos o arranque da performance dos Beach House, cabecilhas desta sexta-feira. O arranque não foi suficientemente luminoso para nos fazer resistir à longa espera, principalmente numa altura em que o palco secundário fica parado até que termine o último concerto no palco Vodafone. O som da banda encabeçada por Victoria Legrand e Alex Scally pareceu algo deslustrado e a voz demasiado trémula. A inexistente iluminação, marca registada da banda, tornou tudo ainda mais inconsequente.

Era chegado o derradeiro dia do Vodafone Paredes de Coura 2017, aquele que previsivelmente trouxe mais gente ao recinto, num total recorde de 28 mil pessoas, segundo dados da organização. Chegámos ao recinto ainda a tempo de escutarmos ao longe o simpático indie-pop dos vimaranenses Toulouse, a quem coube a honra de cortar a fita do palco secundário nesta data.

Já o palco Vodafone tinha como primeiro nome neste Sábado Manel Cruz, que trouxe a sua Estação de Serviço até Paredes de Coura. As novas composições que nos veio apresentar são corpos estranhos a que a sua inconfundível traz sentido, colando as múltiplas peças que as formam. Os temas vão desde valsas avariadas Tom Waitsianas até música quase pueril, mantendo sempre uma veia experimental que acaba por transmitir-lhe um fio condutor bem peculiar, com as letras a centrarem-se bastante no binómio Deus e diabo. Além de «Borboleta», canção repescada no espólio do seu projecto Foge Foge Bandido, Manel Cruz não deixou de entoar os parabéns ao festival, à imagem do que os Mão Morta fizeram no dia inaugural.

O palco Vodafone.FM prolongava o arranque luso deste último dia com White Haus a transformá-lo num autêntico club. João Vieira e seus compinchas encheram as colunas de batidas gordas energéticas, como é hábito, beneficiando dum som melhor que aquele que tínhamos assistido no festival MIL. Desta feita, quem saiu lesionado foram os festivaleiros que não marcaram presença.

A festa prosseguiu bem animada no palco principal, ainda que com uma banda sonora completamente diferente proporcionada pelos excêntricos Foxygen. Através do seu pop retro, munido dum trio de metais europeu, ora transbordando fofura, ora ganhando músculo que nem um herdeiro do rock mais clássico, ora trazendo à memória Bob Dylan, garantiram um espectáculo abraçado avidamente pela plateia, com o carismático Sam France sempre no centro de todas as atenções.

Alex Cameron era o senhor que se seguia no riquíssimo alinhamento de Sábado e assinou outro dos grandes concertos desta edição. Nunca largando a sua pose de entertainer, que torna quase impossível não classificá-lo como o Father John Misty australiano, a sensualidade está sempre presente, em especial quando o saxofone de Roy Molloy entra em acção. O músico australiano pega inclusivamente na guitarra em « The Chihuahua», mostrando ser mais que um interessante vocalista. Dedicou simpaticamente «The Comeback» aos Foxygen, tendo sem dúvida contribuído para o espírito positivo que desejou desde o início que o público manifestasse. Mais do que ter os pés bem assentes na terra, importa que Alex Cameron os assente mais vezes em palcos portugueses.

Dado que o dia parecia destinado a músicos carismáticos, a grelha de concertos indicava Benjamin Clementine ao início da noite. Após o mui amado “At Least for Now”, que trouxe o músico londrino ao nosso país bastantes vezes, Benjamin Clementine dedicou os últimos meses à feitura do segundo disco, que sairá em meados de Setembro, sob o nome “I Tell a Fly”. Além de tudo o mais que Benjamin aporta, o mágico concerto em Paredes de Coura serviu para escutarmos em primeira mão os novos temas, que soaram tão bem ou melhor que aqueles que já nos eram familiares, como «Cornerstone» ou «I Won’t Complain». Canções como «God Save the Jungle», «Jupiter», ou o arrepiante «Phantom of Aleppoville», primeiro single do novo trabalho, constituem na perfeição a banda-sonora do mundo dos nossos dias, onde fronteiras e ódios são (re)erguidos vertiginosamente. “I Tell a Fly” traz-nos cravo e coros fantasmagóricos a cada esquina, valendo com um autêntico black album colectivo. E que dizer do momento solene que foi «Condolence»? O anfiteatro natural em silêncio numa autêntica aula de canto oferecida pelo professor Clementine. Para guardar nas melhores memórias desta e de outras edições.

Ty Segall apoderou-se posteriormente do palco Vodafone para alimentar a nuvem de pó que pairou sobre o recinto na noite de Sábado, mercê tanto da maior multidão, como das excursões de rock assinadas pelo prolífero californiano.

Como é timbre dos concertos das bandas que não têm propriamente um disco novo para mostrar, os Foals aproveitaram a presença para tocar um autêntico greatest hits de 15 temas no Minho. Desde « Olympic Airways», « Spanish Sahara», passando por «My Number» e «Mountain At My Gates», o grupo de Yannis Philippakis exibiu marcos de todos os degraus de maturidade que têm percorrido até ao momento actual. Aquilo que sobrou em variedade pareceu faltar em energia, pelo menos a nível sonoro, dado que a entrega da banda não está minimamente em questão. Destaque para a parte imagética do concerto, apenas equiparável à qualidade mostrada pelos Mão Morta.

Para finalizar a nossa estadia em Paredes de Coura, e depois do fecho do palco principal com explosões de confettis ao som de «All MyFriends» dos LCD Soundsystem, dançámos até à exaustão ao som de mais uma demonstração de poder dos Throes + The Shine. Apesar da baixa do MC Diron, o colectivo luso-angolano não soçobrou nem por um segundo, reforçando-se com Fabíola para ajudar nas vozes. Demos graças por o piso que envolve o palco secundário ser calçada, caso contrário a referida nuvem de pó, no meio de tanto rockuduro teria ressuscitado de forma insuportável.

Foram mais 4 dias sensacionais por terras minhotas, entre uma mão cheia de concertos memoráveis e as mãos hospitaleiras das gentes que o acolhem. Até para o ano!



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